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Vidas negras e jovens são perdidas em meio à violência no Brasil

No mês da Consciência Negra, a Visão Mundial – que integra a rede World Vision, uma das mais expressivas organizações de ajuda humanitária do mundo, alerta: número de mortes violentas que têm como vítimas meninas e meninos com menos de 18 anos de idade tem aumentado no Brasil.

De acordo com dados do Ipea/Atlas da Violência e Unicef, de 1996 a 2017, 191 mil crianças e adolescentes foram vítimas de homicídio no Brasil. Outro levantamento, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, aponta que 74,4% das vítimas de violência letal no Brasil são negras e que 51% foram jovens de até 29 anos. A maioria das vítimas é de homens jovens negros e moradores de periferia.

Para mudar esta realidade, o projeto #EuSintonaPele, do MJPOP (Monitoramento Jovem de Políticas Públicas, da ONG), tem realizado ações de conscientização. Entre 2018 e 2020, o movimento atuou em nove municípios, mobilizando mais de 1.300 jovens e adolescentes e implementando cinco projetos liderados por jovens para a redução de violência em comunidades vulneráveis. Além disso, foram reunidos 38 grupos de adolescentes e jovens com formações nos temas da Segurança Pública, Racismo e Juventude.

A maioria das vítimas é de homens jovens negros e moradores de periferia. “A maioria dos jovens e adolescentes que participam do MJPOP são negros e atuam monitorando políticas públicas nas periferias das grandes cidades. Nos últimos anos, tem aumentado muito a violência contra essa juventude. A partir dessa realidade, surgiu o projeto #EuSintoNaPele para monitorar políticas de segurança pública”, explica o Diretor de Advocacy da Visão Mundial, Welinton Pereira.

“Em dois anos, foram alcançados resultados importantes, além da construção de propostas de uma política pública de segurança mais efetiva e que, acima de tudo, conta com a participação popular dos jovens, que são os principais atingidos pela violência e que, portanto, precisam ser ouvidos”, completa.

Os dados são alarmantes e, de acordo com a Visão Mundial, a necessidade de mobilização e protagonismo jovem são cruciais. Levantamento do Ipea aponta a agravante do racismo na questão da violência; de acordo com a instituição, de 2007 a 2017, a taxa de pessoas negras vítimas de homicídio aumentou 33%, enquanto que no mesmo período, entre pessoas não negras, a taxa foi de 3%.

“Ser jovem negro no Brasil é um processo de luta constante. Aqui, se você nasce preto, você nasce com uma sentença. Passar da adolescência e chegar à juventude sem nenhuma experiência de violência é um fato a ser celebrado. Não há como ser um adolescente ou jovem negro no Brasil e não viver com medo”, afirma Gabriel Dias, hoje com 25 anos, e que tem atuado junto ao MJPOP desde as primeiras ações do movimento em Salvador (BA), onde vive.

De 2007 a 2017, a taxa de pessoas negras vítimas de homicídio aumentou 33%, enquanto que no mesmo período, entre pessoas não negras, a taxa foi de 3%.

Dossiê aponta mais de duas denúncias de racismo por dia

O Instituto de Segurança Pública lançou na quinta-feira (19) um estudo inédito sobre crimes de racismo e injúria racial no Rio de Janeiro. O ‘Dossiê Crimes Raciais’ aponta que, em 2019, cerca de 70 pessoas por mês foram vítimas de racismo no Rio, em média – mais de duas por dia. O trabalho indica que 844 pessoas sofreram discriminação por motivação racial no ano passado, 766 delas eram negras.

“Em 2019, mais duas pessoas por dia foram vítimas de racismo no estado do Rio. A maioria era mulher e não conhecia seu agressor. Significa que a agressão ocorreu pura e simplesmente pela cor”, explicou Marcela Ortiz, diretora-presidente do Instituto de Segurança Pública (ISP).

O dossiê analisou cerca de 3 mil registros de ocorrência das delegacias de polícia do estado, lavrados entre 2018 e 2019, e coletou dados e palavras-chave que apontam para o crime de injúria racial e preconceito. O trabalho aponta que grande parte das vítimas são mulheres.

“Separamos termos, palavras pejorativas, que indicavam que a vítima havia sofrido ataques racistas. Os termos mais comuns foram ‘macaca’, ‘macaco’, ‘neguinha’, o que demonstra que maior parte dos alvos eram mulheres, cerca de 58%, e a maioria eram pessoas entre 40 anos e 59 anos. E esses tipos de ataques foram proferidos em ambientes públicos. Assim, a gente consegue ter ideia de quem é essa vítima, como o alvo age, e começar a agir. E esse número é muito maior, porque nem todos, infelizmente, denunciam”, afirmou Thiago Falheiros, analista do documento.

