Depois de ser devastada por sucessivas enchentes, a cidade de Muçum, no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, adotou uma medida inédita para reduzir os riscos de novos desastres: proibiu a reconstrução de imóveis nas áreas mais atingidas pelas cheias.
O município enfrentou três grandes enchentes em menos de um ano, entre setembro e novembro de 2023 e maio de 2024. A última foi a mais severa, durante a maior tragédia climática da história do estado, deixando cerca de 80% da área urbana submersa.
A força das águas condenou 350 edificações, destruiu parte da infraestrutura da cidade, arrastou trechos de rodovias e danificou até o cemitério municipal, que possuía cerca de 3 mil jazigos. No auge da enchente, o Rio Taquari atingiu 26 metros, o maior nível já registrado.
Área será transformada em parque
Após o desastre, a prefeitura decidiu impedir novas construções na região mais vulnerável às inundações. No local será implantado um parque ecológico com aproximadamente 200 mil metros quadrados, composto por áreas verdes e solo permeável para minimizar os impactos de futuras cheias.
Segundo o prefeito Amarildo Baldasso (PSD), a prioridade é retirar definitivamente as famílias das áreas de risco e evitar que novas tragédias se repitam.
Todas as construções da área já foram demolidas, restando apenas um prédio de quatro andares que também será removido. As famílias afetadas aguardam a entrega de moradias em locais considerados seguros.
Alguns moradores já foram reassentados em conjuntos habitacionais construídos longe das margens do Rio Taquari. Empresas também receberam incentivos para transferir suas atividades para áreas menos vulneráveis.
A iniciativa de Muçum já inspira outros municípios do Vale do Taquari. Pelo menos seis cidades estudam adotar legislação semelhante para impedir reconstruções em regiões atingidas por enchentes.
Brasil ainda investe mais em reconstrução
Apesar do exemplo gaúcho, especialistas apontam que o Brasil ainda concentra a maior parte dos recursos públicos na recuperação de áreas afetadas, em vez da prevenção.
Dados do Tribunal de Contas da União (TCU) mostram que, entre 2012 e 2026, o país destinou R$ 34,36 bilhões para ações de resposta e reconstrução após desastres naturais, enquanto os investimentos em prevenção somaram R$ 9,62 bilhões.
Para o auditor do TCU, Fábio Augusto de Amorim, o planejamento preventivo exige políticas públicas permanentes e investimentos de médio e longo prazo, diferentemente das ações emergenciais adotadas após as tragédias.
Mudanças climáticas ampliam os riscos
Especialistas afirmam que a adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos é cada vez mais necessária diante do aumento da frequência e da intensidade de enchentes e deslizamentos.
O climatologista Carlos Nobre destaca que milhões de brasileiros ainda vivem em áreas suscetíveis a esses desastres, enquanto o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) estima que mais de 10 milhões de pessoas residam em locais de risco.
Segundo a diretora do Cemaden, Regina Alvalá, estados, municípios e União precisam investir em planejamento urbano, prevenção e adaptação para enfrentar os efeitos de um planeta cada vez mais aquecido.
Petrópolis enfrenta desafio semelhante
Enquanto Muçum optou por retirar moradores das áreas vulneráveis, Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, enfrenta um cenário mais complexo devido às características geográficas e ao processo histórico de ocupação do município.
Nos últimos 15 anos, a cidade registrou 430 mortes provocadas por enchentes e deslizamentos, além de mais de 28 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas. Mesmo assim, cerca de 72 mil moradores — aproximadamente um quarto da população — ainda vivem em áreas consideradas de risco.
Especialistas defendem que experiências como a de Muçum podem servir de referência para outras cidades brasileiras, reforçando a necessidade de priorizar políticas de prevenção diante do avanço das mudanças climáticas.





