Música

RUBBER SOUL: O ÁLBUM QUE MARCOU A VIRADA DOS BEATLES

GRAVADO EM QUATRO SEMANAS PARA O NATAL DE 1965, O DISCO ABRIU UMA NOVA FASE PARA O QUARTETO E PARA O PRÓPRIO ROCK

A notícia não é novidade: o álbum Rubber Soul, dos Beatles, ganhará uma edição especial em 2 de outubro, com novas mixagens em estéreo e Dolby Atmos, a versão original em mono, o lançamento norte-americano da Capitol, gravações de estúdio, demos caseiras e até “Little Girl”, um esboço de canção de John Lennon que permaneceu inédito por décadas.

Mas, afinal, por que Rubber Soul é apontado como um dos momentos mais importantes da trajetória do quarteto? O que aconteceu naquele período para que os Beatles deixassem de enxergar um álbum apenas como uma coleção de músicas e passassem a concebê-lo como uma obra completa, com identidade artística própria? É justamente essa transformação que explica por que o disco continua sendo considerado um divisor de águas na história da banda e do rock.

Quatro semanas para mudar a rota

Quando os Beatles retornaram aos estúdios da EMI, em Londres, em meados de outubro de 1965, o relógio já estava correndo. A banda vinha de uma temporada norte-americana marcada pelo histórico show no Shea Stadium e precisava entregar um álbum para o mercado de Natal. Rubber Soul foi gravado em apenas quatro semanas e lançado em 3 de dezembro, duas semanas depois das últimas mixagens. Das mesmas sessões também saíram “Day Tripper” e “We Can Work It Out”, lançadas como o primeiro compacto de duplo lado A do grupo.

A pressão era ainda maior porque poucas composições estavam finalizadas. Segundo relatos, sete músicas foram escritas durante a última semana de trabalho. Em vez de produzir um disco automático para cumprir calendário, porém, o quarteto respondeu com um salto criativo.

As letras começaram a abandonar a simplicidade romântica que havia sustentado boa parte da Beatlemania. “In My Life” olhava para a memória e para a passagem do tempo; “Nowhere Man” mergulhava no isolamento e na falta de direção; “Norwegian Wood” apresentava uma narrativa adulta, ambígua e carregada de ironia.

Bob Dylan havia ampliado a percepção do grupo sobre o que uma letra pop poderia dizer. Ao mesmo tempo, os próprios Beatles reconheceriam que o contato com novas substâncias influenciou aquele período de experimentação criativa, embora o amadurecimento dos músicos também refletisse a experiência adquirida, o impacto da fama e o crescente desejo de assumir maior controle sobre o próprio trabalho artístico.

O estúdio vira laboratório

A transformação também podia ser ouvida. Em “Norwegian Wood”, George Harrison utilizou o sitar, abrindo uma porta bastante visível para os timbres da música indiana dentro do rock ocidental. Não era apenas um enfeite exótico: o instrumento passou a ocupar uma função central no arranjo.

Em “In My Life”, o produtor George Martin gravou o solo de piano com a fita rodando em velocidade reduzida e tocou a parte uma oitava abaixo. Quando a gravação voltou à velocidade normal, o instrumento ganhou um som rápido e brilhante, próximo ao de um cravo. O estúdio começava a deixar de ser uma simples fotografia do que a banda tocava para funcionar como uma caixa de tintas sonoras.

Até a capa anunciou que alguma coisa havia mudado. A fotografia de Robert Freeman ficou alongada por acidente enquanto era projetada para o grupo. Os Beatles gostaram do efeito e decidiram mantê-lo. Confiantes de que já eram reconhecidos apenas pelos rostos, também dispensaram o nome da banda na frente do álbum. Já o título, segundo Paul McCartney, nasceu como uma brincadeira com a maneira como músicos britânicos falavam sobre produzir música “com soul”.

Por que Rubber Soul virou um divisor de águas

Crédito da imagem: Reprodução/Apple Corps Ltd/The Beatles

O impacto de Rubber Soul não pode ser atribuído a uma única inovação. Ele está na combinação de 14 composições originais, letras mais introspectivas, novos instrumentos, técnicas de gravação inéditas e uma identidade artística coesa. O álbum ajudou a consolidar a ideia de que um disco pop poderia ser uma obra completa, concebida do início ao fim, e não apenas uma reunião de sucessos acompanhados por faixas de preenchimento.

A repercussão atravessou rapidamente o Atlântico e influenciou diretamente Brian Wilson, dos Beach Boys, na criação de Pet Sounds (1966). Anos mais tarde, John Lennon e Paul McCartney reconheceriam que a obra de Wilson, por sua vez, serviu de inspiração durante a concepção de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Assim nasceu um dos diálogos criativos mais importantes da história da música popular, em que cada novo álbum elevava o nível artístico do outro.

A edição especial de Rubber Soul permitirá acompanhar essa transformação em tempo real. O lançamento reúne 24 gravações iniciais, 20 tomadas inéditas, três demos caseiras e a até então desconhecida “Little Girl”, um esboço de John Lennon que permaneceu guardado por décadas.

O relançamento oferece um raro retrato do momento em que os Beatles deixaram de ser apenas a maior banda pop do planeta para redefinir o conceito de álbum na música moderna. Para fãs e colecionadores, trata-se de um lançamento praticamente irresistível.

Ouça, a seguir, a primeira amostra das raridades da era Rubber Soul. Os Beatles divulgaram o visualiser de “Michelle” (Take 1), uma das gravações presentes na nova edição especial do álbum.

 

Fonte https://www.antena1.com.br/noticias/rubber-soul-o-album-que-marcou-a-virada-dos-beatles

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