Ciência

Psiquiatra que perdeu todos os movimentos volta a ‘falar’ por meio de IA: conheça projeto inédito

Maria Inês Quintana, que foi diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica (ELA), consegue fazer seu avatar interagir por meio do movimento dos olhos

Rodrigo Oliveira Repórter multimídia das editorias Economia, Brasil e Mundo em O TEMPO.

 

Imagine perder, em poucos meses, o movimento de todos os músculos do seu corpo. Isso inclui não apenas deixar de andar: até piscar e falar se tornam impossíveis. Esse é o drama vivido pela psiquiatra Maria Inês Quintana, que foi diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica (ELA) em 2023, uma doença neurodegenerativa que compromete progressivamente os movimentos do corpo – o que impactou a atuação profissional de uma das principais especialistas em transtornos da personalidade, principalmente borderline, do país.

Apenas seis meses depois de descobrir a doença, Inês estava totalmente paralisada, havia perdido a fala e passado por uma traqueostomia para poder respirar, uma vez que os músculos envolvidos nessa função já haviam sido afetados pela doença. Felizmente, porém, esse não é o fim da história. Uma vez que a doença não danifica as funções cognitivas dos pacientes, uma luz surgiu no fim do túnel.

Uma iniciativa inédita desenvolvida no Brasil pela Faculdade Unimed, em parceria com a WorkAI, startup especializada em Inteligência Artificial (IA), foi capaz de desenvolver um equipamento chamado Tobii. Por meio de uma tecnologia de rastreamento ocular, ele permite que a pessoa use o movimento dos olhos (como se estivesse “digitando”) para executar comandos em uma tela de computador. O conteúdo é processado e um avatar, baseado em imagens e áudios de Inês, consegue comunicar as ideias da psiquiatra ao mundo.

“Voltar a me expressar, participar de atividades profissionais e compartilhar conhecimentos é muito importante para mim. Essa tecnologia também amplia minhas possibilidades de interação e de participação nas situações do cotidiano”, relatou Inês em encontro com jornalistas antes de uma palestra de apresentação do ExtensIA, projeto que combina IA e avatares digitais para permitir que pessoas com limitações severas continuem se comunicando. A inovação foi apresentada nessa quarta-feira (28) durante a 21ª edição do Encontro de Cooperados da Unimed-BH.

Inês, que é professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed, afirmou que, antes de experimentar a inovação, acreditava que sua carreira havia chegado ao fim.

“Chorei feito um bebê quando vi meu avatar pela primeira vez. Parecia mágica. Comunicar é muito mais do que transmitir uma informação, é expressar desejos, opiniões, sentimentos, manter vínculos e exercer a própria autonomia. Esse projeto é um exemplo de como a inteligência artificial pode ser colocada a serviço das pessoas. A tecnologia não elimina os desafios que enfrento, mas oferece novos caminhos para continuar atuando”, refletiu.

Ela reforça ainda que uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu diagnóstico, pois, quando isso acontece, deixamos de enxergar o ser humano e passamos a ver só o prontuário. “Esse é o olhar que eu defendo para a saúde mental e para o cuidado. É continuar sendo reconhecida pelo que eu sou, pela minha trajetória e por tudo que eu ainda posso fazer. Espero que a minha história não fique só comigo, que ela abra caminho para muita gente que está enfrentando o que eu enfrentei”, disse.

Quando chegará a outras pessoas?

Com previsão de aproximadamente R$ 5 milhões em investimentos ao longo de seu desenvolvimento, o ExtensIA ainda é um projeto piloto e precisa dar mais passos até começar a beneficiar outras pessoas. O projeto tem patrocínio da Unimed-BH, Horizontes Hub, Seguros Unimed e Unimed Campinas e, agora, está sendo apresentado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

“Dependendo da aprovação, vamos seguir e analisar qual o alcance do projeto para beneficiar outras pessoas diagnosticadas não só com ELA, mas também com outras doenças incapacitantes”, esclareceu Paulo Carreiro, diretor de gestão empresarial da Unimed-BH.

 

 

Fonte https://www.otempo.com.br/saude-e-bem-estar/2026/10/29/psiquiatra-que-perdeu-todos-os-movimentos-volta-a-falar-por-meio-de-ia-conheca-projeto-inedito

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo