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Voz da memória quilombola buziana

Valmir da Rasa detalha bastidores da emancipação de Armação dos Búzios

A história de Armação dos Búzios, na Região dos Lagos, se entrelaça diretamente com a trajetória de suas famílias mais antigas e com as lutas de grandes líderes comunitários. Em entrevista marcante ao podcast Expressão do Povo no YouTube (@expressaodopovocf), Valmir da Conceição de Oliveira, mais conhecido como Valmir da Rasa, resgatou episódios marcantes sobre a emancipação política do município e destacou a importância da preservação das raízes quilombolas para o desenvolvimento social e cultural da região.

Filho de Dona Elvam, que faleceu no ano passado aos 114 anos de idade e viveu a escravidão até os sete anos, Valmir carrega no sangue o orgulho da ancestralidade vinda de Angola. A família Oliveira figura como a maior do município, com raízes fincadas no território desde os tempos em que navios negreiros desembarcavam na Ponta do Pai Vitório e na Praia dos Ossos. Essa bagagem histórica e o aprendizado transmitido por sua mãe moldaram uma vida dedicada à liderança e ao serviço público.

OS BASTIDORES DA EMANCIPAÇÃO

Primeiro secretário da Comissão de Emancipação de Búzios, Valmir recordou com detalhes as dificuldades enfrentadas na caminhada para desvincular a cidade do município de Cabo Frio. Na primeira tentativa plebiscitária, que envolvia a união de territórios com Tamoios, a falta de quórum por uma margem de 280 votos inviabilizou o resultado. Valmir lembrou que, no dia do plebiscito, metade dos ministros do Supremo esteve presente na cidade para observar o processo, hospedados na casa da saudosa Maria Helena Tedesco, fundadora e proprietária da imobiliária Aliança. Segundo ele, discursos contrários assustaram parte dos moradores do segundo distrito e a chuva intensa afastou os eleitores das urnas.

“Na época, Ivo Saldanha, prefeito de Cabo Frio, era contrário ao processo de emancipação de Búzios. Ele trabalhou especialmente no Segundo Distrito. Lá, ele falava para todos moradores: ‘Se vocês votarem no processo de emancipação de Búzios, os ricos de búzios vão tomar a terra de vocês’. Isso ficou gravado na cabeça do povo. Quando chegou o processo de emancipação, no dia do plebiscito, chovia, era uma chuvarada imensa e as pessoas não saíram de casa para votar”, relatou.

Diante do revés e após o Superior Tribunal Eleitoral rejeitar o recurso em Brasília, Valmir vislumbrou uma estratégia decisiva para não deixar morrer o sonho da autonomia buziana. Ele relata que decidiu permanecer no Rio de Janeiro enquanto parte da comitiva seguia para Brasília, com o objetivo de apresentar um novo processo específico para Búzios.

Ao recordar o episódio, explicou por que optou por não acompanhar os demais integrantes do movimento ao ligar para o deputado Rubens Medina: “Se Búzios perder, eu quero estar no Rio de Janeiro para entrar com um novo processo de emancipação só de Búzios”. Com o apoio logístico da equipe de Medina no Rio, que o hospedou próximo ao Tribunal Regional Eleitoral, ele protocolou a nova ação munido de uma caixa de papelão repleta de documentos.

Na avaliação dele, a iniciativa ajudou a impedir que a discussão fosse encerrada e evitou que a prefeitura de Cabo Frio transferisse sua sede administrativa para o território buziano, o que teria inviabilizado para sempre novas tentativas de separação. O ato tornou a disputa uma questão judicial decidida posteriormente pelo Governo do Estado, na gestão de Marcelo Alencar, e pela Assembleia Legislativa com a atuação de deputados como Paulo Mello e Alain Corrêa.

Na visão de Valmir, a separação trouxe benefícios expressivos para a população local. “Foi muito propício para nós no terceiro distrito ter a nossa própria emancipação e caminhar com os nossos próprios pés”, enfatizou.

A emancipação foi formalizada em 1995, e a instalação do município ocorreu em 1997. A história contada por Valmir ajuda a compreender os bastidores dessa transformação e a participação das lideranças locais na construção da autonomia municipal.

Essa conquista ganha outro significado quando relacionada ao aniversário de Armação dos Búzios, celebrado oficialmente em 12 de novembro. A data convida a olhar para além dos cartões-postais e recordar as pessoas, os movimentos sociais e as comunidades que participaram da formação do município.

