
Brasília | Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
O Brasil recorreu ao princípio da reciprocidade após o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, retirar as credenciais de acesso de um agente de imigração norte-americano que atua no país. A decisão veio depois de os Estados Unidos expulsarem o delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho, sob a alegação de envolvimento na prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem.
Especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que medidas recíprocas entre Brasil e EUA podem comprometer a cooperação policial e dificultar a localização de foragidos. Segundo eles, a ação tende a reduzir a fluidez em áreas nas quais rapidez e confiança informal são essenciais, como intercâmbio de inteligência, deportações e investigações transnacionais.
Para o internacionalista João Alfredo Nyegray, os efeitos imediatos da medida são operacionais e políticos. “No plano operacional, a cooperação policial e migratória se torna mais lenta, mais formalista e mais desconfiada. Sem as credenciais, o agente americano perde acesso à unidade onde atuava e aos bancos de dados usados na cooperação. Isso afeta diretamente a agilidade em processos sensíveis”, explica.
Para Nyegray, quando agentes de ligação passam a ser envolvidos em disputas políticas, os canais de cooperação deixam de operar com naturalidade. “A consequência não é necessariamente uma ruptura, mas uma cooperação mais restritiva: mais burocracia, menos discricionariedade e maior receio de repercussão política”, avalia.
le também destaca um impacto na narrativa pública da relação bilateral. “Quando os EUA sugerem que houve ‘manipulação’ do sistema migratório, colocam em dúvida a neutralidade institucional brasileira. Ao responder com reciprocidade, o Brasil sinaliza que considera a acusação inaceitável”, explica.
Caso esse padrão se repita, o especialista alerta para um risco maior: a transformação de divergências pontuais em desconfiança estrutural. “Esse é o tipo de dano mais difícil de reparar, porque envolve credibilidade estatal, não apenas normas ou protocolos”, afirma.
Precedentes
Segundo Nyegray, há precedentes recentes que ajudam a contextualizar o episódio. Um deles foi a revogação do visto do comentarista americano Darren Beattie pelo governo brasileiro, em 2026, também sob justificativa de reciprocidade. Outro exemplo foi a retomada da exigência de visto para cidadãos dos EUA, Canadá e Austrália a partir de 2025. “Nem toda reciprocidade gera crise aberta. Em muitos casos, o efeito é mais administrativo e político do que propriamente diplomático”, diz.
Priscila Turchetto cita ainda exemplos internacionais, como as expulsões recíprocas de diplomatas entre Rússia e países ocidentais após a invasão da Ucrânia, em 2022. “Mesmo em contextos mais sensíveis, esse tipo de medida costuma funcionar mais como sinalização política do que como ruptura definitiva”, conclui.



