O Dia do Psicólogo, celebrado nesta quinta-feira (27), reforça a importância do cuidado com a saúde mental e coloca em debate um dos principais obstáculos para quem busca ajuda: o acesso à psicoterapia.
Embora a terapia esteja cada vez mais presente nas discussões sobre bem-estar, profissionais ainda enfrentam o preconceito e a dificuldade de parte da população em encontrar atendimento de qualidade e compatível com sua realidade financeira.
Para a psicóloga Flávia Marsola, a procura por terapia não deve ser associada apenas a momentos de crise. Segundo ela, o acompanhamento também pode atuar na prevenção e no desenvolvimento emocional.
“Terapia não é uma reparação de emergência, é um espaço de prevenção, autoconhecimento e desenvolvimento emocional”, afirma.
A psicóloga clínica Laynara Paiva, que atua na área há cerca de uma década, também defende uma mudança na forma como a sociedade encara a psicoterapia. Para ela, ainda existe a ideia equivocada de que buscar ajuda seria sinal de fraqueza ou incapacidade para lidar com os próprios problemas.
A terapia pode ajudar na compreensão de emoções, comportamentos, relacionamentos e padrões que se repetem ao longo da vida. As especialistas ressaltam, porém, que nem todo sofrimento representa necessariamente um transtorno mental.
Com a popularização de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais, também aumentou o número de pessoas que identificam sintomas por conta própria e tentam chegar a diagnósticos sem acompanhamento profissional.
Custo ainda afasta pacientes
Apesar do crescimento das conversas sobre saúde mental, o acesso continua sendo um dos principais desafios. O preço das sessões particulares, a oferta limitada de profissionais e as dificuldades encontradas na rede pública podem impedir que muitas pessoas mantenham um acompanhamento regular.
As próprias condições de trabalho dos psicólogos também são apontadas como um problema. Entre as dificuldades estão a baixa remuneração, repasses considerados insuficientes por planos de saúde e a ausência de um piso salarial unificado para a categoria.
Para a psicóloga e neuropsicóloga Juliana Gebrim, as diferenças econômicas e sociais entre os pacientes também precisam ser consideradas. Ela defende o fortalecimento da rede pública e a ampliação das opções de atendimento.
Além dos consultórios particulares, existem alternativas como Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), clínicas-escola de universidades, projetos sociais e profissionais que oferecem atendimento a preços sociais.
O teleatendimento em saúde mental também ampliou as possibilidades para quem enfrenta dificuldades de deslocamento ou de acesso presencial. Uma das iniciativas disponíveis é o atendimento remoto oferecido pelo SUS por meio do Meu SUS Digital, embora a modalidade não seja adequada ou suficiente para todas as situações.
Inteligência artificial pode substituir a terapia?
Outro fenômeno que ganhou força nos últimos anos é o uso de ferramentas de inteligência artificial como espaço para desabafar, falar sobre problemas pessoais ou buscar orientações.
A disponibilidade permanente, a rapidez nas respostas e a sensação de conversar sem julgamento estão entre os fatores que atraem usuários para os chatbots.
As psicólogas, no entanto, fazem um alerta: uma conversa com inteligência artificial não equivale a uma avaliação psicológica nem a um processo de psicoterapia.
A tecnologia pode ter utilidade complementar, como ajudar a organizar pensamentos, registrar emoções, buscar informações gerais sobre saúde mental ou preparar questões para serem discutidas posteriormente com um profissional.
Na terapia, porém, o psicólogo acompanha a história do paciente ao longo do tempo, identifica padrões de comportamento e estabelece uma relação terapêutica baseada em escuta, vínculo e responsabilidade ética.
Por isso, diante de sofrimento persistente ou de dificuldades que interferem na rotina, a orientação dos profissionais é buscar atendimento especializado em vez de utilizar ferramentas digitais como substitutas da terapia.





