O mundo continua distante das metas necessárias para conter o aquecimento global. Um relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alerta que, mesmo se os países cumprirem integralmente seus compromissos climáticos atuais, a temperatura média do planeta poderá chegar a 2,6°C acima dos níveis pré-industriais até 2100.
O documento, divulgado em 21 de outubro, mostra que as medidas anunciadas pelos governos ainda são insuficientes para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C, objetivo central do Acordo de Paris. Caso as políticas atualmente adotadas sejam mantidas, o aquecimento poderá alcançar 2,8°C até o fim do século.
Emissões precisam cair rapidamente
Segundo o relatório, para limitar o pico do aquecimento a aproximadamente 1,7°C ou 1,8°C e possibilitar o retorno ao patamar de 1,5°C até 2100, as emissões globais de gases de efeito estufa precisam ser reduzidas em:
- 18% até 2030;
- 45% até 2035;
- 69% até 2040.
Os percentuais têm como referência os níveis de emissões registrados em 2025.
O problema é que, mesmo com a implementação integral das novas metas climáticas nacionais, a redução projetada seria de apenas 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035. A diferença evidencia a distância entre os compromissos assumidos e as medidas necessárias para enfrentar a crise climática.
Emissões globais continuam elevadas
As emissões mundiais de gases de efeito estufa chegaram a uma estimativa de 58,4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2025. O volume ficou próximo ao registrado no ano anterior, mas a margem de incerteza dos cálculos impede afirmar que as emissões tenham atingido um pico definitivo.
As emissões provenientes da queima de carvão, petróleo e gás natural continuaram aumentando. Já a redução registrada no uso da terra, nas mudanças de ocupação do solo e nas florestas contribuiu para compensar parte do crescimento observado em outros setores.
O relatório destaca que a estabilização temporária do volume total de emissões não representa, necessariamente, uma mudança estrutural na economia mundial ou na dependência dos combustíveis fósseis.
Ultrapassar 1,5°C não significa abandonar a meta
O cenário mais otimista analisado pelo PNUMA admite que a temperatura global ultrapasse temporariamente o limite de 1,5°C, atingindo um pico entre 1,7°C e 1,8°C. Para que o planeta retorne ao patamar desejado até o fim do século, seria necessário reduzir drasticamente as emissões e retirar grandes quantidades de carbono da atmosfera.
A estimativa é de que cerca de 320 bilhões de toneladas de CO₂ precisariam ser removidas e armazenadas permanentemente ao longo deste século. A viabilidade dessa operação, porém, ainda envolve incertezas tecnológicas, econômicas e ambientais.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu a continuidade dos esforços internacionais para limitar o aquecimento e reduzir a duração e a intensidade da ultrapassagem da meta. A diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, também alertou que cada fração adicional de grau aumenta os riscos de eventos climáticos extremos e de mudanças irreversíveis em sistemas naturais.
Brasil também enfrenta desafios
O Brasil estabeleceu o compromisso de reduzir suas emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, tomando como referência os níveis de 2005.
Apesar da meta, o relatório aponta diferenças entre os compromissos nacionais e as projeções baseadas nas políticas atualmente implementadas. O documento ressalta que a distância entre as metas anunciadas e os resultados efetivos continua sendo um desafio para os países.
O G20, grupo que reúne as maiores economias do mundo, responde por aproximadamente 76% das emissões globais. Em 2025, as emissões dos integrantes do grupo, excluídas as relacionadas ao uso da terra, aumentaram 0,7%.
Impactos podem se intensificar
O aquecimento global amplia os riscos de ondas de calor, incêndios florestais, inundações e outros eventos extremos, além de ameaçar ecossistemas e agravar desigualdades sociais. As populações mais vulneráveis tendem a sofrer os impactos com maior intensidade, apesar de frequentemente contribuírem menos para as emissões responsáveis pela mudança do clima.
O relatório conclui que ainda existem oportunidades para acelerar a transição energética, ampliar o uso de fontes renováveis, melhorar a eficiência energética e reduzir o desmatamento. Para isso, porém, será necessário transformar os compromissos climáticos em políticas concretas e cortes rápidos e contínuos nas emissões.





