
No mesmo dia em que determinou a prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), também ordenou o afastamento de dois servidores do Banco Central suspeitos de favorecer a instituição. De acordo com as investigações, o ex-diretor de Fiscalização do BC Paulo Sergio de Souza e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) da autoridade monetária Belline Santana atuaram como “funcionários” de Vorcaro em questões relativas à autoridade monetária.
Ambos os servidores são investigados por suspeita de atuação irregular na fiscalização do Master antes da liquidação extrajudicial da instituição, decretada em novembro do ano passado, após o agravamento da crise financeira do banco. Na decisão, Mendonça afirma que os dois ex-integrantes do BC atuavam como uma espécie de “consultores privados” de Daniel Vorcaro em assuntos relacionados à autoridade monetária e recebiam vantagens indevidas.
Conforme ressaltou o próprio Banco Central, em nota, a autarquia identificou indícios de que ambos os servidores afastados teriam recebido vantagens indevidas e que isso teria sido percebido durante revisão interna dos processos de fiscalização e liquidação do Master.
“De imediato, o Banco Central afastou cautelarmente os referidos servidores do exercício de seus cargos e do acesso às dependências da instituição e a seus sistemas, instaurou procedimentos correcionais para apuração dos fatos e comunicou os indícios de prática de crimes à Polícia Federal”, informou o BC.
A autoridade monetária já havia afastado administrativamente Belline e Sousa no início de 2026. Com a nova fase da operação, a PF busca esclarecer os indícios de corrupção e favorecimento indevido. “Esclarece o Banco Central que, observado o devido processo legal e o direito à ampla defesa, as condutas infracionais identificadas receberão a devida resposta sancionatória, de acordo com a lei”, completa o banco.
A medida adotada por Mendonça é de caráter cautelar e foi determinada pela Justiça no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero. Na mesma decisão, o magistrado aponta a existência de um grupo, em aplicativo de mensagens, dos investigados e cita, entre as vantagens indevidas, uma viagem à Disney realizada por Sousa, cujo serviço de guia teria sido pago por Vorcaro. A informação tem como base investigações da própria Polícia Federal.
Segundo a decisão, há registros de diversas comunicações entre Vorcaro e Sousa nas quais o banqueiro “solicitava orientações estratégicas sobre a condução de reuniões institucionais, a elaboração de documentos e a abordagem de temas sensíveis perante autoridades regulatórias”. A investigação também aponta que o antigo chefe do Departamento de Supervisão Bancária prestava orientações semelhantes ao banqueiro.
Também conforme Mendonça, o ex-diretor chegou a enviar orientações a Vorcaro sobre “como deve se comportar em reuniões”. “Mesmo sendo servidor do Bacen, Paulo Sérgio torna-se uma espécie de empregado/consultor de Vorcaro para assuntos de interesse exclusivamente privado deste último. E há inúmeras mensagens transcritas nos autos entre Vorcaro e Paulo Sérgio nesse mesmo sentido”, escreve o ministro.
O ex-diretor de Fiscalização da autoridade monetária também teria analisado documentos para Vorcaro. “Há reprodução de mensagem enviada por Daniel Vorcaro a Paulo Sérgio, pedindo ao servidor que analise uma minuta de ofício que seria enviada pelo Banco Master ao próprio Departamento do Bacen em que este último exercia a função de Chefe Adjunto. Em seguida, Paulo Sérgio responde a mensagem com várias sugestões de alteração no referido documento”, ressaltou Mendonça.
Além disso, o documento menciona a simulação de um contrato de consultoria com a empresa Varajo Consultoria Empresarial para justificar os repasses a Belline. A investigação também aponta que o antigo chefe do Departamento de Supervisão Bancária prestava orientações semelhantes ao ex-banqueiro. À época dos fatos, a autoridade monetária era presidida por Roberto Campos Neto.




