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Cientistas brasileiros descobrem vírus com potencial para combater bactéria resistente a antibióticos

Bacteriófago foi capaz de infectar e eliminar linhagens de Klebsiella pneumoniae, associada a casos graves de pneumonia e sepse

Pesquisadores brasileiros identificaram um novo bacteriófago — vírus capaz de infectar e destruir bactérias — com potencial para combater diferentes linhagens da Klebsiella pneumoniae, uma bactéria que pode apresentar resistência a diversos antibióticos e está associada a infecções graves, como pneumonia, infecções urinárias e sepse.

Batizado de KP47, o vírus foi estudado por pesquisadores do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (Cepid B3). Os resultados foram publicados na revista científica BMC Microbiology.

Além de conseguir eliminar algumas das bactérias testadas, o KP47 apresenta uma característica que chamou a atenção dos cientistas: o vírus possui uma possível nova enzima do tipo despolimerase, capaz de degradar a cápsula que protege a bactéria e também de atuar sobre estruturas conhecidas como biofilmes.

Bactéria é uma preocupação nos hospitais

A Klebsiella pneumoniae é frequentemente encontrada em ambientes hospitalares e pode provocar infecções especialmente graves em pacientes internados por longos períodos, pessoas transplantadas e indivíduos com o sistema imunológico comprometido.

Segundo os pesquisadores, o potencial do KP47 está justamente na capacidade de atingir bactérias que já desenvolveram resistência aos medicamentos disponíveis.

Os bacteriófagos, também chamados de fagos, são vírus que infectam especificamente bactérias. Eles estão presentes em praticamente todos os ambientes e exercem papel importante no controle das populações bacterianas.

Diferentemente dos antibióticos, que podem atingir diferentes tipos de bactérias, os fagos costumam ser altamente específicos. Essa característica é uma vantagem, mas também representa um dos desafios para o desenvolvimento da chamada fagoterapia.

Como funciona a fagoterapia?

Para utilizar um bacteriófago no tratamento de uma infecção, é necessário identificar a bactéria responsável pela doença e verificar se ela é sensível ao vírus disponível.

O tratamento pode ser administrado de diferentes formas, dependendo do tipo e da gravidade da infecção, incluindo as vias intravenosa, oral e inalatória. Também pode ser aplicado diretamente em feridas ou queimaduras.

A especificidade, porém, pode dificultar o tratamento de infecções causadas por várias espécies de bactérias. Nesses casos, um fago capaz de eliminar apenas uma delas pode não ser suficiente para controlar a infecção.

Resistência aos antibióticos aumenta preocupação

O interesse pelos bacteriófagos voltou a crescer diante do avanço mundial da resistência antimicrobiana. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada seis infecções bacterianas já não responda adequadamente aos antibióticos.

O problema está relacionado, entre outros fatores, ao uso excessivo e inadequado desses medicamentos, inclusive na produção animal.

A fagoterapia não é uma novidade. Os primeiros estudos sobre vírus capazes de destruir bactérias começaram há mais de um século. Antes da popularização dos antibióticos, os fagos chegaram a ser utilizados experimentalmente no tratamento de algumas infecções.

Com a descoberta da penicilina e o desenvolvimento de novos antibióticos, porém, a terapia perdeu espaço na medicina ocidental. Nas últimas décadas, o aumento da resistência bacteriana fez com que pesquisadores voltassem a investigar seu potencial.

Tratamento ainda não está disponível de forma ampla no Brasil

Apesar dos resultados promissores, os bacteriófagos ainda não são uma terapia disponível de forma ampla no Brasil. Um dos obstáculos é a ausência de uma regulamentação específica para avaliar e autorizar tratamentos desse tipo.

Pesquisadores vêm discutindo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a criação de uma estratégia regulatória. Segundo a agência, até o momento nenhum produto de fagoterapia havia sido submetido para análise.

Em alguns países, tratamentos experimentais já são utilizados em situações específicas, principalmente quando pacientes apresentam infecções graves que não respondem aos antibióticos disponíveis.

O que os pesquisadores descobriram sobre o KP47

Para chegar ao resultado, os cientistas analisaram o material genético do KP47, encontrado originalmente em amostras de esgoto do Reino Unido. Em laboratório, o vírus foi testado contra nove variedades de Klebsiella pneumoniae.

O bacteriófago conseguiu infectar e eliminar duas das nove linhagens analisadas. Embora o resultado ainda seja inicial, os pesquisadores consideram que ele demonstra potencial para novos estudos.

A descoberta da possível despolimerase também abre outra frente de pesquisa. A enzima pode ajudar a degradar a cápsula que envolve a bactéria e dificulta a ação do sistema imunológico e de tratamentos.

Próximos passos

A próxima etapa será investigar com mais detalhes como a despolimerase funciona, quais receptores da bactéria são utilizados pelo KP47 durante a infecção e qual é o potencial terapêutico do vírus e de suas enzimas.

Pesquisadores do Cepid B3 e do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos também trabalham em parceria com o Instituto Butantan para criar um banco de bacteriófagos purificados, que poderá facilitar futuras pesquisas e o desenvolvimento de terapias contra bactérias resistentes.

O KP47 ainda precisa passar por estudos experimentais mais avançados antes de qualquer eventual aplicação clínica. A descoberta, no entanto, reforça a busca por alternativas diante de um dos principais desafios atuais da saúde pública: as infecções cada vez mais difíceis de tratar com antibióticos.

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