
Um dos bons recursos do roteiro é garimpar e explicitar os fundamentos culturais que balizaram a estrada de Michael. Indisposto e quase genioso, na chamada fase de A Turnê da Vitória, o ídolo do pop trabalha feito operário chapliniano, enquanto traz o emblemático culto por Mickey Mouse, a identificação desmedida por Peter Pan e os Meninos Perdidos da Terra do Nunca e assume a saudável rivalidade com Prince, além da devoção por Fred Astaire. Até se ver “confiante, forte e bonito”, e energizado pela perseguição de um fluxo “orgânico” na dança, parceira indissociável à singularidade da voz, o Michael Jackson do filme vai penar.
Mais do mesmo
Pedra por pedra, ele constrói o caminho descrito em Workin´ day and night (do álbum Off the wall), e enfatizado numa cena de súbita despedida, entre os irmãos, em dezembro de 1984. O filme de Fuqua pode nada acrescentar, mas sabe compactar momentos que dão humanidade e compreensão ao astro. O episódio do couro cabeludo em chamas, em 1984, que rendeu queimaduras de terceiro grau, é bem dimensionado. Igualmente, a relativa omissão da mãe Katherine (Nia Long) junto a abusos, traz credibilidade, longe de dramalhão. Para além da qualidade de Jaafar Jackson, com doses de carisma, o filme se vale do amor e do exotismo de Michael (como adorador de animais) e projeta muita excelência, na coordenação e na autenticidade dos momentos dedicados ao palco, esquadrinhando bem cenário e público.
Até uma das consagrações, em show londrino de 1988 (com o hit Bad), os fãs têm muito para se emocionar com a ingenuidade do ator mirim Juliano Krue Valdi (à época do estouro de ABC e das comparações com Smokey Robinson, à frente de Who’s lovin’ you), com a rudeza de Joseph e com o companheirismo de Bill Bray (paternal sem exageros, na interpretação de KeiLyn Durrel Jones), o futuro segurança particular do astro. Bastante condensada, mas com eficiência, a viagem de cinema traz momentos de deleite, como as gravações com o pequeno Michael dono de pés dançantes quase indomáveis, mesmo na cabine das primeiras gravações, até os rompantes com extremo profissionalismo, ao som de Beat it.




