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Prédio histórico em mau estado assusta no Largo da Carioca: queda de ornatos e árvores na fachada preocupam quem trabalha no Centro

Fragmento do antigo Hospital da Penitência, hoje de propriedade de um investidor particular, apresenta deterioração visível; comerciantes afirmam que partes da ornamentação já se desprenderam sobre a Rua da Carioca, e empena cega no Largo é das cenas mais deprimentes da região

Por Bruna Castro
“Temos medo que esse prédio caia sobre nossas cabeças.” A afirmação de Heloísa Silva, funcionária de uma universidade da região, resume a apreensão de quem passa diariamente pela esquina da Rua da Carioca com o Largo da Carioca. Comerciantes, porteiros e trabalhadores ouvidos pelo DIÁRIO DO RIO relatam que fragmentos da ornamentação da fachada do imóvel número 3 da Carioca já se desprenderam e caíram sobre a rua, enquanto árvores de grande porte avançam sobre a cobertura, fachada, platibanda e ornatos de um dos últimos remanescentes do antigo Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, parcialmente demolido no início do século 20.
Fachada histórica, quase arruinada, do prédio da Rua da Carioxa 3, um fragmento remanescente do antigo Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, assista pedestres e frequentadores do Centro. Embaixo, funciona de forma precária uma loja de bagagens e malas / Foto: Diário do Rio

As fotografias feitas pela equipe do Diário revelam um quadro que vai muito além do envelhecimento natural de uma construção secular. Árvores já se projetam acima da cobertura, com troncos e galhos crescendo entre a alvenaria e os elementos arquitetônicos da fachada, caminhando para a destruição de todos os elementos que ornam a bela frente do prédio para a atual “rua da Cerveja”. A fachada apresenta manchas extensas de umidade, vegetação nascida em frestas, desgaste generalizado e perdas evidentes de frisos, molduras e ornatos.

A comparação com fotografias antigas permite observar que partes da decoração que antes compunham a fachada de um dos maiores ícones da medicina brasileira já desapareceram. Segundo diferentes testemunhas ouvidas pela reportagem, esses fragmentos não ficaram retidos sobre o edifício: teriam se desprendido e caído na Rua da Carioca, atingindo a área por onde circulam diariamente pedestres, trabalhadores e clientes do comércio local.

Apesar da aparência ser estarrecedora, é possível que não haja nenhum risco estrutural — conclusão que exigiria uma avaliação técnica de engenharia. O que as imagens permitem constatar são os elementos ornamentais faltando, as raízes estufando a cobertura em massa e o desprendimento de fragmentos relatado pelos frequentadores e vizinhos.

É justamente a combinação entre os sinais visíveis e os relatos de quem presencia a situação diariamente que provoca temor na região. Porteiro de um edifício próximo, Antônio Couto afirma que a venda do imóvel chegou a criar a expectativa de uma recuperação, mas que isso não se concretizou. Segundo ele, “disseram que esse prédio ia ser arrumado depois que ele foi vendido em 2022, mas ele só deteriora. E o pior é que dizem que a pessoa que comprou é muito rica”.

A apreensão é compartilhada por Maria Teodora Ferreira, que preferiu não informar sua profissão. Ao observar o estado da construção, ela afirma que “a preocupação é que esse prédio desabe a qualquer momento”. A frase traduz uma percepção recorrente entre as pessoas ouvidas pelo Diário, ainda que somente um laudo possa determinar as condições estruturais efetivas do imóvel.

Um prédio ocupado, mas deteriorado

O contraste torna-se ainda mais evidente porque o imóvel não se encontra inteiramente vazio ou sem utilização econômica. Seu pavimento térreo abriga uma loja em pleno funcionamento, enquanto a parte superior — justamente aquela que conserva os elementos históricos do antigo hospital — permanece marcada por vegetação, umidade e perda de ornamentação.

O edifício está alugado e possui finalidade de renda. Não é possível afirmar que os pagamentos estejam sendo feitos regularmente, mas a existência da locação e da operação comercial no térreo demonstra que não se trata apenas de uma ruína esquecida, sem uso ou perspectiva econômica.

Segundo apuração do DIÁRIO DO RIO, o imóvel foi adquirido por volta de 2022 por um investidor imobiliário com presença relevante na região. Informações obtidas pela reportagem indicam que ele teria comprado também o edifício vizinho e outros imóveis nas proximidades. Não se trataria, portanto, de um pequeno proprietário ocasional com apenas um imóvel antigo e sem recursos para conservá-lo, mas de um investidor com diferentes ativos imobiliários pela cidade.

A identificação registral do proprietário, contudo, não é simples. A reportagem apurou que o edifício histórico ainda não possui matrícula imobiliária individualizada no Registro de Imóveis, situação que dificulta a comprovação documental direta da titularidade. Por essa razão, o Diário não divulgará o nome atribuído ao investidor.

