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Anistia Internacional denunciará Javier Milei à ONU e à CIDH por ataques a jornalistas

Organização acusa presidente argentino de estimular clima de intimidação contra a imprensa; entidade cita aumento de agressões e risco à liberdade de expressão

A Anistia Internacional anunciou que denunciará o presidente da Argentina, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por declarações hostis contra jornalistas. A entidade considera que os ataques verbais do mandatário contribuem para um ambiente de intimidação e ameaçam a liberdade de expressão no país.

A iniciativa ocorre após Milei criticar publicamente profissionais que produziram reportagens investigativas sobre seu governo. Em discurso recente, o presidente citou nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodríguez, Natalia Volosin e Luis Novaresio, classificando-os com expressões ofensivas. Na mesma ocasião, afirmou que seus críticos deveriam “queimar na fogueira”.

Para a Anistia Internacional, declarações desse tipo vão além de divergências sobre a cobertura jornalística, pois expõem profissionais individualmente e podem favorecer novas agressões, além de estimular a autocensura.

Ataques ocorreram após arquivamento do caso $Libra

As declarações de Milei foram feitas após a Justiça argentina arquivar, em 23 de outubro, o caso conhecido como “criptogate”, relacionado a suspeitas de irregularidades envolvendo a criptomoeda $Libra.

O presidente havia divulgado o ativo virtual nas redes sociais, o que motivou questionamentos sobre sua possível participação no episódio. Ao arquivar o caso, o juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi concluiu que não houve crime.

Após a decisão, Milei voltou a acusar jornalistas de promoverem uma operação política e midiática contra seu governo. Em publicação na rede social X, afirmou que teria sido alvo de uma articulação destinada a prejudicar sua Presidência.

A Anistia Internacional contesta o tom das declarações e avalia que a linguagem utilizada pelo presidente representa uma escalada de hostilidade contra a imprensa.

Levantamento aponta aumento de ataques à imprensa

Para fundamentar sua preocupação, a organização citou dados do Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea). O levantamento registrou 278 ataques contra jornalistas em 2025, um aumento de 55% em relação ao ano anterior.

Segundo os dados, Milei esteve diretamente envolvido em 119 desses episódios, sendo identificado como o principal agressor individual. O monitoramento também contabilizou discursos estigmatizantes, ações judiciais contra profissionais e restrições ao acesso à informação.

A diretora-executiva da Anistia Internacional na Argentina, Mariela Belski, afirmou que o uso de referências violentas contra jornalistas pode criar um ambiente de intimidação e abrir caminho para novas agressões. A entidade defende que profissionais da imprensa possam investigar e informar com liberdade e segurança.

Organizações de imprensa também se manifestaram

As declarações provocaram reações de entidades jornalísticas, entre elas a Federação Internacional dos Jornalistas e o Sindicato de Imprensa de Buenos Aires. As organizações alertaram que os ataques públicos podem comprometer o trabalho da imprensa e o direito da sociedade de receber informações de interesse público.

A Anistia Internacional lembrou ainda que participou, em novembro de 2025, de uma audiência na CIDH sobre a situação da liberdade de expressão na Argentina. Na ocasião, organizações denunciaram agressões, violência on-line, assédio judicial e restrições à cobertura de protestos.

Jornalista brasileiro foi impedido de entrar na Argentina

Outro episódio que ampliou a repercussão sobre a situação da imprensa argentina ocorreu em 12 de outubro, quando o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr. foi impedido de entrar no país ao desembarcar em Buenos Aires.

As autoridades migratórias determinaram o cancelamento de sua residência permanente e proibiram seu reingresso por cinco anos. O jornalista é conhecido por publicar conteúdos críticos ao governo Milei e acompanhar os efeitos econômicos e sociais das medidas adotadas pela administração argentina.

A Anistia Internacional pretende levar os episódios aos organismos internacionais como parte de seu trabalho de monitoramento da liberdade de expressão e de denúncia de práticas que, segundo a entidade, prejudicam o exercício independente do jornalismo.

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