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No meio do deserto, uma megacidade de 170 km e 500 metros de altura, formada por duas paredes espelhadas, prometeu abrigar 9 milhões de pessoas, abolir os carros e reinventar a vida urbana, até a realidade cobrar seu preço

Escrito por Ana Alice

 

Projeto bilionário da Arábia Saudita avança em ritmo menor, concentra obras em trecho reduzido e amplia o foco em tecnologia, enquanto custo, prazo, impacto ambiental e viabilidade seguem no centro do debate internacional.

Anunciada como um dos projetos centrais da estratégia de transformação econômica da Arábia Saudita, The Line continua sendo apresentada oficialmente como uma cidade linear de 170 quilômetros de extensão500 metros de altura e capacidade para 9 milhões de moradores, sem carros nem ruas convencionais.

Na execução, porém, o empreendimento entrou em fase de revisão, foi concentrado em um trecho prioritário menor e passou a ser acompanhado por questionamentos sobre custo, prazo, impacto ambiental e capacidade de financiamento.

A cidade integra o NEOM, iniciativa lançada pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman dentro da Vision 2030, programa criado para reduzir a dependência saudita do petróleo e ampliar o peso de setores como turismo, tecnologia, indústria e serviços.

Quando The Line foi apresentada, em janeiro de 2021, a proposta era reunir moradia, trabalho e serviços em uma faixa contínua, conectada por transporte de alta velocidade e abastecida por energia limpa.

Cidade linear no deserto e a origem do conceito

A ideia de uma cidade organizada ao longo de um eixo não surgiu no Golfo.

No fim do século 19, o espanhol Arturo Soria y Mata já defendia um modelo urbano estruturado em torno de uma linha de transporte em Madri.

Mais tarde, o arquiteto Yona Friedman apresentou propostas de urbanismo vertical e modular como resposta ao espraiamento das metrópoles.

No caso saudita, esse conceito foi ampliado para uma escala sem precedentes.

Imagem de novo vídeo promocional da megalópole – Divulgação/ Vídeo/ NEOM

 

 

Desde o lançamento, The Line passou a ser divulgada como uma estrutura de 200 metros de largura, 500 metros de altura e 170 quilômetros de comprimento, atravessando deserto, montanhas e área costeira no noroeste do país.

Embora a visão final tenha sido mantida na comunicação oficial, a execução foi sendo reorganizada em fases menores, concentradas sobretudo na chamada Hidden Marina, o primeiro trecho priorizado.

Obra do The Line encolheu e ficou concentrada em trecho menor

Os sinais de revisão ganharam força em 2024 e 2025.

A Reuters informou, com base em fontes ligadas ao projeto, que o foco operacional havia passado para um segmento de 2,4 quilômetros, incluindo um estádio associado ao planejamento saudita para a Copa do Mundo de 2034.

A mudança marcou uma diferença em relação às metas iniciais divulgadas para 2030, quando a expectativa pública em torno de The Line abrangia uma expansão mais ampla.

(Imagem: Reprodução)

Enquanto isso, a engenharia de base avançou em partes do canteiro.

Imagens de satélite e relatos de mercado mostraram terraplanagem, fundações e movimentação concentradas na Hidden Marina, ao passo que outras áreas do traçado permaneciam em estágio preliminar.

Isso indica que o projeto deixou a fase puramente conceitual, mas sem avanço uniforme ao longo dos 170 quilômetros anunciados.

Custo bilionário e pressão sobre as contas sauditas

A principal pressão sobre o projeto passou a ser financeira.

Reportagem do Wall Street Journal, repercutida por outros veículos, informou que uma auditoria interna estimou custo potencial de US$ 8,8 trilhões para a conclusão integral de The Line e cronograma que poderia se estender até 2080.

O mesmo material indicou que o projeto já havia consumido dezenas de bilhões de dólares.

Esse cenário se tornou mais sensível com a pressão sobre as contas sauditas.

Em abril de 2025, a Reuters destacou que o FMI e economistas estimavam que Riad precisaria de petróleo acima de US$ 90 por barril para equilibrar o orçamento, enquanto o Brent havia recuado para patamares inferiores naquele momento.

Meses depois, a mesma agência informou que o fundo soberano saudita, o PIF, registrou uma baixa contábil de US$ 8 bilhões em gigaprojetos, em meio a atrasos, aumento de custos e reavaliações de mercado.

