Lideranças Yanomami denunciaram novas invasões de garimpeiros e ameaças às comunidades da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. Segundo as organizações indígenas, invasores estariam retomando áreas utilizadas anteriormente para a exploração ilegal de ouro e cassiterita.
As denúncias foram divulgadas pela Repórter Brasil nesta sexta-feira (23). Um relatório elaborado pela Urihi Associação Yanomami aponta que áreas do território estariam sendo negociadas e loteadas para atividades de mineração ilegal após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro.
De acordo com Waihiri Hekurari, presidente da associação, garimpeiros teriam retomado a presença em regiões como Xitei e Sucurucu, que já registraram forte atividade ilegal. O documento foi encaminhado na quinta-feira (22) à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal (MPF), à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Indígenas relatam ameaças e tentativas de aliciamento
Segundo uma carta assinada por oito organizações Yanomami, garimpeiros teriam telefonado para jovens das comunidades, afirmando que pretendem voltar a invadir o território. Também haveria ofertas de pagamento para que indígenas limpassem pistas de pouso usadas na logística do garimpo ilegal.
As lideranças relataram ainda sobrevoos de aeronaves na região após o primeiro turno eleitoral. Dário Kopenawa, presidente da Hutukara Associação Yanomami, afirmou que os contatos e movimentações aumentaram a preocupação das comunidades com a possibilidade de novas invasões.
As organizações associam o temor ao cenário político nacional e manifestam preocupação com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. A campanha do candidato foi procurada pela Repórter Brasil, mas não havia se pronunciado até a publicação da reportagem.
Combate ao garimpo continua
Desde 2024, ações federais de combate à mineração ilegal destruíram 108 pistas de pouso e 64 aeronaves relacionadas à logística do garimpo na Terra Indígena Yanomami, segundo dados da Casa de Governo Yanomami citados pela reportagem. Quatro pistas teriam sido inutilizadas nos dez dias anteriores à publicação.
Apesar das medidas de fiscalização, a atividade ilegal ainda representa uma ameaça ao território. Dados de monitoramento da Hutukara Associação Yanomami e do Instituto Socioambiental (ISA) identificaram, entre janeiro e agosto de 2026, 26 áreas de desmatamento relacionadas ao garimpo, totalizando 17,6 hectares.
Especialistas apontam que a atividade tem se reorganizado, com operações menores e mais discretas, além do deslocamento para áreas próximas à fronteira com a Venezuela e para o entorno da terra indígena. O elevado valor de minerais como ouro e cassiterita também mantém o incentivo econômico à exploração ilegal.
Lideranças temem agravamento da crise humanitária
As organizações indígenas alertam que o retorno dos garimpeiros pode ampliar os riscos à saúde, à segurança alimentar e à integridade física das comunidades. Durante o período de maior invasão, entre 2021 e 2022, a presença de milhares de garimpeiros esteve associada à violência, à contaminação ambiental e a dificuldades no atendimento de saúde.
Em janeiro de 2023, o governo federal declarou emergência sanitária no território Yanomami. Desde então, medidas de enfrentamento às atividades ilegais contribuíram para uma redução de 95,7% na abertura de novas áreas de garimpo, segundo o Ministério dos Povos Indígenas.
Mesmo com a redução, lideranças e pesquisadores ressaltam que a pressão sobre o território permanece. Para as associações, a manutenção da fiscalização e de estruturas permanentes de proteção será essencial para impedir novas invasões e evitar o agravamento da crise humanitária.




