Mas até o mais otimista deve ter se surpreendido positivamente. John não parecia estar longe de seu ofício. Cantou bem, dentro das limitações naturais da idade, e tocou como ninguém — ou melhor, como Elton John. O solo executado nos minutos finais de “Rocket Man” mostram a plenitude de sua habilidade no piano. Levantou-se pouco no palco, é verdade, mas quem liga? Sempre que se virava à plateia, era ovacionado.
Sua banda é um espetáculo à parte. Nigel Olsson, 77 anos, é membro original da Elton John Band e não vacila em uma batida sequer. Davey Johnstone, seu guitarrista desde 1971, é um dos mais subestimados no instrumento em toda a história do rock — e faz valer este título no solo espetacular de “Have Mercy on the Criminal”. Ray Cooper, presente a partir de 1973, é monstruoso na percussão.
Em relação ao setlist, houve algumas escolhas curiosas. A primeira delas veio logo no começo, com a decisão de abrir com a progressiva e encantadora “Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding”. “Bennie and the Jets”, na sequência, evidenciou como Elton é um senhor músico: ao adaptar a canção para seu vocal mais grave, tornou-a ainda melhor. “The One”, quinta da noite, não aparecia em shows de turnê desde 2017. E, claro, “Skyline Pigeon” surgiu próxima do fim. “Essa música só é popular no Brasil”, observou o artista, destacando que nunca a toca em outro país. É o nosso presentinho.
De resto, uma chuva de hits. A catártica “Tiny Dancer”, a bela “Sacrifice”, a poderosa “Rocket Man”, a linda “Candle in the Wind” (com imagens de Marilyn Monroe, inspiradora da composição, no telão), a agitada sequência com “Crocodile Rock”, “Saturday Night’s Alright for Fighting”, “I’m Still Standing” e “Cold Heart”, esta última com vídeo — mas não áudio — de Dua Lipa, o encerramento maravilhoso com “Your Song”. São tantos sucessos que, mesmo em um set de 23 músicas e 2h15 de duração (30 minutos a mais que o previsto), alguém pode reclamar das ausências de, por exemplo, “The Bitch is Back”, “Daniel” ou “Nikita”.
Mas só dá pra reclamar disso. E mais nada. Elton escolheu estar conosco. Não precisava. Não havia obrigação. A essa altura, sequer existe qualquer ambição relacionada a este show: cachê, objetivos artísticos… nada. Ele quis estar aqui. Pela última vez? Sei lá. Nem importa. Importa é que foi lindo.
SETLIST: Elton John — Rock in Rio 2026
1 Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding
2 Bennie and the Jets
3 I Guess That’s Why They Call It the Blues
4 Philadelphia Freedom
5 The One
6 Tiny Dancer
7 Sacrifice
8 Honky Cat
9 Rocket Man
10 Levon
11 Sorry Seems to Be the Hardest Word
12 Someone Saved My Life Tonight
13 Have Mercy on the Criminal
14 Candle in the Wind
15 Goodbye Yellow Brick Road
16 Sad Songs (Say So Much)
17 Don’t Let the Sun Go Down on Me
18 Crocodile Rock
19 Saturday Night’s Alright for Fighting
20 I’m Still Standing
21 Cold Heart
22 Skyline Pigeon
23 Your Song