
Ao destacar o caso do Banco Master, o relatório sugeriu que ministros do STF teriam relação ou proximidade com o o dono da instituição, Daniel Vorcaro. Também questionou decisões judiciais tomadas durante o curso das investigações.
As conclusões provocaram forte reação na Corte. Em manifestações públicas, magistrados classificaram o parecer como um “erro histórico”, “equívoco técnico” e tentativa de criminalizar a atividade jurisdicional, especialmente no que diz respeito à concessão de habeas corpus.
Decano do STF, Gilmar Mendes afirmou, durante sessão da Segunda Turma, que o relatório carecia de base legal e representava uma “cortina de fumaça”. Ele acusou a CPI de desviar seu foco original — investigar o crime organizado — para promover embates políticos com o Judiciário. Mencionou que a tentativa de responsabilizar magistrados por decisões judiciais remete ao chamado “crime de hermenêutica”, criticado historicamente por juristas.
Na mesma linha, Toffoli classificou o relatório como uma “excrescência” e sugeriu que iniciativas desse tipo podem configurar abuso de poder com repercussões eleitorais.
Pelas redes sociais, o ministro Flávio Dino apontou como “erro gigantesco” considerar o STF o principal problema do país, destacando que a CPI deixou de avançar em investigações sobre milícias, tráfico de drogas e outras estruturas criminosas.
Em resposta, Vieira defendeu o conteúdo do parecer e afirmou que o pedido de indiciamento seguiu critérios técnicos. O parlamentar enfatizou que “ninguém está acima da lei” e que as conclusões foram baseadas em fatos reunidos ao longo das apurações. Ele acusou Gilmar Mendes de adotar um “modus operandi” de atuação política e criticou o que classificou como tentativas de intimidação por parte do Judiciário.
À noite, o ministro Edson Fachin, presidente do STF, divulgou nota em que repudiou a investida da CPI contra magistrados da Corte. “A Presidência reconhece que é uma garantia fundamental da democracia o exercício das Comissões Parlamentares de Inquérito, nos limites constitucionais e circunscritas à pertinência temática que deu ensejo à sua criação, como instrumento de fiscalização e controle pelo Poder Legislativo e da sociedade”, frisou. “Desvios de finalidade temática dessas comissões, todavia, enfraquecem os pilares democráticos e ameaçam os direitos fundamentais de qualquer cidadão.” Ele ainda se solidarizou com os colegas.
À parte a ofensiva contra ministros, o relatório apontou, no caso Master, indícios de lavagem de dinheiro, uso de estruturas financeiras sofisticadas — como fintechs e criptomoedas — e possíveis conexões entre o sistema financeiro e atividades ilícitas. Também foram citados indícios de exploração sexual e tráfico internacional de pessoas em eventos promovidos pelo empresário, com base em dados extraídos de dispositivos eletrônicos e serviços em nuvem analisados pela CPI.
O documento traçou um diagnóstico do crime organizado no país. Apontou a existência de ao menos 90 organizações criminosas atuando em 24 estados e no Distrito Federal, com influência sobre cerca de 28,5 milhões de brasileiros.
Instalada para apurar a atuação do crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro, a CPI funcionou por quatro meses.




