Muito antes de o rock, o soul e boa parte da música pop conquistarem o mundo, o blues já havia ajudado a construir as bases da música popular do século 20. Riffs, estruturas harmônicas, formas de cantar e histórias pessoais transformadas em canções atravessaram gerações e influenciaram diversos estilos.
Agora, uma das vozes mais conhecidas do cinema revisita essa trajetória. Aos 89 anos, Morgan Freeman empresta a voz ao projeto Morgan Freeman’s Symphonic Blues Experience, que percorre aproximadamente um século de história do blues em uma combinação de música, narração e arranjos sinfônicos.
O álbum chega nesta sexta-feira (14), pela Decca Records, com 12 faixas e participações de artistas como Taj Mahal, Keb’ Mo’ e Shemekia Copeland, além da Chineke! Orchestra.
Da varanda da avó ao palco
A ligação de Freeman com o blues começou ainda na infância, no Mississippi Delta, região considerada um dos berços do gênero.
Em entrevista à Rolling Stone, o ator relembrou cenas de quando tinha apenas três ou quatro anos e observava um músico tocando violão na varanda da casa de sua avó.
Décadas depois, Freeman percebeu que visitantes de Clarksdale, cidade fundamental para a história do blues, não tinham um espaço permanente dedicado à música. Em 2001, ajudou a fundar o Ground Zero Blues Club, que se tornou um dos pontos de referência do gênero.
Apesar da relação de longa data com o blues, Freeman afirma que não se considera um especialista no estilo. Para ele, o projeto nasceu principalmente do desejo de preservar essa história e apresentá-la a novas gerações.
Primeiro veio o espetáculo
O álbum surgiu de uma maneira diferente do habitual. Em vez de gravar as músicas e depois transformá-las em espetáculo, Morgan Freeman’s Symphonic Blues Experience nasceu nos palcos.
A produção combina a narração do ator com imagens do Mississippi Delta, performances de músicos de blues e uma orquestra sinfônica. Parte do material audiovisual foi gravada no próprio Ground Zero Blues Club.
Para o disco, a experiência foi transformada em 12 faixas, com aproximadamente 45 minutos de duração.
Um século de blues em 12 faixas
O repertório começa com “Dark Was the Night, Cold Was the Ground”, de Blind Willie Johnson, registrada originalmente em 1927, e chega ao blues contemporâneo com “I Lied to You”, música presente na trilha sonora do filme Sinners.
As gravações dos músicos de blues foram realizadas no histórico Royal Studios, em Memphis. Já a Chineke! Orchestra registrou as partes sinfônicas no Abbey Road Studios, em Londres, sob a direção do compositor e maestro Martin Gellner.
O resultado é uma ponte entre duas tradições: o blues das raízes do Mississippi e a grandiosidade de uma orquestra sinfônica.
Entre o Delta e as grandes salas
Mais do que uma coleção de músicas, o projeto pretende apresentar a trajetória do blues a públicos que talvez não tenham contato com suas origens.
A proposta conduz o gênero dos pequenos juke joints do Sul dos Estados Unidos às grandes salas de concerto, mantendo no centro histórias e sonoridades que ajudaram a moldar o rock, o soul e a música popular contemporânea.
Com sua voz marcante, Morgan Freeman assume o papel de guia dessa viagem musical, conectando passado e presente e mostrando como um gênero nascido da experiência e da resistência continua influenciando a música um século depois.





