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O rei do pop, numa jogada de mestre que desvia de detratores e polêmicas

Cinebiografia revive a trajetória do astro da música sem entrar no território das polêmicas: confira a crítica

Por Ricardo Daehn
“Respirem juntos”, demarca o abusivo e exigente Joseph, pai, em amplo sentido, do Jackson 5. Até expirar com mais serenidade, num sufoco danado, o jovem Michael, que aspira à independência, terá um campo minado para chegar onde quer — tornar-se uma “plataforma para alcançar todo o mundo”. A dualidade fala alto no filme de Antoine Fuqua (do clássico Dia de treinamento): entre “vencedores e perdedores”, como segmenta Joseph (empresário do filho, representado na tela pelo impecável Colman Domingo), nada virá de mão beijada, e o patriarca vai lutar pela integridade da família contra o peso da individualidade ansiado pelo batalhador Michael, feito por Jaafar Jackson, o ator e sobrinho de Michael, esforçado (e digno na defesa do legado do tio).
Dentro do plano esquemático, nada sai do compasso (nem do esperado) para uma cinebiografia parcial e celebrativa. Carros e pessoas congestionam a rua em frente à CBS, em Nova York, e o CEO Walter Yetnikoff é enfático, ao se dirigir para a “máquina de fazer dinheiro”: “O seu desejo, (Michael), é uma ordem”. E é assim, num roteiro (de John Logan) ajustado à grandeza do astro musical, que o protagonista se firmará. Das conquistas, aparecem a quebra de padrões, com a entrada negra no circuito de videoclipes da MTV; a presença efetiva, entre crianças doentes e jovens admiradores, sem contar do prenúncio do moonwalk, passo de dança consagrado nas apresentações de Billie Jean, com as lantejoulas adornando famosas luvas. Até essa fase, de consagração, com o álbum Thriller, serão infinitos os perrengues.

Um dos bons recursos do roteiro é garimpar e explicitar os fundamentos culturais que balizaram a estrada de Michael. Indisposto e quase genioso, na chamada fase de A Turnê da Vitória, o ídolo do pop trabalha feito operário chapliniano, enquanto traz o emblemático culto por Mickey Mouse, a identificação desmedida por Peter Pan e os Meninos Perdidos da Terra do Nunca e assume a saudável rivalidade com Prince, além da devoção por Fred Astaire. Até se ver “confiante, forte e bonito”, e energizado pela perseguição de um fluxo “orgânico” na dança, parceira indissociável à singularidade da voz, o Michael Jackson do filme vai penar.

Mais do mesmo

Pedra por pedra, ele constrói o caminho descrito em Workin´ day and night (do álbum Off the wall), e enfatizado numa cena de súbita despedida, entre os irmãos, em dezembro de 1984. O filme de Fuqua pode nada acrescentar, mas sabe compactar momentos que dão humanidade e compreensão ao astro. O episódio do couro cabeludo em chamas, em 1984, que rendeu queimaduras de terceiro grau, é bem dimensionado. Igualmente, a relativa omissão da mãe Katherine (Nia Long) junto a abusos, traz credibilidade, longe de dramalhão. Para além da qualidade de Jaafar Jackson, com doses de carisma, o filme se vale do amor e do exotismo de Michael (como adorador de animais) e projeta muita excelência, na coordenação e na autenticidade dos momentos dedicados ao palco, esquadrinhando bem cenário e público.

Até uma das consagrações, em show londrino de 1988 (com o hit Bad), os fãs têm muito para se emocionar com a ingenuidade do ator mirim Juliano Krue Valdi (à época do estouro de ABC e das comparações com Smokey Robinson, à frente de Who’s lovin’ you), com a rudeza de Joseph e com o companheirismo de Bill Bray (paternal sem exageros, na interpretação de KeiLyn Durrel Jones), o futuro segurança particular do astro. Bastante condensada, mas com eficiência, a viagem de cinema traz momentos de deleite, como as gravações com o pequeno Michael dono de pés dançantes quase indomáveis, mesmo na cabine das primeiras gravações, até os rompantes com extremo profissionalismo, ao som de Beat it.

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