CidadesDestaqueMeio Ambiente

Artigo: Manguezais de Maricá: uma agenda para pesquisas

Por Arthur Soffiati  –  https://revistacidade.home.blog/2025/08/22/manguezais-de-marica-uma-agenda-para-pesquisas/

 

Sempre fui atraída pelo mangue, de onde saíam os caranguejos e guaiamuns que serviam muito bem para matar nossa fome em horas de comida escassa. Sou do extrativismo de mariscos e crustáceos de todo tipo, do siri à unha-de-velho, do sururu ao aratu. Admiro desde menina o azulado dos guaiamuns, o sabor dessa iguaria cevada em nossa casa ou catada na natureza, nos buracos profundos que habitam, as tocas apertadas de onde só saem nas primeiras águas de inverno, nas trovoadas, quando, gordas, as fêmeas ficam vagando ao atá, providenciando a desovaMarilene Felinto (“Corsária” – 2025)

Ciências naturais e ciência sociais: história ambiental e manguezais

Na prática do dia a dia, a divisão entre ciências naturais e ciências sociais continua existindo. Não cabe mais espaço para ambos os domínios se isolarem de forma estancada. Havendo interpenetração e diálogo, elas podem e devem continuar sempre levando em conta que o conhecimento pode transitar entre ambas as esferas. Um conhecimento que se insere entre os dois campos é a história ambiental que concebe a natureza como sujeito. Foi o que Toynbee ensinou no final da vida. Em seu último livro, publicado na Inglaterra em 1976, um ano após a sua morte, ele escreve: “A população humana da biosfera está crescendo num ritmo acelerado, e esta população crescente está se concentrando em cidades gigantescas. Uma vez que a maioria da humanidade é ainda indigente, o crescimento das cidades toma principalmente a forma de uma proliferação de favelas habitadas por migrantes desempregados e talvez inaproveitáveis, vindos das áreas rurais nas quais a maior parte da humanidade viveu e trabalhou desde a invenção da agricultura no início da Idade Neolítica (…) A minoria que produz utilidades industriais ou comestíveis e matérias-primas orgânicas, por processos mecânicos muito poderosos e cada vez mais sofisticados, está poluindo a camada atmosférica e a água da biosfera com produtos residuais de suas atividades pacíficas, mesmo quando não desbasta a flora ou destrói a fauna (a humana e a não-humana com operações militares intencionalmente destrutivas)” (“A humanidade e a mãe Terra: uma história narrativa do mundo”. Rio de Janeiro: Zahar, 1978).

É o que Dipesh Chakrabarty ensina agora. Segundo ele, “o aquecimento global antropogênico traz à tona a colisão – ou o defrontar-se – de três histórias que, do ponto de vista da história humana, normalmente se supõe estarem funcionado em ritmos tão diferentes e distintos que, para todos os fins práticos, são tratadas como processos separados: a história do sistema Terra, a história da vida, incluindo a da evolução humana no planeta, e a história mais recente da civilização industrial (para muitos, o capitalismo) (“O global e o planetário: a história na era da crise climática”. São Paulo: Ubu; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2025).

Por essa perspectiva, a história ambiental promove a pesquisa e o entendimento entre as sociedades humanas e os ecossistemas não apenas pelo prisma das representações, mas pelas relações materiais. O manguezal é um ecossistema intertropical costeiro. Ele é encontrado, de preferência, em estuários, lagoas costeiras e praias calmas. O historiador ambiental não invade o campo das ciências naturais ao estudá-lo, embora necessite de conhecimento básico de ciências naturais, como fez Warren Dean com relação à Mata Atlântica (“A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira”. São Paulo: Companhia das Letras, 1996).

Foz do Canal da Costa na praia de Itaipuaçu. Foto do autor (agosto de 2025)

A fala do manguezal

No geral, o biólogo aborda o manguezal por sua produção primária, ciclagem de nutrientes e, mais recentemente, por sua grande capacidade de absorver gás carbônico. Por minha prática de historiador ambiental estudando os manguezais desde 1997, um simples exemplar de mangue de qualquer espécie interessa. Ele é indicador de que ali pode se desenvolver um manguezal. E, por menor que seja, ele propiciará um certo tipo de interação com humanos.