Também houve mudanças na direção do empreendimento.

Em novembro de 2024, a Reuters noticiou a saída do então CEO de longa data do NEOM, Nadhmi al-Nasr, no momento em que partes do megaprojeto eram reduzidas ou revistas.

Já em 2026, reportagens do Financial Times e do The Times relataram que o desenho geral do NEOM seguia em reavaliação, com The Line perdendo espaço relativo para frentes consideradas mais viáveis no curto e médio prazo.

Inteligência artificial e data centers ganham espaço no NEOM

Paralelamente à revisão de The Line, o NEOM ampliou o discurso em torno de inteligência artificial e infraestrutura digital.

Em 10 de fevereiro de 2025, o projeto anunciou acordo com a DataVolt para desenvolver em Oxagon um centro de dados de IA com investimento inicial de US$ 5 bilhões na primeira fase.

A Reuters informou que o empreendimento foi descrito como um projeto “net zero” de 1,5 gigawatt, com operação inicial prevista para 2028.

A mudança de foco tem peso estratégico.

Em meio à revisão da cidade linear, a expansão de projetos ligados a data centers, energia e indústria avançada ajuda a explicar a tentativa saudita de manter o NEOM como plataforma de transformação econômica.

Assim, o projeto que havia sido apresentado sobretudo como experiência urbana sem carros passou a dividir espaço com a meta de consolidar a costa do Mar Vermelho como polo regional de processamento de dados e infraestrutura para IA.

Impacto ambiental, vigilância e direitos humanos no centro das críticas

As críticas ao empreendimento não se limitaram ao custo.

Organizações e pesquisadores apontaram riscos ambientais associados a uma estrutura espelhada e contínua em uma área de passagem de aves migratórias entre África e Ásia.

Especialistas ouvidos em reportagens internacionais alertaram para o potencial de colisões em larga escala, já que fachadas refletivas estão associadas a esse tipo de mortalidade em rotas de voo.

(Imagem: Reprodução)

No campo dos direitos digitais, a preocupação se concentra no volume de dados que uma cidade altamente sensorizada poderia reunir.

Em reportagem da Reuters sobre o conceito de “cidade de vigilância”, o pesquisador Vincent Mosco afirmou que as preocupações com monitoramento eram justificadas diante da combinação entre coleta massiva de dados e histórico frágil de proteção de direitos no país.

O debate também envolve o histórico de deslocamento forçado ligado ao NEOM.

Especialistas da ONU alertaram, em 2023, para o risco de execução de integrantes da tribo Howeitat após prisões relacionadas à resistência a remoções em nome do projeto.

A Human Rights Watch também associou o avanço dos gigaprojetos sauditas, inclusive no NEOM, a denúncias de abusos trabalhistas e violações de direitos humanos.

Hidden Marina, revisão do projeto e futuro indefinido

Em 2026, The Line continua existindo como visão oficial e como canteiro parcial, mas não como obra em expansão homogênea pelo deserto.

A Hidden Marina permanece como o segmento mais concreto, enquanto o restante do traçado depende de decisões políticas, disponibilidade de recursos e redefinição de prioridades dentro do próprio PIF.

Nem outras vitrines do NEOM ficaram imunes à revisão.

Os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029, previstos para Trojena, foram adiados para uma data ainda não anunciada, em decisão confirmada pelo Conselho Olímpico da Ásia e repercutida pela Associated Press.

O adiamento foi mais um sinal de que o cronograma do megaprojeto segue sujeito a ajustes.

Nesse contexto, The Line passou a ser observada menos pelo que prometia entregar no anúncio inicial e mais pelo que sua execução efetivamente conseguirá materializar.

A trajetória do projeto reúne, ao mesmo tempo, ambição urbanística, limites orçamentários, desafios ambientais e reorientação estratégica dentro da Vision 2030.

Com a obra concentrada em um trecho menor e sem cronograma público para os 170 quilômetros previstos, a evolução do projeto permanece no centro das atenções internacionais.

 

 

Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/no-meio-do-deserto-uma-megacidade-de-170-km-e-500-metros-de-altura-prometeu-abrigar-9-milhoes-de-pessoas-abolir-os-carros-e-reinventar-a-vida-urbana-ate-a-realidade-cobrar-seu-preco-asaf04/#goog_rewarded

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