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Bolsonaro é denunciado no STF por ameaçar jornalista

O presidente da República, Jair Bolsonaro, foi denunciado no Supremo Tribunal Federal (STF) por crime de constrangimento ilegal, após ameaçar um jornalista que o questionou sobre o repasse de R$ 89 mil de Fabrício Queiroz a Michelle Bolsonaro.

Durante visita à Catedral de Brasília, Bolsonaro foi questionado por um repórter do jornal O Globo sobre o motivo dos depósitos feitos a Michelle: “Presidente, por que a sua esposa recebeu R$ 89 mil do Fabrício Queiroz?”. O presidente então reagiu: “Minha vontade é encher tua boca com uma porrada, tá”. Sem responder à pergunta, Bolsonaro emendou: “Seu safado”. O jornal “O Globo” repudiou o ataque a seu profissional.

A deputada federal Natália Bonavides (PT-RN) informou ter protocolado a denúncia contra Bolsonaro ainda na noite deste domingo, e o chamou de “delinquente contumaz”.

O líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (REDE-AP) também reagiu à fala do presidente e afirmou que vai apresentar uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre a violência contra a liberdade de expressão.

Entidades jornalísticas e de defesa dos direitos humanos criticaram o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por ter dito a um repórter do jornal O Globo que teria vontade de “encher tua boca com uma porrada”.

O presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Paulo Jeronimo, afirmou que falta compostura a Bolsonaro. “Mais uma vez o presidente Jair Bolsonaro choca o país com seu comportamento grosseiro. Ao ser perguntado por um repórter do jornal “O Globo” sobre os sucessivos depósitos feitos pelo PM aposentado Fabrício Queiroz na conta bancária de sua esposa, o presidente respondeu afirmando que tinha vontade de “encher de porrada a boca” do jornalista, em declaração gravada”, afirmou o presidente da ABI.

“Tal comportamento mostra não apenas uma inaceitável falta de educação. É, também, uma tentativa de intimidação da imprensa, buscando impedir questionamentos incômodos.”

Por sua vez, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) afirmou, em nota que “o discurso hostil e intimidatório de Bolsonaro contra a imprensa vem incentivando sua militância a assediar jornalistas nas redes sociais nos últimos meses, inclusive com ameaças de morte e agressões aos profissionais e a seus familiares.”

O comunicado é assinado também pelas entidades Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Observatório da Liberdade de Imprensa da OAB e Repórteres sem Fronteiras.

Só no primeiro semestre de 2020, o presidente Bolsonaro fez 245 ataques contra o jornalismo. O monitoramento foi feito pela Federação Nacional dos Jornalistas. Conforme a instituição, foram 211 casos de descredibilização da imprensa, 32 ataques pessoais a jornalistas e 2 ataques contra a federação. “É lamentável que mais uma vez o presidente reaja de forma agressiva e destemperada a uma pergunta de jornalista. Essa atitude em nada contribui com o ambiente democrático e de liberdade de imprensa previstos pela Constituição”, protestou Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ).

“É uma tentativa de intimidação da imprensa, buscando impedir questionamentos incômodos”, disse o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jeronimo.

Também o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirmou ao O Globo que “a liberdade de imprensa é um valor inegociável numa democracia”.

Repercussão

Com um histórico longo de agressões verbais a jornalistas, ao vivo e nas redes sociais, o presidente teve de encarar uma reação imediata desta vez. Assim que a notícia com e a ameaça circulou, um movimento ganhou o Twitter: repetir a pergunta feita pelo profissional do Globo: “presidente Jair Bolsonaro, por que sua esposa, Michelle, recebeu 89.000 de Fabrício Queiroz?” Jornalistas, artistas e até políticos aderiram ao movimento.

O caso também ganhou destaque na mídia internacional. Jornais e sites jornalísticos de países como Reino Unido, Estados Unidos, Argentina e Índia publicaram textos sobre a ameaça do presidente Jair Bolsonaro.

Políticos da oposição e pessoas da mídia brasileira condenaram a fala de Bolsonaro imediatamente, publicou o “The Guardian”, um grande jornal do Reino Unido. O “Independent” e a versão online do “Daily Mail” também registraram a ameaça.

As agências de notícias AFP e Reuters resgataram as questões sobre Queiroz, que continuam a assombrar a família Bolsonaro, e cuja a investigação sobre o ex-assessor incomodam o presidente e sua promessa de não tolerar corrupção.

O texto da Reuters foi reproduzido no site do “The New York Times”, dos Estados Unidos.

A Sky News, também do Reino Unido, explica que Queiroz era um assessor de Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do presidente.

“Clarín” e “La Nación”, os dois principais jornais da Argentina, também noticiaram o incidente. Os leitores argentinos leram que Queiroz e Flávio são investigados por desviar o salário de funcionários do atual senador quando ele era deputado estadual, e que a primeira-dama não se pronunciou sobre o caso. Os jornais argentinos também informaram que houve repúdio da sociedade civil.

Jornais da Índia, como o “India Today” e o “The Hindu”, publicaram reportagens sobre a ameaça.

O “ABC”, da Espanha, publicou em sua página a história da ameaça e lembrou que não é a primeira vez que Bolsonaro responde de forma agressiva perguntas sobre Queiroz.

Em dezembro de 2019, um homem perguntou ao presidente se tinha comprovantes dos empréstimos que tinha feito a Queiroz. Os espanhóis leram que na ocasião o presidente do Brasil respondeu: “Pergunta para a sua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai”.

Pedido de impeachment será adiantado

Após a ameaça, a oposição fará adiantamento de pedido de impeachment do presidente. Alessandro Molon, líder do Partido Socialista Brasileiro (PSB) na Câmara, também deve inserir um novo trecho afirmando que Bolsonaro cometeu dois outros crimes de responsabilidade. O primeiro contra o exercício de direitos individuais, e o segundo falta de probidade administrativa.

“Sem liberdade de imprensa não há democracia. É inaceitável que tenhamos um presidente que tenta calar os jornalistas sempre que eles perguntam por que Queiroz depositou dinheiro na conta da primeira dama”, disse Molon.

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