O Brasil tem cerca de 60 milhões de pessoas envolvidas em algum tipo de trabalho voluntário, o equivalente a 35% da população com 16 anos ou mais. E esse número pode crescer: entre os brasileiros que nunca realizaram atividades voluntárias, 42% afirmam ter vontade de começar.
Os dados fazem parte da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2026, realizada pelo Datafolha, e ganham destaque nesta sexta-feira (28/8), Dia Nacional do Voluntariado. No Rio de Janeiro, leis aprovadas pela Assembleia Legislativa do Estado (Alerj) buscam incentivar a participação da população e aproximar voluntários de iniciativas que precisam de apoio.
Segundo o levantamento, três em cada cinco brasileiros já tiveram alguma experiência com trabalho voluntário. O ano também é considerado simbólico para o setor, já que a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2026 como o Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável.
Rio está entre os estados que mais recebem ações
O Rio de Janeiro aparece em terceiro lugar entre os estados mais citados pelas organizações como local de realização de ações de voluntariado, com 40,91%, de acordo com o Censo Brasileiro de Voluntariado Empresarial 2025. O estado fica atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.
A atuação voluntária também ganha força em situações de emergência. Durante as chuvas que atingiram a Região Serrana em 2011, por exemplo, 3.562 pessoas procuraram o Hemorio para doar sangue às vítimas em apenas quatro dias.
Em 2022, após as fortes chuvas em Angra dos Reis, quase 17 toneladas de alimentos foram arrecadadas em duas semanas.
Em Niterói, mais de 3,6 mil voluntários participam de 153 Núcleos Comunitários de Defesa Civil (Nudecs), que trabalham na prevenção de riscos e na resposta a desastres.
Falta de tempo ainda é principal obstáculo
Apesar da disposição para ajudar, transformar a intenção em participação continua sendo um desafio. Entre as pessoas que nunca fizeram trabalho voluntário, 52% apontam a falta de tempo como principal motivo. Outros 12% afirmam não conhecer organizações ou oportunidades.
A assistente social Patrícia Evangelista, de 53 anos, encontrou no voluntariado uma forma de atuar diretamente na comunidade. Após participar de um curso de Promotora Legal Popular, ela criou a Organização Mulheres de Atitudes (OMA), formalizada em 2010.
“Começamos de forma voluntária, dentro da própria comunidade. Hoje, nosso trabalho é acolher e fortalecer essas mulheres para que consigam romper o ciclo da violência, conquistar autonomia e, no futuro, também possam ajudar outras que estejam passando pelo que elas já viveram”, conta Patrícia, fundadora e coordenadora executiva da OMA.
A organização realiza mais de 600 atendimentos por ano e já contabiliza mais de 300 em 2026. O trabalho alcança mulheres de regiões como Manguinhos, Jacarezinho, Maré, Bonsucesso, Benfica, Irajá e São Cristóvão.
Em uma das experiências mais marcantes de sua trajetória, Patrícia acompanhou o atendimento de uma menina de 2 anos vítima de abuso sexual e acabou adotando a criança, que não tinha apoio familiar. Hoje, aos 26 anos, ela constituiu a própria família.

Voluntariado também fortalece comunidades
Na Favela da Palmeirinha, em Guadalupe, o Instituto Educacional Araújo Dutra (Iead) acompanha 20 famílias em situação de vulnerabilidade social, desenvolvendo atividades para crianças, adolescentes, mulheres e idosos.
“O voluntariado ajuda a construir uma rede de apoio e proteção dentro da própria comunidade”, explica Vânia Dutra, fundadora e coordenadora de projetos do Iead.
Leis da Alerj buscam estimular participação
No Rio de Janeiro, a Lei 6.275/12 instituiu a Política Estadual de Fomento ao Voluntariado Transformador. A legislação foi ampliada pela Lei 8.129/18, que estabeleceu mecanismos de cooperação entre o poder público e entidades públicas e privadas.
Outra iniciativa é a Lei 3.912/02, que criou o voluntariado junto ao serviço público estadual e instituiu o programa “Voluntários da Cidadania”, incluindo pessoas idosas e aposentadas.
Mais recentemente, a Alerj aprovou, na quarta-feira (26/8), o Projeto de Lei 4.773/25, que prevê a possibilidade de comprovantes de prestação de serviço voluntário serem pontuados na avaliação de títulos de concursos públicos estaduais.
Como começar?
Para Patrícia Evangelista, não existe uma única maneira de ser voluntário. Na OMA, por exemplo, as pessoas podem atuar presencialmente ou a distância, participando de oficinas, rodas de conversa, atividades culturais, divulgação e captação de recursos.
“É preciso identificar em que área se quer contribuir e quanto tempo está disponível. Nem toda participação precisa ser presencial”, afirma.
O primeiro passo pode ser simples: escolher uma causa e encontrar uma forma de contribuir. Doar tempo, conhecimento ou experiência também são maneiras de fazer a diferença.
Além de complementar políticas públicas, o voluntariado ajuda a fortalecer vínculos, ampliar redes de proteção e transformar comunidades. Com informação e organização, os milhões de brasileiros que já atuam podem ganhar a companhia de outros que também querem ajudar.




