O golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff completa 10 anos nesta segunda-feira, 31 de agosto, num cenário político marcado pela polarização em meio à uma nova disputa eleitoral que vai definir o projeto de país dos próximos quatro anos. À época senador pelo Rio de Janeiro, Lindbergh Farias (PT), hoje deputado federal e candidato à reeleição, fez parte da tropa de choque no Congresso Nacional em defesa de Dilma, adotando uma postura linha-dura. A avaliação do parlamentar é de que, até hoje, a democracia brasileira enfrenta as consequências do golpe articulado por Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados cassado poucos dias após a destituição da petista do cargo.
Para o então senador, o impeachment da única mulher que ocupou a cadeira de Presidente da República no Brasil abriu caminho para a ascensão do bolsonarismo e fortaleceu os partidos do Centrão, que passaram a concentrar ainda mais poder e capturar mais fatias do orçamento da União como moeda de troca em barganhas e chantagens políticas. “A história não mente: não foi impeachment, foi golpe. Há dez anos, houve um ataque à democracia que abriu uma fissura enorme e uma ruptura, trazendo retrocesso, retirada de direitos e a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Até hoje, a gente não conseguiu consertar e se recuperar do golpe. Passamos a conviver com uma extrema direita que propaga a violência, o ódio e a morte e não esconde sua intenção de acabar com a democracia e com a soberania brasileira”, analisa.
Lindbergh classificou o processo repetidas vezes como uma farsa jurídica, acusou as elites e a mídia de conivência e confrontou a oposição e o Centrão, argumentando que as acusações de pedaladas fiscais não configuravam crime de responsabilidade. “Aquilo foi uma farsa. Os crimes de responsabilidade apontados não ocorreram, foram pretextos jurídicos inventados com o único objetivo de tirar Dilma do poder porque ela não aceitou fazer parte do esquema de corrupção. Eu acuso as elites dominantes, a burguesia e a mídia de quererem dar um golpe de classe no Brasil”, disparou, sem papas na língua.
O parlamentar também sustentou que o movimento pelo impeachment foi uma manobra política articulada por cúpulas partidárias para abafar investigações de corrupção da Operação Lava Jato. Em seu último discurso na tribuna, em 31 de agosto de 2016, o parlamentar criticou com veemência os senadores que votaram a favor do impeachment. “Quem optou por cometer um crime contra uma presidenta inocente vai para a lata do lixo da história como partícipes de um golpe contra a democracia brasileira. Nós nunca esqueceremos essa data. O Senado Federal escolheu a infâmia e agora carrega essa desonra”, lembrou Lindbergh.

O parlamentar disse ainda que sente orgulho de ter sido um dos defensores de Dilma e concluiu com uma projeção dos próximos desafios que precisam ser enfrentados pelo campo progressista nas eleições de 2026. “O que fez a gente virar o jogo e eleger Lula em 2022 foi ter gente com coragem para remar contra essa maré de horror que tomou conta da política brasileira. Nunca vou abrir mão do que eu acredito. Se tem uma coisa de que eu tenho muito orgulho foi ter defendido Dilma naquele período tão difícil. A história mostrou que estávamos certos. O tempo provou a inocência de Dilma. Mas a luta contra o golpismo continua. Eles tentaram dar outro golpe no dia 8 de janeiro, mas não conseguiram. Nós temos que continuar firmes na luta para eleger Lula presidente novamente e proteger a democracia”, enfatizou Lindbergh, em referência aos atos golpistas que culminaram na invasão e na depredação da Praça dos Três Poderes, em Brasília, cometidos por apoiadores de Jair Bolsonaro (PL).
Em 2023, Lindbergh chegou a protocolar uma resolução em que pedia a devolução simbólica do mandato à Dilma. No mesmo ano, Dilma foi indicada por Lula para presidir o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o chamado “banco do Brics”, sediado na China, onde permanece até hoje.
Já Eduardo Cunha teve o mandato suspenso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentar interferir nas investigações e foi cassado em 12 de setembro, apenas 13 dias depois da votação final do impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Cunha ficou preso de outubro de 2016 a abril de 2021 e agora tenta ressuscitar a carreira política concorrendo a deputado federal por Minas Gerais. Na eleição de 2026, conta com o apoio explícito de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o filho mais velho de Jair Bolsonaro diz que Cunha é uma pessoa “que tem um papel importante na história do nosso Brasil”.