Também interessam ao historiador ambiental as anomalias que podem apresentar as plantas, assim como as alterações antrópicas do meio em que elas crescem. Para olhos e ouvidos treinados (além do tato, olfato e paladar), as intervenções no ambiente do manguezal, tanto quanto as anomalias que plantas e animais apresentam, podem falar sobre as relações das sociedades humanas como o ambiente.

Colonização do Canal da Costa. Foto do autor (agosto de 2025)

Meu encontro com o manguezal ocorreu em 1955, quando eu contava cinco anos de idade, na ilha do Mel, baía de Paranaguá. Fiquei impressionado com um exemplar de mangue vermelho (Rhizophora mangle). Interessei-me pelo ecossistema em 1980, agora para fins de estudo, mas só em 1997 debrucei-me mais demoradamente sobre este ecossistema entre os rios Itapemirim (ES) e São João (RJ). Logo a seguir, examinei, com olhar de historiador ambiental, os manguezais da Região dos Lagos fluminense. Esta região, como a entendo, estende-se do rio Macaé a Maricá. Os manguezais de estuário, na área por mim estudada, terminam no rio Una, em Búzios. Com algum esforço, na vala de Barrinha e de Porto da Barra ou no canal de maré da praia do Peró, ainda em Búzios.

Daí em diante, eles se alastram pelos grandes sistemas lagunares em que a alta salinidade da lagoa de Araruama vai diminuindo nos sistemas lagunares de Saquarema e Maricá.

Relações das classes sociais com os manguezais

O primeiro passo de um historiador ambiental que se dispõe a estudar as relações de grupos humanos com manguezais é verificar se existem pessoas que dependem deste ecossistema economicamente. Tradicionalmente, no Brasil, a coleta de moluscos, artrópodes e peixes no âmbito do manguezal é tarefa feminina, mas homens também podem ser encontrados nessa tarefa. A mariscagem depende das dimensões do manguezal. Um ou poucos exemplares de mangue não constituem ambiente para a vida de invertebrados em volume que sustente uma vida econômica. Mas podem propiciar frutos para autoconsumo. Em Barrinha, município de São Francisco de Itabapoana, não se pode encontrar um manguezal. Mas apenas algumas plantas estão associadas a uma atividade de subsistência.

Em Maricá, os manguezais ocorrem nas cinco lagoas do complexo lagunar e no Canal da Costa. Toda a Região dos Lagos formou-se com o avanço (transgressão) e retorno (regressão) do mar. As ilhas e as correntes oceânicas, a partir de 5.100 anos antes presente, permitiram a formação de restingas. A água do mar aprisionada formou lagoas. Pequenos rios, que antes desembocavam no mar, passaram a desembocar nessas lagoas. Poucos foram os canais naturais de comunicação das lagoas com o mar. Assim, com o aporte de água doce dos rios, a salinidade foi sendo reduzida. A exceção fica com a hipersalina lagoa de Araruama.

O sistema lagunar de Maricá comunica-se pelo canal artificial de Ponta Negra, que liga o sistema lagunar de Maricá ao mar na lagoa de Guarapina. Na outra ponta do sistema, foi aberto o longo canal da Costa, que corre paralelamente à linha praial, desaguando na praia de Itaipuaçu. Por ambos, as três espécies (das seis da costa brasileira) entraram por estes canais e alastraram-se pelas águas de média salinidade. Pode-se pensar que os manguezais se instalaram nos estuários dos pequenos rios antes que a restinga se constituísse. Como esses rios passaram a desaguar nas lagoas, os manguezais teriam se propagado por elas. Outra hipótese seria os propágulos das espécies terem entrado em aberturas temporárias de barra.

