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Reinaldo Caó fala sobre história de superação através da arte: ‘Troquei o revólver pelo pincel’

Em entrevista exclusiva, o pintor Reinaldo Caó conta suas origens e como a arte mudou sua história. Agora, Caó busca oferecer a mesma oportunidade aos jovens conseguindo o apoio de diversos artistas do cenário nacional para trazer de volta um projeto social de grande importância na Região. Consciente da importância da Cultura e Educação não só para a formação dos jovens e para a diminuição da violência, como para o sustento de muitas famílias, o artista cobra do poder público ações para o setor.

História

O artista que começou na Região dos Lagos e hoje é conhecido internacionalmente, tem origens humildes e já morou na rua. Mas, segundo seu relato, a arte foi um grande divisor de águas em sua história e o tirou de caminhos violentos. “Sou filho de Reinaldo e Gilda, nasci na roça, eu sou rurícola do Retiro, São Pedro da Aldeia, Região dos Lagos. Aos dois anos de idade, meus pais se separaram e eu fui morar com minha avó, que me criou até os doze anos. Com esta idade, já estava na Praia do Forte em Cabo Frio, vendendo picolé e limonada na praia, vendia empadinha para os peões de obra. A minha vida foi assim, vivendo nas ruas de Cabo Frio. Dormia no chão, nestes mesmos prédios ainda em obra”.

Sobre como ingressou neste mundo da pintura, Reinaldo Caó se mantém humilde e agradece o apoio que recebeu. “Eu costumo dizer que quando comecei a pintar, foi do nada. Porque além de não ter tido uma referência, também não tive acesso a livros e informações culturais. Com o dinheirinho que eu fazia, sem conhecimento técnico, eu comecei a comprar guache, que era uma tinta que eu achava boa para pintar. Sabendo que era fácil encontrar tábuas nas ruas, comecei a pintar. Eu faço 54 anos no próximo dia 05 de agosto, então, tem 43 anos que eu me aventuro na pintura.  Eu comecei de fato a pintar com 11 anos. Eu me entristeço quando falo isso, porque no meio em que eu vivia, por falta de conhecimento, tudo o que eu fazia era ignorado por todo mundo. E essas coisas foram destruídas. Para se ter uma ideia, eu adquiri uma peça minha que pintei com 17 anos, em uma loja de antiguidades. É um quadro de um casario com muitos defeitos, mas é como se fosse um filho muito especial. E foi justamente com 17 anos que eu conheci uma pintora paulista chamada Carlota Marsiglio. Eu costumo dizer que Deus olhou das janelas do céu e disse: “Vai para Cabo Frio ajudar esse rapazinho, que ele precisa”. O sonho dela era abrir uma escola de artes em Cabo Frio e ela conseguiu, a Escola Cooperarte para Ressurgência da Arte (Escola Livre de Desenho e Pintura). Eu fiz parte deste movimento e um ano de curso intensivo, eu ia todos os dias, eu era apaixonado, me afastou das drogas”.

O artista frisa ainda como foi a arte que o afastou de um caminho de violência. “Tem um documentário no YouTube chamado Vivências, feito pela Buriti Filmes, e neste filme eu digo que eu troquei o revólver pelo pincel. O meu desejo era de vingança. Eu tinha ódio de pessoas, entrei no ostracismo. Então a Carlota para mim foi um anjo, porque ela e o marido me abraçaram. Um ano após essa acolhida, eu me tornei monitor de arte. Na época, era um curso caro, elitista e eu não entendi porque eu, que só tinha estudado até a 6ª série do fundamental estava tendo a oportunidade de dar aulas. A arte me trouxe noções de cidadania, conhecimento, a arte me fez viajar para fora do país e toda essa notabilidade. Hoje eu lido com todos tipos de pessoas, doutores que sentam à minha mesa para tomar um vinho. Tenho um prazer imensurável de ir à roça bater papo com aquelas pessoas que são da minha terra, do meu chão”, relata.

Falta investimento no setor

Tendo cravada em sua história a importância da Cultura, o artista cobra que o mesmo acesso seja oferecido pelo poder público. “Cabo Frio não tem uma Escola de Artes, eu fico doente com isso, isso me apavora. Quando fui gestor do Espaço Cultural fui perseguido, como se fosse político, o que não sou nem jamais serei. Quando o projeto Domingo com Arte estava funcionando, o que se gastava era tão pouco e atingia 140 crianças. Era apenas uma vez na semana, mas fazia a diferença na vida daquelas crianças. Então por que o governo não faz? Sempre me perguntei isso. O poder público tinha que ter um espaço cultural adequado para os artistas, porque o atual espaço de Cabo Frio está caindo aos pedaços. Eu posso falar porque fui gestor de lá por um ano e meio e não me deixaram trabalhar”.

