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Do turismo ao medo: facções impõem regras e restringem circulação em Itatiaia, Valença e outras cidades do Sul Fluminense

Disputa por territórios muda rotina em bairros de municípios que compõem região turística do interior, e homicídios disparam. Pichações em muros e placas ditam regras para quem transita por locais em conflito.

A violência que restringe o ir e vir em territórios explorados pelo crime organizado, comum em favelas cariocas, chegou ao Sul Fluminense, região muito procurada por turistas que conta com extensa área verde e clima privilegiado. Moradores de cidades como Porto Real, Barra Mansa, Itatiaia e Valença, antes até bucólicas, já assistem a disputas de facções criminosas rivais. A guerra já fez aumentar os números de assassinatos e de ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas nos seis primeiros meses deste ano, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP).

Nos três primeiros municípios citados acima, O GLOBO encontrou muros e placas com pichações de siglas de grupos criminosos. As inscrições mostram uma espécie de advertência para quem transita pelas localidades, incluindo restrições como a proibição do uso de capacete em determinadas ruas e a obrigatoriedade de trafegar em veículos com janelas abertas e farol baixo.

É o que acontece, por exemplo, em Barra Mansa, cidade de mais de 169 mil habitantes que tem, entre seus pontos turísticos, fazendas do século XIX. Em alguns bairros, as regras impostas pelas quadrilhas estão expostas pelo caminho. “Risco. Vidro baixo e capacete levantado”, alerta a inscrição feita em um muro e em um poste da Vila Ursulina.

Tiroteio com feridos

O bairro tem territórios controlados pelo Comando Vermelho (CV), mas vem sofrendo investidas de bandidos do Terceiro Comando Puro (TCP). Um tiroteio entre os dois grupos, no dia 17 de julho, deixou três pessoas feridas. Na última quarta-feira, uma operação de policiais do 28º BPM (Volta Redonda) e do Batalhão de Ações com Cães apreendeu drogas na localidade.

— O bairro está violento. Durante a noite, os bandidos abordam até morador. Há três anos, isto aqui era um lugar tranquilo — conta um auxiliar administrativo.

Pichação de facção em Itatiaia — Foto: Gabriel de Paiva
Pichação de facção em Itatiaia — Foto: Gabriel de Paiva

Em Porto Real, que tem pouco mais de 20 mil habitantes e conta com um polo industrial, incluindo uma fábrica de veículos, as pichações estão em pontos dos bairros Jardim Real, Freitas Soares e Jardim das Acácias. Neste último, há territórios divididos entre duas facções rivais.

— Há uns dez anos, a cidade era tranquila. Agora, eles (bandidos) ficam se matando; a gente escuta os disparos quase toda noite — diz um morador.

Educação comprometida

A rotina de violência também prejudica quem sonha com uma vida melhor. É o caso de um estudante, de 14 anos, que prefere não se identificar. De família pobre e aluno de uma escola pública localizada em uma área controlada por traficantes do CV, ele não vai às aulas há quatro meses. No início do ano letivo, o jovem foi ameaçado por ser morador de um território dominado pelo TCP.

No primeiro semestre de 2025, foram contabilizados 123 faltosos nas oito escolas e quatro creches municipais de Porto Real. A maioria dos casos foi notada em colégios localizados em bairros que sofrem algum tipo de influência do tráfico. O município nega a existência de evasão escolar e alega que isso só pode ser avaliado no fim do ano letivo.

Distante cerca de 170 quilômetros do Rio, Itatiaia é famosa por pontos turísticos como o Parque Nacional e, claro, pela região de Visconde de Mauá: lá, em parte da subida da serra, O GLOBO contabilizou três placas com as siglas de uma facção criminosa. Mas é no bairro Vila Esperança, às margens da Rodovia Presidente Dutra, em Itatiaia, que a presença de grupos criminosos pode ser notada de forma mais evidente. Na parte alta da localidade, próximo a uma escola, uma pichação em um muro informa as regras do local “Tropa tá pista. Abaixar o vidro. TCP”. Já na parte baixa do bairro, havia inscrições do CV.

Em Valença, cidade onde fica o distrito de Conservatória, conhecido pelas serestas, a violência é constatada pelos números. Foram 13 assassinatos nos seis primeiros meses de 2025, contra dois homicídios no mesmo período de 2024.

Na área da 100ª DP (Porto Real), foram sete execuções contra nenhuma no mesmo período de 2024. A maioria dos casos ocorreu durante disputas criminosas.

Em Barra Mansa, um crime ocorrido em janeiro chocou moradores e autoridades. Em uma das principais vias da cidade, criminosos desceram de um carro e dispararam tiros de fuzil contra os ocupantes de outro veículo parado no sinal de trânsito. Duas pessoas morreram, entre elas, um homem que seria chefe do TCP no bairro Bom Pastor. Uma terceira vítima, um homem que estava na garupa de uma motocicleta e que nada tinha a ver com os bandidos, também morreu.

— Nos chocou e chamou a atenção a ousadia do afrontamento contra a cidade — disse o prefeito Luiz Furlani Filho (PL), que anunciou a construção das instalações que servirão para abrigar uma Companhia Independente da PM com previsão de funcionamento a partir de 2026.

Rotas do tráfico

Para o promotor Fábio Correa, subcoordenador do Gaeco/MPRJ, uma das principais explicações para essa movimentação é a disputa pelo controle de rotas do tráfico.

— São cidades próximas e consideradas estratégicas pelos bandidos por conta de rotas terrestres que podem facilitar o escoamento de drogas e de armas — explica.

Opinião parecida tem o delegado Maurício Mendonça, diretor do 5º Departamento de Policiamento de Área, que engloba municípios do Sul Fluminense:

— Em Valença, por exemplo, um dos chefes do TCP foi cooptado pelo CV e trocou de lado. Ele trouxe algumas armas e recebeu a missão de eliminar membros do seu antigo grupo. Há ainda um traficante que é de Resende, está preso, e exerce influência em toda a região. Ele é ligado ao Fernandinho Beira-Mar e controla as rotas do tráfico. Ele teria como missão ampliar o domínio do CV. A Polícia Civil já identificou, mapeou e conseguiu mandados de prisão para responsáveis por estes atos.

A Polícia Militar diz que “vem dinamizando suas ações”, que os municípios e regiões citados são policiados por unidades pertencentes ao 5º Comando de Policiamento de Área (CPA) e que os números referentes ao 5º CPA “são bastante positivos, tanto em relação à redução de indicadores estratégicos como em relação ao saldo operacional das unidades que atuam na região Sul Fluminense”.

 

Por Marcos Nunes – Rio de Janeiro – https://extra.globo.com/rio/noticia/2025/08/do-turismo-ao-medo-faccoes-impoem-regras-e-restringem-circulacao-em-itatiaia-valenca-e-outras-cidades-do-sul-fluminense.ghtml

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