Por Luciano Borborema
Existem artistas que fazem músicas de sucesso. Existem artistas que se tornam símbolos de uma época. E existem aqueles que conseguem fazer as duas coisas enquanto desafiam tudo aquilo que esperavam deles. Rita Lee pertence a essa última categoria.
Cantora, compositora, instrumentista, escritora e uma das maiores personalidades da cultura brasileira, Rita Lee construiu uma carreira marcada pela liberdade. Em um país acostumado a estabelecer regras sobre como uma mulher deveria se comportar, ela escolheu fazer exatamente o contrário: inventou seu próprio personagem, sua própria linguagem e seu próprio lugar na música. E o mais impressionante é que fez isso sem perder o humor.
Nascida em São Paulo, em 1947, Rita Lee começou a se aproximar da música ainda adolescente. O encontro com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias daria origem, em 1966, aos Mutantes, banda que se tornaria uma das experiências mais ousadas da música brasileira.
Os Mutantes não pareciam com quase nada que existia no Brasil naquele momento. A banda misturava rock psicodélico, música brasileira, experimentalismo, humor e instrumentos pouco convencionais. Rita estava no centro daquela revolução.
A participação no movimento tropicalista ampliou ainda mais sua projeção. Ao lado de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes, ela ajudou a construir uma nova maneira de pensar a música brasileira: sem medo de misturar guitarra elétrica com ritmos nacionais, referências estrangeiras com elementos da cultura popular.
Mas Rita Lee não ficaria para sempre associada aos Mutantes.
Em 1972, começou uma nova fase ao lado de Lúcia Turnbull, formando a dupla Rita Lee & Tutti Frutti. Pouco depois, sua parceria com Roberto de Carvalho se tornaria uma das mais importantes da música brasileira.
Juntos, eles criaram uma sequência impressionante de sucessos.
“Mania de Você”, “Lança Perfume”, “Ovelha Negra”, “Agora Só Falta Você”, “Doce Vampiro”, “Baila Comigo”, “Desculpe o Auê” e “Amor e Sexo” são apenas alguns exemplos de uma obra que conseguiu algo raro: ser popular sem abrir mão da personalidade.
Rita Lee e a arte de transformar
Talvez uma das maiores contribuições de Rita Lee tenha sido mostrar que o humor também poderia ser uma ferramenta de transgressão.
Ela brincava com temas considerados tabu, ironizava padrões sociais e falava de amor, desejo, comportamento e liberdade com uma naturalidade que muitas vezes surpreendia o público.
Mas por trás da irreverência havia uma compositora extremamente sofisticada.
Rita sabia construir melodias pop extremamente eficientes e, ao mesmo tempo, escrever letras inteligentes, cheias de duplos sentidos, ironias e observações sobre a sociedade.
Era justamente essa combinação que fazia suas músicas parecerem leves na primeira audição e muito mais profundas quando ouvidas novamente.
Ela conseguia falar sobre assuntos sérios sem transformar a música em discurso.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais sua obra envelheceu tão bem.
A mulher que ajudou a mudar o papel feminino no rock brasileiro
Em uma época em que o rock ainda era visto principalmente como um território masculino, Rita Lee ocupou o palco com uma postura completamente diferente daquela que esperavam de uma mulher.
Ela não queria ser apenas a cantora da banda.
Queria tocar, compor, decidir, experimentar e construir sua própria carreira.
Mais do que isso: queria ter o direito de rir de si mesma, de falar sobre sexo, de desafiar padrões e de envelhecer sem desaparecer.
Ela mostrou que uma mulher poderia ser sensual sem ser reduzida à sensualidade, engraçada sem perder credibilidade e popular sem deixar de ser provocadora.
Uma máquina de criar hits
Uma das maiores provas do talento de Rita Lee está na quantidade de músicas que se transformaram em parte da memória afetiva dos brasileiros.
“Lança Perfume” virou fenômeno popular.
“Mania de Você” tornou-se um clássico romântico.
“Ovelha Negra” atravessou gerações.
“Baila Comigo” levou sua música para outro público.
“Amor e Sexo” ganhou vida própria no imaginário brasileiro.
E “Agora Só Falta Você” continua sendo cantada décadas depois de seu lançamento.
Rita tinha uma habilidade especial para transformar situações do cotidiano em canções que pareciam ter sido escritas para milhões de pessoas.






