A goiana Helen Jaine Gomes Borgens, de 25 anos, entrou para a história ao se tornar a primeira pessoa quilombola aprovada no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD), seleção que prepara os futuros diplomatas brasileiros. Moradora da comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia, no nordeste de Goiás, ela conquistou a vaga reservada a candidatos quilombolas no processo seletivo de 2026.
Formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Helen enfrentou desafios para se preparar para uma das seleções mais exigentes do serviço público federal. Sem acesso a cursos especializados e professores de algumas disciplinas na região onde vivia, precisou organizar os estudos de forma independente.
A conquista ocorreu em um ano histórico para a carreira diplomática: pela primeira vez, o concurso reservou vagas específicas para candidatos indígenas e quilombolas. Das 60 vagas oferecidas, duas foram destinadas a indígenas e uma a quilombolas — justamente a conquistada por Helen.
Da comunidade quilombola à universidade
Helen cresceu em Simolândia, próxima à família e à natureza da comunidade do Retiro. A educação sempre teve papel importante em sua trajetória, especialmente pelo incentivo recebido da família e pela inspiração da avó, Brasilina Duques Borges, conhecida como Miúda.
Segundo Helen, a avó valorizava os estudos e fez questão de incentivar os sete filhos a concluírem o ensino superior. Esse exemplo familiar ajudou a fortalecer sua própria dedicação à formação acadêmica.
O interesse pela diplomacia surgiu em 2017, quando um professor de História de um curso preparatório para o Enem apresentou a possibilidade de seguir carreira no Itamaraty. Na época, porém, ela considerava esse objetivo distante de sua realidade.
Já durante a graduação na UFG, chegou a pensar em desistir do curso de Relações Internacionais. O incentivo da mãe para que permanecesse por mais um semestre foi decisivo. Nesse período, a disciplina de Política Externa Brasileira despertou novamente seu interesse pela área e reforçou o desejo de se tornar diplomata.
Arquivo pessoal
Preparação exigiu estudo independente
Depois de concluir a graduação, em 2025, Helen voltou para Simolândia e se dedicou à preparação para o concurso. A falta de estrutura especializada no interior de Goiás tornou o processo ainda mais desafiador.
A jovem precisou estudar inglês e aprofundar conhecimentos em diferentes disciplinas sem contar com professores especializados em todas as áreas.
“Não tive professores nem ninguém para orientar, porque simplesmente não existia essa estrutura aqui. Era eu e Deus”, relatou Helen ao Correio Braziliense.
A preparação também foi marcada por momentos de insegurança e dificuldades para manter a rotina de estudos. Mesmo diante dos obstáculos, ela persistiu até alcançar a aprovação, confirmada em maio de 2026.
Concurso abriu espaço inédito para quilombolas
O Concurso de Admissão à Carreira Diplomática é organizado pelo Instituto Rio Branco, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores. A seleção inclui conhecimentos de Língua Portuguesa, História do Brasil e Mundial, Geografia, Inglês, Política Internacional, Economia e Direito, além de provas discursivas e avaliação de língua estrangeira.
A reserva de vagas para indígenas e quilombolas foi adotada pela primeira vez no concurso de 2026, no contexto da legislação federal de cotas em concursos públicos.
A medida amplia as possibilidades de ingresso de grupos historicamente sub-representados na diplomacia brasileira, carreira responsável por representar os interesses do país perante outros governos e organizações internacionais.
Arquivo pessoal
Próxima etapa será a formação no Instituto Rio Branco
Após a aprovação, Helen deverá participar do curso de formação do Instituto Rio Branco, com duração estimada de três a quatro semestres. A etapa inclui atividades práticas no Itamaraty.
Depois de concluir a formação, os novos diplomatas ingressam na carreira como terceiros-secretários, primeiro nível da hierarquia diplomática brasileira.
A remuneração inicial prevista para a carreira supera R$ 20 mil, conforme o edital do concurso.
Para Helen, a aprovação representa não apenas uma conquista pessoal, mas também a possibilidade de ampliar a presença quilombola em espaços de decisão e representação internacional.
A jovem pretende construir uma trajetória profissional sólida e tem como um dos objetivos futuros chegar ao posto de embaixadora. Sua história destaca o papel da educação e da persistência na superação de barreiras de acesso a carreiras tradicionalmente pouco acessíveis a determinados grupos sociais.





