A situação ambiental da Praia do Camerum, na região do bairro Mossoró, em São Pedro da Aldeia, voltou a despertar preocupação entre moradores e pescadores do município. Em uma nova visita à localidade, realizada na quinta-feira (05), a reportagem do podcast Expressão do Povo constatou que os problemas denunciados anteriormente continuam presentes e, segundo o registro feito pela equipe, se agravaram.
Tragédia mais do que anunciada, a situação já havia sido denunciada pela reportagem em maio de 2025. O Expressão do Povo esteve no local e mostrou a presença de uma grande concentração de esgoto. Um ano e meio depois, o retorno ao Camerum revelou um cenário que, na avaliação da equipe, está ainda pior, sem que os problemas denunciados tenham recebido uma solução efetiva.
Durante a gravação, foram registrados trechos da margem da lagoa com lama escura, forte mau cheiro e grande quantidade de resíduos descartados irregularmente. Sacolas plásticas, tampas e outros materiais foram encontrados espalhados pela área, evidenciando também problemas relacionados ao descarte inadequado de lixo.
Mais do que o aspecto visual, a situação representa uma preocupação para quem vive da lagoa e acompanha, diariamente, as mudanças na região. Para os pescadores, a degradação ambiental afeta não apenas o espaço utilizado pela população para lazer, mas também uma atividade econômica tradicional, da qual dependem diversas famílias.

Pescadores relatam prejuízos e cobram providências
Um dos moradores ouvidos pela reportagem foi o pescador Geraldo, nascido e criado em São Pedro da Aldeia. Ele contou que acompanha as mudanças na lagoa há muitos anos e lamentou as condições encontradas na região. Segundo ele, a degradação interfere diretamente na rotina de quem depende da pesca para sobreviver.
“Os pescadores, a maioria, só se vê nas obras, trabalhando. Porque eles saem para pescar, mas o pescado some. Com esse tipo de assoreamento, de esgoto”, relatou.
Geraldo também demonstrou preocupação com o futuro da atividade pesqueira e lembrou que a lagoa já teve uma abundância de espécies que, segundo ele, se tornaram cada vez mais difíceis de encontrar.
“Antigamente, quando eu era molequinho, pegava a redinha, minha mãe ia comendo um camarãozinho para almoçar, eu olhava e vinha o risco do camarão. Eu vi, hoje eu não vejo. […] Aqui na nossa lagoa era de balde”, recordou.
O pescador ainda fez um apelo às autoridades e destacou que a preservação da Lagoa de Araruama precisa ser tratada como prioridade, tanto pela importância ambiental quanto pelo sustento das famílias que vivem da atividade pesqueira.

“Nós temos nossas crianças, nós temos quem gosta de uma praia. Eu tomei várias vezes banho nessa praia. Hoje, se eu pisar ali, acho que vai ser enterrado no esgoto. Vocês comem do nosso pescado, eu não acredito que vocês não comam do nosso camarão, das nossas tainhas. As nossas tainhas já não estão vindo com aquela faixa de crescimento, das ovas. Vamos ajudar a gente, vamos ajudar os pescadores. Vocês de grandes posses, deputados, prefeitos, vamos olhar por isso. A gente paga o nosso PTU. Pagamos nossos impostos. Vocês estão vendo, não estamos mentindo. Nós dependemos desse trabalho, da pescaria. A pescaria é um trabalho, é uma profissão. Cada cidadão daqui depende dessa lagoa. Olhem por isso. Vocês órgãos façam alguma coisa, pelo amor de Deus”, afirmou.
Além das condições da margem, a reportagem registrou a presença de sacolas de lixo e materiais plásticos espalhados pelo local. Durante a gravação, Geraldo também chamou a atenção para a responsabilidade da própria população no descarte correto dos resíduos.
“A pessoa também não se conscientiza. Vamos botar o seu lixo no lixo. Aqui está cheio de saco. Jogam lixo nas margens. Tudo saco de lixo. Bota o seu lixo num saquinho e coloca na caçamba para a coleta recolher”, enfatizou Geraldo.

Monitoramento identificou contaminação na região
A preocupação dos moradores encontra respaldo em informações técnicas divulgadas pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Em resposta encaminhada à reportagem, o órgão informou que acompanha continuamente a situação ambiental do Camerum e de Mossoró e confirmou a realização de vistorias e análises na região.
De acordo com o instituto, a campanha de monitoramento realizada em 22 de junho de 2026 identificou elevado aporte de matéria orgânica e contaminação microbiológica na área. Também foram encontrados pontos de lançamento de efluentes tanto no Camerum quanto em Mossoró.
O Inea esclareceu, entretanto, que as fontes são difusas, o que dificulta a identificação dos responsáveis diretos. Segundo o órgão, os lançamentos podem ter origem em residências, estabelecimentos comerciais ou pequenas indústrias.
Na última semana de outubro, o instituto realizou uma nova vistoria em conjunto com a Prefeitura de São Pedro da Aldeia e uma nova campanha de coleta de amostras para análises biológicas e físico-químicas. Os resultados, segundo a resposta enviada à reportagem, estavam previstos para a próxima semana.
O instituto também destacou que a solução definitiva depende da atuação conjunta de diferentes agentes. Conforme o esclarecimento, cabe à concessionária de saneamento substituir o atual sistema de coleta em tempo seco pela rede separativa absoluta, etapa que ainda está em andamento.
O Inea acrescentou que a efetividade dessa mudança também depende da população, por meio das ligações dos imóveis à futura rede, e do poder público municipal, responsável pela limpeza das redes e galerias pluviais, além da fiscalização e do combate às ligações clandestinas de esgoto.
Em sua manifestação, o órgão resumiu a situação como um problema de corresponsabilidade, e não de responsabilidade exclusiva de um único agente.

Episódio das larvas já havia provocado preocupação em maio
A situação do Camerum não é recente. No fim de abril, imagens de uma grande concentração de organismos semelhantes a larvas na margem da Lagoa de Araruama, na altura da praia, circularam nas redes sociais e provocaram preocupação entre moradores.
Na ocasião, o Inea informou que a presença desses organismos poderia estar associada a um desequilíbrio ecológico, frequentemente relacionado à contaminação por esgoto, mas ressaltou a necessidade de análises para identificar a causa. Já a Prefeitura informou que as larvas poderiam ter origem na decomposição de vísceras de peixes descartadas após atividades de limpeza. A Prolagos, por sua vez, afirmou que não havia registro de lançamento de esgoto naquele ponto e que o sistema de tratamento e distribuição operava normalmente.
Seis meses depois, a nova visita da reportagem mostra que as reclamações sobre as condições ambientais permanecem. Embora o episódio das larvas e os problemas de contaminação identificados pelo Inea sejam ocorrências distintas, ambos reforçam a necessidade de acompanhamento técnico e de medidas efetivas para preservar a lagoa.

Órgãos foram procurados pela reportagem
Diante das denúncias e da gravidade dos problemas registrados, a reportagem entrou em contato com a Prefeitura de São Pedro da Aldeia, a concessionária Prolagos e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para saber quais providências estão sendo adotadas para enfrentar a situação e se existem medidas previstas para recuperar a área.
Até o fechamento desta edição, somente o Inea havia encaminhado resposta oficial. A Prefeitura e a Prolagos não haviam se manifestado sobre os questionamentos enviados pela reportagem.
A reportagem completa, com os registros feitos no local e os depoimentos dos moradores, está disponível no canal do YouTube do Expressão do Povo (@expressaodopovocf).