Reinaldo Caó aponta ainda que a Cultura é o sustento de muitas famílias e cobra responsabilidade do governo municipal. “Um gestor de uma cidade não saber o que está acontecendo no espaço cultural, um dos espaços que dá voto a ele, é inaceitável.  São 70 famílias que vivem daquele espaço que há anos está a mesma vergonha, sem estrutura. Espero que o próximo governo possa olhar para a Cultura de Cabo Frio. A cidade recebe pessoas de todo país e não tem um Teatro funcionando. Não tem exposição artística de peso. Isso é uma vergonha. Cabo Frio poderia ter um turismo cultural de qualidade, porque Paraty tem. E por que a Semana Teixeira e Souza não recebe o mesmo investimento? É o primeiro romancista brasileiro e a cidade não trabalhar isso de forma honesta e dando a devida visibilidade. Nós, artistas não queremos esmola, queremos trabalhar com dignidade. É algo que está ao alcance, basta querer”.

Caó mostra que é um setor que favorece a toda comunidade e até mesmo o próprio político. “Morei no Tangará por 24 anos e vi muito aluno morrer. Então eu creio e espero uma mudança. Martin Luther King disse que dentro do cemitério estavam as maiores riquezas deste mundo. Posso dizer isso com categoria, dentro do cemitério do Jardim Esperança estão as maiores riquezas, porque eu vi jovens talentosos morrerem sem saber do seu talento. A cultura dá voto e os governantes precisam entender isso. A violência que estamos vivendo é um produto da falta de acesso à Cultura e Educação”.

Onde encontrar o artista e suas obras

Reinaldo hoje afirma: “Eu vivo de arte”.  E até sua casa no bairro Parque Burle, Rua M, nº 30, foi transformada em um espaço de aprendizado de cultura. Lá, ele tem em anexo seu ateliê onde dá aulas de desenho e pintura. As aulas estão acontecendo com os devidos cuidados, e as vagas são limitadas.

Reinaldo Caó também é o gestor de uma galeria de arte aberta ao público no Shopping Park Lagos, que conta com o artista pintando novos quadros ao vivo todo domingo. “Lá temos também 18 artistas novos da periferia de Cabo Frio, como Fabi Nascimento, Aline Lobo, Valentina, Franciscone, Frazão. Temos feras consagrados também como Manoel Plácido, Ivan Amorim. Temos também um casal de 90 anos Seu José Medeiros, que trabalha com mandalas, e Dona Meli Limp, que ainda pinta. Temos obras de Fátima Carioli, Odila Onoda, Vilma Guimarães e Seu Elso Cravo, que é meu braço direito na galeria. As obras já estão à venda, parcelamos no cartão. Também trabalhamos com obras por encomenda, para quem quiser ter sua casa, seu sítio, sua cidade, registrado em tela”.

Novo espaço

Caó traz ainda uma grande novidade. Em novembro deste ano será a pré-inauguração de seu novo espaço cultural que pretende levar arte e cultura aos jovens e conta com apoio de artistas de peso. “Tenho um ateliê que vai ser um Ponto de Cultura no Tangará, Caminho de Búzios. Domingo com Arte foi um projeto social que eu fundei em 2004, voltado para crianças de classes menos favorecidas. Não tive condições de levar adiante, mas este ano em meio à pandemia, peguei o telefone e comecei a ligar para artistas de todo Brasil. Eu vejo o tráfico tomando conta do bairro, e a minha vontade foi de voltar com este projeto. Estou fazendo trabalho de formiga, aos poucos vamos ter um Ponto de Cultura no Tangará. Teremos obras de artistas de ponta de todo o país. Quem aprecia arte na nossa Região poderá encontrar obras de José Rosário, de Belo Horizonte, de Marcelo Romani, um dos maiores paisagistas do Brasil: Mauro Ferreira, entre outros. Além, é claro, dos artistas da Região, como Ivan Amorim, Oliveira Celso, Eliane Mattos. Vai ser um espaço gostoso de arte, de literatura, poesia”.

Informações para contato:

WhatsApp – (22) 99857-6001

Instagram – Reinaldo Caó 

Ateliê – Rua M, nº 30, Parque Burle, Cabo Frio

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