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Zé kéti, a voz do morro que ocupou o asfalto

Zé Kéti, um dos maiores compositores e sambistas brasileiros, faria 100 anos em setembro de 2021. Compôs mais de 200 sambas e levou um Prêmio Shell de Música pelo conjunto da obra. Mestre Zé Keti nos deixou em 14 de novembro de 1999, aos 78 anos de idade e mais de cinco décadas dedicadas ao samba de raiz.

Entre os clássicos do artista estão às músicas A Voz Do Morro, Máscara Negra, Acender as Velas e Diz que Fui Por Aí. Em suas músicas Zé Keti cantou sobre amores, boemia, carnaval, malandragem e o cotidiano nas favelas cariocas.

A presença da música é marcante no ambiente familiar de sua infância. O pai, o marinheiro Josué Vale de Jesus, toca cavaquinho e seu avô, João Dionísio de Santana, é flautista e pianista. Em sua casa são frequentes as rodas de choros, com presença de músicos como Cândido (Índio) das Neves e Pixinguinha. Em 1924, com a morte do pai, passa a morar com o avô. Além do interesse pela música, na infância, ganha um apelido, Zé Quieto, que é encurtado para Zé Quéti, e, grafado com um K, torna-se o nome artístico.

Aos 13 anos, quando mora no subúrbio de Piedade, é levado por Geraldo Cunha, compositor da Estação Primeira de Mangueira, para assistir aos ensaios da escola de samba. É esse o seu primeiro contato com a música do morro. Em fins da década de 1930, ele compõe suas primeiras marchinhas de Carnaval, sem, contudo, conseguir meios para a gravação. Isso muda em 1939, quando frequenta o Café Nice, ao estabelecer uma série de contatos que são fundamentais para sua carreira.

Sua escolaridade limita-se ao curso primário. Ainda muito jovem, trabalha numa fábrica de calçados, até atingir a idade do alistamento militar. Com o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, Zé Kéti se transfere, em 1940, para a Polícia Militar (PM), no intuito de não ser chamado para a guerra. Contudo, não deixa de frequentar a noite carioca e compor para diferentes escolas de samba. Quando sai da PM, emprega-se em uma gráfica, mas a vida boêmia ocasiona constantes atrasos no trabalho e, consequentemente, sua demissão.

No início dos anos 1950, compõe o samba que se torna um dos seus maiores sucessos, ‘A Voz do Morro’. A música é gravada pelo cantor Jorge Goulart, em 1955, com arranjo de Radamés Gnattali. No mesmo ano, a composição é tema do filme Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, e posteriormente do programa Noite de Gala (TV Rio, Canal 13), em orquestração do maestro Luiz Arruda Paes, em 1957. Esse samba é seguidamente regravado por variados intérpretes, como César Guerra-Peixe, em 1960, Demônios da Garoa, em 1961, Elis Regina e Jair Rodrigues, em 1965, Luiz Melodia, em 1978, e pelo próprio autor, em 1971.

Surge no Rio de Janeiro o Zicartola, em 1963. O bar inaugurado por Cartola e sua esposa, Zica, é um ponto de encontro dos artistas cariocas nesse início dos anos 1960. Zé Kéti é um representante do samba tradicional do morro carioca e uma referência para os músicos que vêm da bossa nova, como Nara Leão e Carlos Lyra. Das conversas entre os frequentadores do bar, surge a ideia de realização de uma apresentação musical. O resultado é a peça Opinião, de autoria de Oduvaldo Vianna Filho, nomeada a partir do samba homônimo de Zé Kéti, que estreia no ano de 1964 em um pequeno teatro de Copacabana, com direção de Augusto Boal e participação de João do Vale, Ruy Guerra, Nara Leão, Carlos Lyra, Edu Lobo, Gianfrancesco Guarnieri e Maria Bethânia (substituindo Nara Leão).

Em 2007, o selo Biscoito Fino lança o DVD Zé Kéti, gravação do programa Ensaio, com a participação do artista em 1991, com direção de Fernando Faro e exibido na TV Cultura.

Consagrado como compositor, em 1964, Zé Kéti estreia na peça musical de Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar e Armando Costa, ao lado de Nara Leão, João do Vale e Maria Bethânia, que substitui Nara Leão quando ela adoece. Nesse espetáculo, ele lança ‘Diz que Fui por Aí’ (com Hortêncio Rocha), ‘Acender as Velas’ e o samba que dá nome à peça, ‘Opinião’. As duas composições são gravadas por Nara. Posteriormente, regravadas por diversos intérpretes, como Jair Rodrigues e Elis Regina.

Embalado pelo sucesso da peça e valendo-se dos contatos que estabelece no restaurante do Zicartola, reduto do samba na década de 1960, Zé Kéti organiza uma coletânea dos melhores intérpretes e sambas do morro pela Musidisc. Também apresenta diversos amigos do Zicartola para Luiz Bittencourt (então diretor artístico da gravadora). É sob sua influência que Nescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Oscar Bigode (da Portela), Zé Cruz e Nelson Sargento (da Mangueira), Élton Medeiros (da Aprendizes de Lucas) e Paulinho da Viola formam o grupo A Voz do Morro, que seria futuramente premiado tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo, pelo disco Roda de Samba, lançado em 1965. Esse mesmo conjunto, mais Nelson Sargento, grava ainda dois LPs.

No Carnaval de 1967, com Hildebrando Pereira Matos, compõe a marcha-rancho Máscara Negra. Além de ser um dos maiores êxitos de sua carreira, essa marcha é uma das mais populares do gênero, com gravações de Dalva de Oliveira, Jair Rodrigues, The Fevers, Eduardo Dusek, Elza Soares, Maria Rita.

Apesar do sucesso que obtém no decorrer de sua carreira, Zé Kéti nunca chega a conquistar com sua arte a estabilidade econômica. Suas composições que relatam o cotidiano nos morros cariocas, a malandragem e os amores, assumem com o passar do tempo um tom melancólico e fatalista, a exemplo do samba ‘Não Sou Feliz’ e ‘O Meu Pecado’, ambas em parceria com Nelson Cavaquinho.

Zé Kéti deixa uma obra que é referência para muitos artistas, como Nara Leão, uma de suas principais intérpretes, é homenageado por Fernanda Takai, vocalista do grupo pop Pato Fu, em 2007, com a gravação de ‘Diz que Fui por Aí’.

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