Em entrevista ao podcast Expressão do Povo, a enfermeira relembra sua trajetória na saúde pública, fala sobre o Núcleo PICS, o reconhecimento nacional e defende a humanização e a empatia como pilares fundamentais do cuidado.
A rotina nos corredores da saúde pública exige mais do que técnica: demanda sensibilidade para enxergar o paciente em sua totalidade. É partindo dessa premissa que a trajetória de Terli Ferreira se destaca no cenário cabo-friense. Com duas décadas de dedicação ao serviço público e ao cuidado humanizado, sua atuação ganhou notoriedade ao integrar métodos complementares de saúde diretamente na rede municipal, criando caminhos inovadores para o bem-estar coletivo. Em entrevista ao podcast Expressão do Povo, a coordenadora do Núcleo de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) de Cabo Frio revisitar momentos marcantes da carreira, relembra os bastidores dessa luta diária e compartilha como é fazer a diferença real na vida de quem precisa do Sistema Único de Saúde (SUS).
Filha de Marli Peixoto e do saudoso Gualter Ferreira, conhecido popularmente como Pirigica, da tradicional hamburgueria Pançudo, Terli fez questão de destacar suas origens e a influência da família em sua formação humana.
O Pançudo fez parte da da vida de muitos cabo-frienses. A lanchonete foi fundada em 1983, em uma pequena loja na Rua Jorge Lóssio, no antigo camping. O apelido “Pançudo” e a fama da lanchonete atravessaram gerações, tornando-se um verdadeiro ponto de encontro para cabo-frienses e turistas.
“Sou cabofriense, nascida e criada aqui em Cabo Frio. Sou da família do Pançudo, filha de Pirigica e da dona Marli. Sou enfermeira há 26 anos e servidora do município há 21 anos. Tento levar um pouquinho de mim e também levo um pouquinho do outro por onde eu passo”, afirmou.

TRABALHO COMUNITÁRIO QUE VIROU REFERÊNCIA
Muito antes de coordenar um dos maiores núcleos municipais de práticas integrativas da região, Terli construiu sua identidade profissional em Quissamã, onde atuou entre 2001 e 2005. A experiência, segundo ela, foi determinante para compreender que saúde vai além do atendimento clínico.
Recém-aprovada em um processo seletivo, assumiu a recém-inaugurada unidade de saúde de Piteiras e Carmo. Em pouco tempo, o envolvimento com a comunidade ultrapassou as atribuições tradicionais da enfermagem.
Além dos atendimentos, o espaço passou a oferecer oficinas, atividades culturais, práticas esportivas e ações de convivência que mobilizavam moradores de todas as idades.
“Eu inauguruei a unidade e foi um trabalho tão lindo que, com um ano em Quissamã, recebi o título de cidadã quissamaense. Eu dava a ideia e a população abraçava com muito amor. Era o ar que eu respirava. Tudo meu estava naquela unidade”, relembrou.
Segundo a enfermeira, o vínculo criado com os moradores permanece vivo até hoje. “Se eu adoecesse, eles iam a cavalo levar sopinha para mim. É um trabalho da vida. Tenho um carinho enorme pela população de Quissamã.”
HUMANIZAÇÃO
Formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Terli afirma que escolheu a enfermagem por acreditar que cuidar das pessoas sempre foi sua vocação. Ela lembra que a infância foi marcada pelo exemplo dos pais e pelo ambiente de trabalho da família, onde aprendeu o valor do acolhimento.
“Eu não me via como empresária. Gostava de coisas que transformavam a vida do outro. Desde pequena eu resgatava animais na rua porque sentia que a responsabilidade era minha se algo acontecesse com eles.”
Na prática profissional, essa visão se transformou em método de trabalho. “Eu olho no olho, pego na mão e procuro saber o que a pessoa está sentindo, porque por trás da doença existem traumas, padrões de comportamento e fatores limitantes. A pessoa que busca atendimento tem muita coisa escondida por trás.”

