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El Niño atípico desafia previsões e pode ampliar extremos climáticos em um planeta mais quente

Fenômeno se desenvolveu mais cedo e ganhou força em ritmo recorde, dificultando a previsão de impactos sobre secas, chuvas e temperaturas

O El Niño deste ano apresenta características incomuns que estão dificultando as previsões sobre seus efeitos no clima. Além de ter se desenvolvido mais cedo e ganhar intensidade rapidamente, o fenômeno ocorre em um cenário de aquecimento global e temperaturas recordes nos oceanos.

Atualmente, o El Niño é classificado como forte e há cerca de 90% de probabilidade de que alcance a categoria muito forte. Ainda assim, pesquisadores ressaltam que a intensidade do fenômeno, isoladamente, não permite determinar a dimensão dos impactos sobre secas, chuvas e ondas de calor.

A combinação de fatores naturais com as mudanças climáticas também levanta a possibilidade de alterações nos padrões tradicionais de influência do El Niño. Em algumas regiões, os efeitos podem ser diferentes daqueles observados em eventos anteriores.

Um El Niño diferente

Nenhum episódio de El Niño é exatamente igual ao outro. Uma das características que ajudam a explicar as diferenças é o local do Pacífico Equatorial onde o fenômeno se desenvolve.

Segundo Regina Rodrigues, professora de Oceanografia e Clima da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), alguns eventos se formam no Pacífico Central, enquanto outros surgem no Pacífico Leste, próximo à costa oeste da América do Sul.

O atual fenômeno é classificado como um El Niño Costeiro. Historicamente, os eventos formados no Pacífico Central tendem a ser mais intensos.

O climatologista Eran Vos, da Universidade Bar-Ilan, em Israel, destacou que este é o primeiro El Niño Costeiro forte desde o fim da década de 1990, quando as temperaturas médias do planeta eram mais baixas.

Agora, o fenômeno se desenvolve em um cenário de aquecimento global, com o planeta e os oceanos registrando temperaturas elevadas.

Intensificação rápida

Outro aspecto que chama atenção é a velocidade de desenvolvimento do fenômeno.

Depois de permanecer por um mês com uma anomalia de temperatura de 1,8°C — nível correspondente à categoria forte — a temperatura chegou a 2°C no dia 14.

Para que o El Niño seja classificado como muito forte, porém, a anomalia média precisa permanecer em 2°C ou mais durante três meses consecutivos. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), essa condição pode ser alcançada até dezembro.

Pesquisadores, no entanto, alertam que ainda é difícil prever por quanto tempo o fenômeno permanecerá intenso. Assim como começou mais cedo, ele também pode perder força antes do esperado.

Por que os impactos são difíceis de prever?

A intensidade do El Niño não determina sozinha a ocorrência de eventos extremos. A localização das águas mais quentes no Pacífico e a interação entre oceano e atmosfera também são decisivas.

Em algumas áreas do Pacífico, a temperatura da superfície do mar supera 29°C. A partir desse nível, a evaporação aumenta e grandes quantidades de umidade e energia são transferidas para a atmosfera, alimentando sistemas de nuvens.

Esse processo interfere na circulação atmosférica e pode gerar ondas que favorecem sistemas de alta pressão, associados a períodos mais secos, ou de baixa pressão, relacionados a condições mais úmidas.

A chamada “piscina” de água quente também se desloca ao longo do Pacífico Equatorial, alterando a região mais diretamente afetada.

Outro fator importante é a interação com os jatos atmosféricos, correntes de ar em altitude que transportam umidade entre diferentes regiões. Para que determinados extremos ocorram, é necessário que essas condições coincidam no tempo e no espaço.

Mudanças nos padrões climáticos

O aquecimento global acrescenta outra camada de incerteza. Segundo Christopher Callahan, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, uma das principais questões é saber se o El Niño atual poderá interagir com as mudanças climáticas e produzir efeitos maiores do que os provocados separadamente por cada fenômeno.

Pesquisas também indicam que as chamadas teleconexões, ou seja, os padrões pelos quais o El Niño influencia regiões distantes do Pacífico, podem estar mudando.

Estudos de Eran Vos apontam que, entre 1960 e 1990, episódios de El Niño estavam associados a temperaturas mais elevadas no sul da Ásia e no nordeste da África. Desde então, esse padrão teria mudado, com temperaturas mais baixas nessas regiões durante alguns eventos.

Na Europa Ocidental, ocorreu uma mudança em sentido contrário: a região passou de condições mais frias durante episódios de El Niño para temperaturas mais elevadas.

Para Vos, essas alterações dificultam a preparação dos países para os impactos do fenômeno, já que ainda há incertezas sobre o comportamento das novas conexões atmosféricas.

Temporada de furacões também chama atenção

Outro fenômeno que vem sendo acompanhado é o comportamento da temporada de furacões no Atlântico.

A temporada normalmente ocorre entre junho e novembro, com pico em setembro. O El Niño costuma reduzir a formação de furacões no Atlântico Norte porque aumenta os ventos e reduz a disponibilidade de umidade na região.

Neste ano, uma condição atmosférica incomum no Atlântico Tropical Norte também pode estar contribuindo para atrasar a formação desses sistemas.

Segundo o especialista Michael Lowry, ouvido pelo Washington Post, a atmosfera na região apresenta pouca diferença de temperatura entre suas camadas. Esse contraste é um dos fatores que favorecem o desenvolvimento de furacões.

A situação não significa que não haverá furacões, mas pode indicar um atraso no período de maior atividade.

Foto: Canva

Secas e chuvas intensas

Apesar das características incomuns, os efeitos observados até agora ainda apresentam semelhanças com outros episódios de El Niño.

Na América Central, o chamado Corredor Seco, que inclui áreas de Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, enfrenta períodos de estiagem que afetaram a produção agrícola e levaram pequenos agricultores a racionar alimentos e vender animais.

A diretora regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, Lena Savelli, afirmou à AFP que até 16 milhões de pessoas na América Latina podem enfrentar dificuldades relacionadas à disponibilidade de alimentos.

A redução das chuvas também afetou a vazão dos rios e chegou ao Canal do Panamá, que utiliza água doce para operar suas eclusas. No Caribe, Porto Rico e Jamaica enfrentam uma seca considerada histórica, com medidas de racionamento.

Na Ásia, a Indonésia registrou início antecipado de incêndios florestais, enquanto partes da Índia enfrentaram alterações no regime das monções.

Já no Chile e no Peru, chuvas intensas e neve provocaram inundações, afetaram atividades de mineração e levaram ao fechamento temporário de Machu Picchu.

No Sul do Brasil e no Uruguai, a influência do fenômeno está associada a um período de chuvas mais intensas.

El Niño não determina sozinho a dimensão dos desastres

O diretor do Departamento de Clima e Sustentabilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Osvaldo Moraes, ressalta que não existe uma relação direta entre a intensidade de um El Niño e a dimensão dos impactos provocados por eventos extremos.

Segundo ele, os efeitos dependem também de fatores locais, como a concentração da população em áreas de risco e a capacidade de cada região de se preparar e responder aos eventos climáticos.

Assim, mesmo diante de um El Niño considerado forte ou muito forte, a magnitude de uma seca, enchente ou onda de calor não pode ser determinada apenas pela intensidade do fenômeno. A interação entre oceano, atmosfera, mudanças climáticas e condições sociais e ambientais locais é que define o impacto final.

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