
Os números mais recentes sobre violência letal contra meninas, adolescentes e mulheres no Brasil revelam uma realidade que não podemos mais ignorar, é uma ferida aberta na nossa sociedade. Segundo dados oficiais consolidados até o fim de 2025 o país registrou 1.470 casos de feminicídio, mais do que em 2024, quando já haviam sido contabilizados 1.464 feminicídios, o maior número da série histórica até então e mostra que, embora a violência letal geral tenha caído em alguns anos, o crime de matar uma mulher por ela ser mulher continua subindo e atingindo níveis terríveis, cerca de quatro mulheres assassinadas por dia no Brasil.
Estes homicídios motivados pela condição feminina não são apenas estatísticas frias, são vidas arrancadas de meninas e mulheres que sofriam violência em seus lares, em seus relacionamentos, na escola ou no trabalho. A realidade mostra que a maioria das vítimas conhece ou convive com o autor, muitas vezes parceiros ou ex-parceiros, e representa um padrão de violência que começa a se manifestar muito antes da morte. Dados sistemáticos mostram que, nos estados monitorados, em 2024 uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 17 horas, e em mais de 75% dos casos o agressor era alguém próximo.
Sabemos também que as mortes violentas intencionais em geral (homicídios dolosos e relacionados) seguem números altos no país, ainda que a taxa total de homicídios tenha caído em 2024 em comparação aos anos anteriores. Mesmo assim, essas quedas em homicídios gerais não trazem justiça ou segurança para as meninas e mulheres, cujo perfil e dinâmica da violência estão ligados ao machismo enraizado e à cultura de dominação e controle.
Em muitos lares essas agressões psicológicas e físicas começam ainda na adolescência, em relacionamentos que deveriam ser protegidos, e muitas vezes os pais não sabem ou não reconhecem os sinais de abuso, a culpa e o medo do abandono ou da perda fazem com que muitas jovens aceitem condições abusivas e que famílias, por desconhecer ou minimizar os sinais, não intervenham. A violência não surge do nada, ela cresce nos espaços onde a desigualdade, o patriarcado e o silêncio convivem.
Diante desses números, é indispensável que o Brasil tenha leis ainda mais rígidas, que punam com mais severidade e isolem definitivamente agressores violentos, mas também que essas leis sejam cumpridas com eficiência e que o Estado ofereça proteção real às vítimas.

A educação é uma ferramenta poderosa de transformação social e deve estar no centro dessa luta. É urgente que relações saudáveis, respeito, consentimento, igualdade e combate ao machismo seja mostrado nas escolas, especialmente no ensino médio, onde muitas meninas estão começando a vivenciar seus primeiros relacionamentos e cruzando com dinâmicas abusivas. Inserir esse tema no currículo escolar não é um luxo, é uma necessidade para formar jovens que reconheçam sinais de abuso, que saibam se posicionar e que possam exigir respeito.
Não podemos mais aceitar que meninas cresçam achando normal xingamentos, ciúmes possessivos, controle de redes sociais ou agressões psicológicas e, no futuro, paguem com suas vidas por isso. Precisamos de ação imediata, de políticas públicas fortes, de leis rígidas com aplicação efetiva e de educação nas escolas que ensine meninas e meninos a entender o valor da igualdade e do respeito.
O Brasil precisa olhar para esses números e agir com coragem, porque cada número representa uma vida que foi interrompida, uma família dilacerada e uma sociedade que perdeu uma de suas vozes mais preciosas. A violência contra mulheres e meninas não pode mais ser uma tragédia cotidiana, ela deve ser, de uma vez por todas, um crime que enfrentamos com firmeza, determinação e educação de base.
Jornalista, radialista, filósofo