Para Valmir, a autonomia municipal permitiu transformações profundas na área social e na saúde pública. O município estruturou hospital próprio que atende toda a região, rede de policlínicas, além de avançar no calçamento de ruas e na oferta de transporte alternativo com a criação da Cooperbúzios. Ele também ressalta que o desenvolvimento municipal aconteceu ao longo de diferentes administrações e prefeitos ao longo desses trinta anos.

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CONQUISTAS PARA AS COMUNIDADES E A VALORIZAÇÃO QUILOMBOLA

A preservação da identidade quilombola ganhou força institucional com a organização das associações e a chegada de recursos específicos do Ministério Público Federal e de órgãos governamentais. As comunidades locais conquistaram avanços na saúde com programas de prevenção voltados para doenças de incidência genética na população negra e programas de alimentação escolar diferenciada nas mais de dez escolas quilombolas da cidade.

Essa estrutura educacional e de incentivo já colhe frutos concretos nas novas gerações. Jovens locais oriundos do Quilombo da Rasa cursam faculdades de Medicina, Direito e licenciaturas, ocupando espaços de destaque na sociedade e no mercado de trabalho.

Ao falar sobre suas origens, Valmir detalhou que sua família chegou a Búzios durante o período da escravidão, passando por pontos como a Ponta do Pai Vitório, a Praia dos Ossos e a antiga Fazenda Campos Novos, onde suas avós Bibiana e Antunina serviram aos senhores locais. Ele reforça o orgulho de carregar a memória transmitida por sua mãe, que viveu a escravidão até os sete anos.

“Tive o privilégio de ouvir toda aquela história que minha mãe contava e passei a pesquisar isso”, disse Valmir, explicando que começou a investigar a origem das famílias negras da Rasa após assumir o mandato de vereador em 1996.

O processo também envolveu outras lideranças, entre elas sua irmã, Uia, e moradores que contribuíram para recuperar histórias transmitidas oralmente. A Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Rasa foi criada em 2003, com o objetivo de lutar pelo reconhecimento e pela regularização do território tradicional.

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POLÍTICAS PÚBLICAS

Outro tema abordado na entrevista é a importância das políticas públicas voltadas às comunidades quilombolas. Valmir afirma que o reconhecimento da ancestralidade permite desenvolver ações específicas nas áreas de saúde e educação, além de contribuir para que as novas gerações conheçam a história de suas famílias.

“A gente ainda tem algumas dificuldades”, reconhece o ex-vereador ao falar dos desafios enfrentados pelas comunidades do entorno.

Valmir relaciona parte desses problemas ao crescimento populacional e à chegada de novos moradores em busca de trabalho, segurança e acesso a serviços públicos. Ele afirma que há iniciativas de organização em andamento e menciona a participação de órgãos públicos e representantes quilombolas na discussão de soluções.

A situação territorial também faz parte desse debate. O reconhecimento de uma comunidade quilombola não se limita à identificação de sua ancestralidade: envolve a proteção de sua história, de seus modos de vida e dos direitos territoriais previstos na legislação. Pesquisas sobre a Rasa apontam que a regularização fundiária permanece como uma questão complexa para os moradores.

Por isso, a preservação da memória quilombola tem relação direta com o futuro de Búzios. Não se trata apenas de recordar o passado, mas de garantir que as novas gerações tenham acesso à própria história e que as comunidades tradicionais sejam consideradas no planejamento da cidade.

FUTURO POLÍTICO

Mesmo após décadas de atuação e com o sentimento de dever cumprido, a ligação de Valmir da Rasa com a vida pública permanece vibrante. Atento aos pedidos frequentes dos moradores que relembram suas passagens pelo legislativo municipal, o líder comunitário deixa aberta a possibilidade de retorno às urnas no futuro para dar continuidade aos projetos de desenvolvimento social.

“O político nunca se aposenta, ele não se define por si próprio, pois é o povo que dirige aquele lugar”, declarou ao relatar que recebe dezenas de ligações diárias de moradores pedindo seu retorno à câmara municipal. “E aí passa pela cabeça aquele sentimento de fazer, de construir e reconstruir algo que ainda falta na nossa cidade”, revelou Valmir, confirmando que tudo indica sua volta às disputas eleitorais.

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