Pesquisa aponta racismo estrutural no país

Uma pesquisa PoderData mostra que 81% dos brasileiros dizem haver preconceito contra negros no Brasil por causa da cor da pele. Para 13% da população, o racismo não existe no país. Outros 6% não souberam responder.

Essa é a 2ª vez que a divisão de estudos estatísticos pergunta aos entrevistados sobre preconceito por causa da cor da pele no país. Em pesquisa realizada de 22 a 24 de junho, o percentual dos brasileiros que tinha a percepção de que existe discriminação contra pessoas negras era de 76%. Houve uma alta de 5 pontos percentuais em 4 meses. No entanto, a proporção dos que não enxergam essa prática no país permaneceu estável.

A pesquisa foi realizada pelo PoderData, divisão de estudos estatísticos do Poder360. A divulgação do levantamento é feita em parceria editorial com o Grupo Bandeirantes.

Os dados foram coletados de 9 a 11 de novembro, por meio de ligações para celulares e telefones fixos. Foram 2.500 entrevistas em 501 municípios, nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.

Vidas Negras Importam

O 1º levantamento foi realizado 4 semanas depois da morte de George Floyd, 1 homem negro de 40 anos. Ele tinha sido acusado de ter tentado pagar uma compra com nota falsa de US$ 20 em 1 supermercado. Em uma ação da polícia de Mineápolis, em Minnesota (EUA), Floyd teve o pescoço prensado com o joelho por 1 policial branco, por 8 minutos e 46 segundos e morreu por asfixia.

A morte desencadeou uma série de atos pelos EUA, Brasil e Europa. Os protestos foram liderados pelo movimento “Black lives matter” (“Vidas negras importam”, em português). Os protestos reacenderam o debate sobre a desigualdade racial e a necessidade de revisionismo histórico.

O caso de George Floyd deu força ainda à atuação de movimentos contra símbolos e estátuas que homenageavam quem teve ligações com o escravagismo. Em várias cidades da Europa, manifestantes se reuniram e derrubaram estátuas de personalidades históricas que têm em suas biografias passagens racistas e escravagistas, o que fez com que as autoridades locais as retirassem. No Brasil, houve poucos atos como esses, mas, se feitos, configurariam crimes contra o patrimônio histórico.

Depois de 4 meses, os protestos diminuíram, mas no Brasil, onde a população é majoritariamente negra, o tema se mantém vivo em debates, principalmente nas redes sociais. Atualmente, de acordo com dados de maio de 2020 compilados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 9,4% da população se autodeclara preta e 46,8% se diz parda. Os brancos somam 42,7% da população.

Além da percepção sobre a existência do racismo no Brasil, o PoderData fez a seguinte pergunta aos entrevistados: “Você diria que tem preconceito contra pessoas negras?”. O resultado do levantamento mostra que 34% dos brasileiros afirmam que sim, consideram ter preconceito contra negros –alta de 6 pontos percentuais em 4 meses, quando 28% tinham essa opinião. Já os que dizem que não somam 57%. A proporção variou negativamente no período.

Pouca evolução

As perguntas feitas pela pesquisa repetiram exatamente o que o Datafolha indagou aos brasileiros em 1995 sobre preconceito por causa da cor da pele. O levantamento resultou no livro “Racismo Cordial”.

Quando são analisados os dados dos 2 levantamentos, observa-se que hoje, 25 anos depois, o percentual dos que dizem haver racismo contra negros caiu de 89% para 81%. Só que a soma dos brasileiros que admitem eles próprios serem preconceituosos subiu de 10% para 34%.

Os dados mostram que continua válida a frase cunhada pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) nos anos 1960: “O brasileiro não evita, mas tem vergonha de ter preconceito”. No entanto, a admissão do racismo por parte de 34% da população indica o aumento do reconhecimento do problema social presente no país.

Racismo estrutural em dados

Na Síntese de Indicadores Sociais 2020 (5MB), publicada em 12 de novembro, o IBGE analisa as condições de vida da população brasileira, com base em dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2019 e de outras fontes oficiais de informação.

O estudo revela desigualdades estruturais, evidenciadas em relações de trabalho que ainda mantêm grupos populacionais como pretos ou pardos, na informalidade ou no desemprego. Um dos principais indicadores do mercado de trabalho, a taxa de desocupação, foi de 9,3% para brancos, e 13,6% para pretos ou pardos em 2019.

Entre pessoas ocupadas, o percentual de pretos ou pardos em ocupações informais chegou a 47,4%, enquanto entre os trabalhadores brancos foi de 34,5%. O rendimento-hora de brancos com nível superior era de R$ 33,90, enquanto pretos e pardos com o mesmo nível de instrução ganhavam R$ 23,50 por hora trabalhada.

Entre as pessoas abaixo da linha de pobreza, 73,6% eram de cor preta ou parda e 25,4% eram brancas.

A população ocupada de cor ou raça branca ganhava em média 73,4% mais do que a preta ou parda. Em valores, significava uma renda mensal de trabalho de R$ 2.884 frente a R$ 1.663.

Os dados indicam ainda que 45,2 milhões de pessoas residiam no ano passado em 14,2 milhões de domicílios com algum tipo de inadequação. Desta população, 13,5 milhões eram de cor branca e 31,3 milhões pretos ou pardos.

Tecnologia entra na luta contra o preconceito

O poder para banir do dia a dia expressões e palavras que carregam conotações racistas está na ponta dos dedos. No mês da Consciência Negra, a TIM lança nesta sexta-feira (20) um aplicativo que alerta os usuários sobre o uso de palavras preconceituosas, explica a origem dos termos e propõe substituições. O Teclado Consciente TIM é gratuito, de fácil usabilidade e contribui com a desconstrução do racismo estrutural. Para usar o teclado, não precisa ser cliente da operadora: basta baixar o app, que estará disponível gratuitamente para iOS e Android. A ferramenta fica visível no momento em que o usuário digita seus textos em redes sociais ou aplicativos de comunicação, por exemplo, e destaca automaticamente as palavras e expressões consideradas inadequadas. Ao clicar em cima desses termos, o Teclado Consciente TIM explica porque são considerados racistas e oferece opções para a sua substituição — tal como um corretor ortográfico social.

Intolerância religiosa

A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI) indiciou cinco pessoas que tentaram impedir, no ano passado, uma missa em comemoração ao Dia da Consciência Negra, na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no bairro Glória, capital do Rio de Janeiro. Na ocasião, o grupo entrou na igreja,  procurou o padre e disse que a celebração não poderia acontecer, uma vez que havia elementos afro-brasileiros na liturgia.

Os cinco indiciados, segundo relatos, chegaram a rezar em latim em voz alta, impediram o padre de realizar o rito e um deles tentou agredir o religioso. Testemunhas foram ouvidas e na conclusão do inquérito ficou comprovada a prática de intolerância religiosa e racismo.
Os autores foram indiciados por intolerância religiosa e um deles também por vias de fato, pois tentou agredir o pároco.

Marcha ‘Vidas Negras Importam’

O Dia da Consciência Negra nesta sexta-feira, 20 de novembro, será marcado pela 17ª Marcha da Consciência Negra de São Paulo. A manifestação unitária foi convocada por organizações do movimento negro, entidades sindicais e movimentos sociais. Para os organizadores, a marcha vai denunciar o genocídio de milhares de jovens negros nas periferias e ressaltar a necessidade do combate político contra o racismo estrutural vigente no país.

Djamila Ribeiro: ‘Brasil foi fundado

em cima do sangue negro e indígena’

Filósofa, escritora e feminista, Djamila Ribeiro afirmou que o Brasil “foi fundado em cima do sangue negro e indígena” ao falar sobre o racismo no país. “Muitas vezes, no Brasil fica muito no repúdio moral contra o racismo. Então, uma pessoa muito conhecida sofre um ataque racista, as pessoas vão para as redes sociais e falam: ‘nossa, em pleno século 21 o Brasil ainda é racista”, disse ela.

“Quando o Brasil não foi racista? Esse país foi fundado em cima do sangue negro e indígena, um país que teve quatros séculos de escravidão, em que a escravidão foi a base da economia do país”, afirma Djamila Ribeiro.

A filósofa e escritora Djamila Ribeiro aponta que a violência que a população negra sofreu no passado e continua sofrendo hoje no Brasil são romantizadas por meio da adoração à cultura negra. Segundo ela, isso causa uma falsa ideia de que não existe racismo no país.

“A gente fala muito das supostas pontes que nos unem. Todo mundo gosta de samba, de capoeira. As pessoas gostam das culturas negras, mas não se mobilizam quando os jovens negros são assassinados todos os dias no Brasil. É esse cinismo que ainda tenta romantizar ou colocar que somos uma sociedade muito cordial, que estamos muito felizes e nos tratamos bem”, disse.

“Então falta muitas vezes ao brasileiro o entendimento do racismo como uma estrutura, a investigação sobre a origem social das desigualdades e de romper com essa visão que ficou, infelizmente, muito popular no Brasil porque foi feita para uma elite intelectual”, concluiu. Djamila também pediu licença para prestar solidariedade à população do Amapá. O estado sofre com a falta de energia elétrica desde a semana passada, quando um raio atingiu um dos transformadores. “Por mais que o conselho nacional já tenha alertado sobre a precarização do que acontece no Brasil, é um povo que vem sofrendo com uma série de questões, ainda mais com a invisibilidade”, afirmou.

 

Dia da Consciência Negra

Nesta sexta-feira (20) é o Dia Nacional da Consciência Negra. A data faz referência à resistência e morte de Zumbi dos Palmares, o último dos líderes do Quilombo dos Palmares no Brasil. Os quilombos eram locais onde se fixaram grupos organizados de resistência e enfrentamento à escravidão. O dos Palmares é considerado por estudos historiográficos o maior e mais duradouro (atuou por mais de 100 anos) dos quilombos. Ficava entre os Estados de Alagoas e Pernambuco.

Líder do grupo, Zumbi foi executado em 20 de novembro de 1695, aos 40 anos, pelas forças do bandeirante português Domingos Jorge Velho. Ele foi degolado e teve a cabeça exposta em praça pública, em Recife.

Além de homenagear e reconhecer a luta de Zumbi dos Palmares, na data, movimentos negros buscam evidenciar as desigualdades e violências contra a população preta na sociedade. O nome “Consciência Negra” é o mesmo de 1 movimento anti-apartheid que estava à frente de greves que fragilizaram a política segregacionista na África do Sul em 1973. O movimento era liderado por ativistas como Steve Biko, morto torturado pela polícia em 1972. E, com o lema “Black is beautiful” –adotado à época do movimento negro dos Estados Unidos–, defendia a autoestima da população negra e visava a incentivar a autovalorização dos negros.

Hoje, no Brasil, na semana e no dia da data, atividades culturais, debates e reflexões sobre as implicações do racismo são realizadas em todo o país. A data já era celebrada desde os anos de 1970, mas só foi oficializada em 2011, por meio da Lei 12.519/2011, sancionada pela então presidente Dilma Rousseff (PT). Em alguns Estados (Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), leis locais estabeleceram o dia como feriado.

A discussão sobre a classificação de pessoas, reprodução de hierarquias e de diferentes atribuições de valor por causa da cor da pele é ampla e histórica. A escravidão no Brasil perdurou por mais de 300 anos. Negros foram aprisionados, exilados da África. A prática escravagista é considerada intolerável, mas os vestígios do passado e a impregnação do racismo perpetuam de forma direta, estrutural, institucional e na linguística brasileira.

O dia da abolição da escravatura, 13 de maio, não é considerado por movimentos negros uma data para se celebrar. O Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão. Antes disso, a história dos negros no país foi marcada por revoltas, como a Rebelião do Engenho de Santana (1789,1821 e 1828), a Revolta dos Malês (1835) e a Balaiada (1838-1841), sem sucesso ante a escravidão.

E, depois da assinatura da Lei Áurea, sancionada pela Princesa Isabel (1846-1921), filha de Dom Pedro II, em 13 de maio de 1888, políticas assistenciais, de integração e afirmativas não foram criadas em prol da população negra no país, marginalizada e presa à cultura escravocrata nos anos seguintes. “A influência da escravidão não se desenraiza num dia”, defendeu o político monarquista e abolicionista Joaquim Nabuco no livro “O abolicionista (1883)”.

Pesquisadores como Juarez Xavier, professor de jornalismo e coordenador-executivo do Núcleo Negro para a Pesquisa e Extensão da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), lembram que uma mudança significativa no contexto da luta contra a desigualdade e a questão racial só ocorreu após a redemocratização do país. Em 1995, quando foi realizada a pesquisa Datafolha, ele lembra que foi exatamente o mesmo período em que se celebrava o tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares e o governo de Fernando Henrique Cardoso abria espaço para políticas afirmativas para negros.

A dificuldade do desenvolvimento dessas políticas ocorre ainda hoje devido ao negacionismo em relação ao racismo no país, como mostra a pesquisa: 13% acreditam que não existe preconceito no Brasil.

 

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