O manguezal também contribui muito para atividade pesqueira de maior porte. As folhas das árvores caem na água e se fragmentam, transformando-se em alimento para peixes e outros animais. Além disso, os manguezais são excelente ponto para reprodução e alimentação até que os indivíduos se tornem adultos. Mas nem sempre essa relação é percebida pelo pescador.

Bosque de mangue branco no sistema lagunar de Maricá. Foto do autor (junho de 2017)

Da classe média para cima, não há muito apreço pelos manguezais. Como elas não dependem do ecossistema para viver, o mangue passa a ser sinônimo de podridão e de mau cheiro. Nada de pôr os pés ou as mãos nesse ambiente. Sua lama se entranha na pele. Geralmente, o poder público tem essa posição. Daí, obras sobre manguezais representarem progresso, um progresso enganoso, ainda que tais obras sejam proibidas por lei.

O que não faltam são projetos de expansão urbana sobre manguezais na Região dos Lagos. Agora, paira sobre Maricá, o grande empreendimento da Maraey, que recorre a uma lenda indígena para se tornar atraente e vendável. Trata-se de um longo condomínio entre o mar e a lagoa de Maricá, usando como propaganda uma lenda guarani segundo a qual, no leste, onde nasce o sol, encontra-se a plena felicidade. O vídeo do empreendimento mostra jardins, árvores, belas casas, crianças felizes, adultos sorrindo. O empreendimento fala de missão: “essa terra sem mal”, agora na sua versão capitalista, vai se tornar uma terra sem bem, instalada numa faixa de areia sujeita às ondas do mar e à elevação do seu nível por ação das mudanças climáticas. É mais um dos grandes empreendimentos para ricos, privatizando uma enorme área que deveria continuar a ser pública. Uma vez permitida e instalada, quem está fora não entre, a menos que pague. Ela ameaça o ambiente natural do Maricá, tanto as lagoas quanto os manguezais.

O historiador ambiental talvez se distinga de outros historiadores por não se contentar com o estudo das relações dos grupos humanos com a natureza, mas também militar para proteger o ambiente que estuda.

Essa atitude está mudando muito lentamente. Até que se processe totalmente, se é que esse processo vai se concluir, muitas áreas de manguezal ainda devem ser sacrificadas. Um dos trabalhos do historiador ambiental, ao lado de outros estudiosos, é demonstrar para a sociedade e para o poder público a importância biológica, social e ambiental dos manguezais para a economia e para as mudanças climáticas.

Documentos

Contudo, os manguezais podem estar em lugares não apropriados para a sua vida. Eles podem ser encontrados em notícias e artigos de jornais. Nem sempre, no passado recente, a imprensa olhava para o manguezal com simpatia. Normalmente, eles figuravam nos jornais como áreas insalubres que deviam ser urbanizadas. Seu odor desagradável levava moradores de suas imediações a pleitear seu aterramento junto ao poder público. Os artigos assinados começaram com postura antipática a eles, passando a neutra e agora, até certo ponto, simpática. Os jornais oferecem a vantagem de permitir uma pesquisa serial.

Já a fotografia não tanto. É um documento eventual, geralmente voltado para outro assunto, como a série de fotos sobre uma estrada no Ceará em que o manguezal aparece. Contudo, podem existir fotos tiradas no passado por cientistas. Ajudam fotos que registram uma área de mangue antes de alguma obra, como algumas tiradas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento, órgão que considerava o manguezal como uma aberração da natureza.

O pesquisador pode se deparar com manguezais em títulos de posse e propriedade, em escrituras públicas e privadas.

Como pesquisador, gosto de ler poesia e ficção. Nelas, o manguezal pode aparecer, como acontece na literatura ambientada em Recife, principalmente, mas não apenas. Encontrei o manguezal em quadros pintados por moradores de sua periferia.

Enfim, o historiador deve estar atento a tudo, notadamente o historiador ambiental.

Mansões avançando sobre área de manguezal no sistema lagunar de Maricá. Foto do autor (junho de 2017)
  • Arthur Soffiati é historiador ambiental, professor e escritor com extensa obra acadêmica publicada
  • Imagem em destaque: Manguezal em Maricá/RJ

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo