
A saída veio por meio de um comunicado, no qual os ministros mantém o integral apoio a Toffoli. Afirmam que as decisões anteriores do magistrado serão mantidas e informam “não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição”. Frisa, ainda, o respeito à “dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento”. “Anote-se que Sua Excelência atendeu a todos os pedidos formulados pela Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República”, observa um trecho do comunicado.
Porém, no fim do texto, salienta que foi o próprio Toffoli quem pediu para deixar a condução do inquérito. “Registram, ainda, que a pedido do ministro Dias Toffoli, levando em conta a sua faculdade de submeter à Presidência do Tribunal questões para o bom andamento dos processos e considerados os altos interesses institucionais, a Presidência do Supremo Tribunal Federal, ouvidos todos os ministros, acolhe comunicação de Sua Excelência quanto ao envio dos feitos respectivos sob a sua relatoria para que a Presidência promova a livre redistribuição”, observa. Pouco depois, era anunciado que Mendonça conduziria a investigação.
A atuação de Toffoli vinha sendo alvo de questionamentos e críticas desde 2025 (veja abaixo a linha do tempo). A crise, porém, se agravou nas últimas horas, a partir do relatório da PF sobre as menções ao ministro no celular de Vorcaro. Tal conteúdo está sob sigilo e sob a guarda de Fachin. Na reunião de ontem, que precedeu a dvulgação da nota e a saída de Toffoli do caso, o presidente do Supremo apresentou o documento aos pares. O ex-ministro-relator pode, também, dar explicações sobre as menções.
O relatório elenca telefonemas trocados entre Toffoli e Vorcaro e, também, o envio de um convite para uma festa de aniversário do ministro, além de diálogos do ex-banqueiro com outras pessoas a respeito de pagamentos relacionados ao resort Tayayá, no interior do Paraná. Em nota divulgada ontem, antes de deixar a condução das apurações sobre o Master, o magistrado admitiu que recebeu dividendos como sócio da Maridt Participações, que tinha participação no complexo turístico e a vendeu a um fundo de investimento sob suspeita (leia na página ao lado).
De acordo com a investigação, o magistrado era sócio anônimo da Maridt, oficialmente administrada pelos dois irmãos dele: o engenheiro José Ticiano Dias Toffoli e o padre José Eugênio Dias Toffoli. A companhia era dona de 33% do Tayayá. Na transação, aparece o empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro.
A PF não pediu expressamente a suspeição de Toffoli, mas enumerou dados encontrados no celular do ex-banqueiro que poderiam se considerados fatores impeditivos para que o ministro permanecesse não somente na relatoria, mas, também, no julgamento do caso no plenário da Corte.
Relatório grave
Antes da reunião, Toffoli sinalizara que não deixaria a condução do inquérito. Mesmo pressionado, insistiu que não via motivos para se afastar. Os demais ministros, porém, consideravam a situação crítica, pois avaliavam que o relatório da PF era “grave”. Assim, a permanência do magistrado à frente do caso Master contaminaria a Corte.
Na semana passada, ao manifestar-se contrariamente à criação de um Código de Ética no STF, Toffoli defendeu a participação de magistrados em empresas. “Vários magistrados são fazendeiros, vários magistrados são donos de empresas e eles, não exercendo a administração, têm todo direito de receber os seus dividendos”, enfatizou, em debate no plenário.
O código, inclusive, é dos motivos pelos quais Fachin se colocou a favor da saída de Toffoli do caso. O presidente do Supremo tenta conter a crise e restabelecer a confiança da opinião pública na Corte. Na abertura do Ano Judiciário, fez um discurso enfático em defesa de uma “autocorreção” do Supremo, admitindo que o tribunal precisava retornar ao equilíbrio institucional.
A investigação da PF indica que o BRB realizou operações consideradas irregulares com o Master, numa tentativa de dar fôlego à instituição, enquanto o Banco Central analisava a proposta de aquisição. O Banco de Brasíia chegou a formalizar a oferta em março do ano passado, mas o negócio foi vetado pela autoridsade monetária.
Depois de enviado o relatório da PF a Fachin, Toffoli se defendeu e disse que a corporação partia de ilações e que não tinha legitimidade jurídica para pedir a suspeição por não ser parte do processo. O ministro afirmou que esclareceria os pontos levantados pelos investigadores no documento.
Como última decisão à frente do inquérito do Master, Toffoli determinou que a PF enviasse os dados de todos os celulares apreendidos e periciados na investigação. Determinou que a PF encaminhasse, na íntegra, o conteúdo dos aparelhos e mídias apreendidas, além dos laudos periciais — incluindo dados telemáticos, informáticos e telefônicos. A ordem foi considerada incomum, pois, segundo os investigadores, poderia comprometer a apuração, uma vez que o ministro era um dos citados no relatório.
Linha do tempo
2025
3 de setembro — Banco Central nega a compra do Banco Master pelo Banco Regional de Brasíia. A decisão da diretoria colegiada da autoridade monetária foi unânime devido aos riscos elevados, falta de viabilidade econômico-financeira e incompatibilidade dos ativos da instituição de Daniel Vorcaro com o perfil do BRB
18 de novembro — A primeira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, focou no Master e em Vorcaro, ao investigar um esquema de fraudes bilionárias, com a concessão de créditos falsos e emissão de títulos sem lastro. O ex-banqueiro foi preso quando tentava embarcar para Dubai em um jato particular, onde, supostamente, levaria adiante entendimentos para a venda do Master ao grupo Fictor.
18 de novembro — No mesmo dia, mas horas depois, o BC decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A, do Banco Master de Investimento S/A, do Banco Letsbank S/A e da Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, bem como Regime Especial de Administração Temporária (RAET) do Banco Master Múltiplo S/A. Todas compõem o conglomerado Master.
28 de novembro — Depois da prisão de Vorcaro e a liquidação do Master pelo BC por fraudes estimadas em R$ 11 bilhões, Toffoli é sorteado relator da Operação Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal (STF).
2 de dezembro — O ministro decreta sigilo absoluto sobre o caso, restringindo o acesso a informações sobre o pedido da defesa de Vorcaro para anular atos da Justiça Federal.
3 de dezembro — Toffoli traz para si a competência de toda a investigação que corria na primeira instância da Justiça. Ele valida as medidas cautelares anteriores, mas determina que o caso siga exclusivamente no STF, alegando o envolvimento do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem prerrogativa de foro.
24 de dezembro — Toffoli determina a realização de uma acareação entre Vorcaro, o diretor de Fiscalização do BC, Aílton Aquino, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
30 de dezembro — O que seria uma acareação entre Vorcaro, Aquino e PHC torna-se numa sessão de depoimentos — na sequência é que houve a acareação apenas entre Vorcaro e PHC. A autoridade monetária tentou impedir a sessão — considerou-a uma “armadilha processual” —, mas Toffoli manteve a ordem, ouvindo as partes sobre a venda de carteiras de crédito supostamente falsas do Master ao BRB. As oitivas aconteceram no STF e foram conduzidas pela delegada federal Janaína Palazzo. O juiz auxiliar do ministro, Carlos von Adamek, acompanhou a sessão e tentou fazer com que a agente federal lesse perguntas elaboradas pelo gabinete do magistrado, o que ela recusou. A sessão foi marcada pelo mal-estar entre a PF e o ministro.
2026
6 de janeiro — Toffoli autoriza a quebra de sigilo fiscal e bancário de 101 pessoas e empresas ligadas ao esquema do Master e determina o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens.
14 de janeiro — PF desfecha a segunda fase da Operação Compliance Zero. Além do bloqueio dos R$ 5,7 bilhões, foram apreendidos R$ 97 mil em espécie e itens de luxo, como relógios e veículos. Os alvos da operação foram o empresário e cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel (apontado como intermediário do ex-banqueiro com os bastidores políticos), o empresário Nelson Tanure, o financista José Carlos Mansur (dono da Reag Investimentos, liquidada extrajudicialmente pelo BC no dia seguinte) e Felipe Cançado Vorcaro (primo e então sócio do ex-banqueiro).
14 de janeiro — No mesmo dia, Toffoli determinou que a PF justificasse o atraso na deflagração da segunda fase da Compliance Zero. Criticou a corporação por “inércia” e de “inobservância expressa e deliberada” de sua decisão.
15 de janeiro — O ministro determina quais os peritos da PF poderiam analisar os celulares de Vorcaro, gerando mal-estar com a PF.
21 de janeiro — Toffoli agenda os depoimentos de diretores do Master e do BRB para 26 e 27 de janeiro, mas nega o pedido da PF para ouvir Vorcaro novamente. Argumenta que ele já havia sido ouvido em 30 de dezembro de 2025.
29 de janeiro — Gabinete de Toffoli afirma que a decisão sobre manter o caso do Master no STF só será tomada depois da conclusão do inquérito.
11 de fevereiro — PF entrega ao presidente do STF, Edson Fachin, relatório com mensagens encontradas no celular de Vorcaro que citam Toffoli. A PF pede a suspeição do ministro.
12 de fevereiro — Toffoli emite despacho determinando que a PF entregue ao STF, imediatamente, todos os dados, laudos e dispositivos apreendidos e relacionados a Vorcaro.