NASCIMENTO DO NÚCLEO PICS
A entrevista também abordou a criação do Núcleo de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde de Cabo Frio, iniciativa idealizada por Terli após anos de estudos em naturopatia e práticas integrativas.
Segundo ela, o projeto surgiu inicialmente como uma proposta de cuidar da saúde emocional dos profissionais da rede pública, mas ganhou força durante a pandemia da Covid-19, quando o desgaste físico e psicológico das equipes de saúde atingiu níveis alarmantes.
“Pouco antes da pandemia eu apresentei um projeto para cuidar de quem cuida, mas ele acabou não sendo colocado em prática. Dois anos depois, com o boom da Covid e tantos profissionais adoecidos pelo burnout, o secretário de Saúde lembrou daquele projeto e me pediu para colocá-lo em funcionamento.”
Os atendimentos começaram dentro da sala de trauma do Hospital São José Operário, no bairro São Cristóvão. “Eu chegava com uma bolsa enorme, iluminação verde, difusor aromático, ozonioterapia, acupuntura e auriculoterapia. No início muita gente achava que era mandinga, mas depois começaram a ver resultados impressionantes.”
Hoje, o Núcleo PICS funciona em sede própria na Rua do Pomar, 60, no bairro Jacaré e reúne profissionais efetivos e voluntários, oferecendo gratuitamente diversas práticas integrativas pelo SUS. O serviço foi implantado em 2022 e se consolidou como uma referência municipal na área.
Terli afirma que somente na unidade do Jacaré já foram realizados mais de 5.500 atendimentos.
RECONHECIMENTO NACIONAL
O alcance do projeto ultrapassou os limites de Cabo Frio e levou a enfermeira a receber um dos maiores reconhecimentos de sua carreira.
Em 2024, durante um congresso voltado à saúde integrativa, ela apresentou os resultados do trabalho desenvolvido no município. A palestra emocionou participantes e resultou em sua indicação para integrar a Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura (ABRASCI). “Três dias depois, recebi a notícia de que meu nome havia sido aprovado por unanimidade para ocupar a cadeira número 12, que homenageia Florence Nightingale. Foi um momento inesquecível.”
A cerimônia de posse aconteceu no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. A honraria reconheceu sua atuação na implantação das práticas integrativas pelo SUS e a divulgação desse modelo em eventos científicos realizados em diferentes estados brasileiros.
“Hoje sou convidada para palestrar em vários lugares do Brasil mostrando como o SUS de Cabo Frio transforma a vida de populações vulneráveis.”
ENTRADA NA POLÍTICA
Durante a entrevista, Terli também comentou sua entrada na vida pública. Ela explicou que durante muitos anos evitou qualquer envolvimento partidário, mas decidiu disputar uma vaga na Câmara Municipal nas eleições de 2024 motivada pelo desejo de ampliar os projetos sociais que já desenvolvia.
“Eu nunca quis me envolver com política para não tomar partido de lado A ou B. Mas resolvi entrar justamente para dar visibilidade e ajuda real ao que eu já fazia há tantos anos.”
Segundo ela, a votação obtida representou o reconhecimento da população ao trabalho construído ao longo de décadas.
Após o pleito, recebeu o convite para assumir a presidência do PP Mulher em Cabo Frio, função que, segundo afirma, pretende exercer voltada principalmente ao fortalecimento das políticas públicas para mulheres.
“Quero ajudar especialmente mulheres que passam por situações de violência patrimonial e emocional. Eu vivi uma separação muito difícil e senti na pele algumas dessas dificuldades. Chego sem vícios da política, com vontade de cuidar das pessoas.”

ATIVIDADES DO NÚCLEO INTERROMPIDAS
Nem todos os momentos da trajetória foram marcados por conquistas. Terli lembrou que o episódio mais difícil ocorreu quando o Núcleo PICS teve suas atividades interrompidas por cerca de um mês.
“O momento mais difícil foi quando tivemos nosso núcleo fechado. Ficamos um mês com o trabalho paralisado, mas ele retornou graças à pressão popular.”
Segundo ela, a repercussão ultrapassou os limites do município e o caso chegou a ser debatido no Conselho Nacional de Saúde, em Brasília.
“Superado isso, seguimos firmes na nossa missão de cuidar das pessoas com amor, ciência e humanização.”
CUIDADO QUE ULTRAPASSA PROTOCOLOS
Ao longo da conversa, Terli Ferreira deixou claro que sua visão sobre a enfermagem não está limitada aos procedimentos clínicos. Para ela, o cuidado integral exige escuta, acolhimento e respeito à história de cada paciente.
Essa filosofia acompanha sua atuação desde os primeiros anos de profissão e continua sendo o eixo central do trabalho desenvolvido no Núcleo PICS, onde práticas integrativas são oferecidas como complemento à assistência convencional, dentro das diretrizes do SUS.
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi o relato sobre o período em que Terli Ferreira coordenou a enfermagem do Hospital Dia, modalidade de assistência médica onde o paciente permanece na unidade por um período máximo de 12 horas para realizar procedimentos, exames, cirurgias de baixa/média complexidade ou tratamentos intensivos, recebendo alta no mesmo dia sem a necessidade de pernoite especializada. Segundo ela, foi essa vivência que despertou a necessidade de ampliar o olhar sobre o cuidado em saúde.
“Eu ficava angustiada em ter que dar um laudo de HIV positivo e simplesmente mandar a pessoa embora sem mais suporte. Eu sentia que aquele paciente precisava de muito mais do que receber um diagnóstico. Precisava ser acolhido.”

A entrevista completa com a enfermeira e coordenadora do Núcleo PICS de Cabo Frio pode ser assistida na íntegra no canal @expressaodopovocf, no YouTube.