Isso não altera, porém, aquilo que está à vista de qualquer pessoa que atravesse o Largo da Carioca: o pavimento comercial funciona, o imóvel possui destinação econômica e, acima da loja, um fragmento de enorme importância para a história do Rio continua se deteriorando, com riscos aparentes pros pedestres de uma rua que renasce.

Na contramão da renovação da Rua da Carioca

A situação chama ainda mais atenção por ocorrer justamente quando a Rua da Carioca atravessa um processo de recuperação urbana, comercial e gastronômica.

Anunciado pela Prefeitura em 2023, o projeto da Rua da Cerveja busca transformar a tradicional via do Centro em um polo cervejeiro e turístico, estimulando a instalação de bares, restaurantes e cervejarias em imóveis que permaneceram fechados ou subutilizados durante anos. O programa prevê incentivos à reforma dos prédios, apoio à operação dos novos estabelecimentos e investimentos no espaço público: as calçadas já estão sendo ampliadas e a rua – que já recebeu várias cervejarias – foi asfaltada. O projeto contempla ainda iluminação, mobiliário urbano e reorganização da circulação, dentro de uma estratégia para devolver movimento e atratividade à Rua da Carioca.

É nesse momento de renovação que o estado do fragmento do antigo Hospital da Penitência se torna ainda mais destoante. Enquanto novos estabelecimentos abrem as portas – uma nova agência da CEF foi inaugurada em meio a restauro total dos prédios que a receberam – fachadas começam a ser recuperadas e o poder público investe na requalificação da rua, um de seus imóveis historicamente mais valiosos permanece com árvores crescendo sobre a cobertura e elementos decorativos desaparecendo.

O contraste é especialmente incômodo porque os investimentos realizados no espaço público tendem a valorizar os imóveis particulares da região. A cidade recupera calçadas, iluminação e circulação; empresários ocupam lojas e atraem consumidores; a Rua da Carioca volta a receber visitantes. Ao proprietário de um edifício histórico, contudo, também cabe impedir que o patrimônio privado se transforme em ameaça percebida por quem utiliza o espaço público.

O que restou de um hospital monumental

Para quem passa apressadamente pela Rua da Carioca, a construção do número 3 pode parecer apenas mais um sobrado antigo do Centro. Na realidade, ela é um dos últimos fragmentos de um conjunto hospitalar que dominou durante gerações a paisagem do Largo da Carioca (foto abaixo).

O antigo Hospital da Penitência ocupava uma área muito maior aos pés do Morro de Santo Antônio. O edifício sobrevivente integrava aquela estrutura monumental, mantida pela Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, instituição católica fundada em 1619 e ainda hoje existente.

Imagens hiper-realistas do artista gráfico e ilustrador Carlos Gustavo Nunes Pereira, conhecido como Guta, reproduzem com fidelidade as transformações urbanas do Rio de Janeiro ao longo das décadas. Em suas reconstruções do antigo Largo da Carioca, é possível perceber a escala do hospital e reconhecer no conjunto o trecho que permanece de pé na entrada da rua (lado direito extremo da reprodução abaixo).

A comparação entre essas imagens, as fotografias históricas e o prédio atual revela a importância do remanescente. Não se trata de um anexo sem significado ou de uma construção posterior sem ligação com o hospital. É um pedaço sobrevivente de uma instituição que desempenhou papel fundamental na assistência aos enfermos do Rio colonial e imperial.

Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência continua presente no alto do Morro de Santo Antônio, onde mantém um dos mais extraordinários conjuntos religiosos e artísticos do Brasil. Ali estão a Igreja de São Francisco da Penitência — célebre por seu interior barroco coberto de talha dourada e popularmente conhecida como Igreja de Ouro —, o belíssimo Museu Sacro Franciscano, os jardins históricos e o antigo cemitério da instituição. A Ordem foi fundada em 1619, e sua atual igreja começou a ser construída no século XVII, sendo inaugurada no século XVIII.

O hospital, entretanto, deixou o Largo da Carioca após as transformações urbanas do início do século XX. Sua trajetória, desde as primeiras enfermarias abertas no período colonial até a transferência da atividade hospitalar para a Tijuca, confunde-se com a própria história da medicina e da assistência social no Rio.

Antes de essa história ser contada, porém, há uma pergunta que o estado atual do imóvel impõe: depois de ter sobrevivido à demolição de quase todo o antigo hospital, conseguirá esse último fragmento sobreviver à deterioração do século XXI?

DIÁRIO DO RIO deixa o espaço aberto para que o proprietário do imóvel se manifeste sobre o estado de conservação do edifício e sobre a existência de eventual projeto de recuperação. Caso haja pronunciamento, a reportagem será atualizada para incorporar sua posição.

 

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