Mensagens e áudios obtidos pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) revelam como empresários e operadores financeiros investigados por ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) recorriam à facção para solucionar conflitos, negociar pagamentos a policiais e movimentar dinheiro de origem ilícita.
As conversas fazem parte da investigação que embasou a Operação Janus, deflagrada na terça-feira (21), contra uma organização suspeita de atuar como estrutura financeira do PCC. Ao todo, 13 pessoas foram presas, e a Justiça expediu 18 mandados de prisão preventiva, 18 de busca e apreensão, além de determinar o bloqueio de até R$ 10 milhões em bens e contas dos investigados.
“Tribunal do crime”
Segundo o MP, a investigação começou após uma disputa envolvendo um imóvel na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista. Em vez de recorrer à Justiça, os envolvidos teriam acionado o chamado “tribunal do crime” do PCC para resolver um impasse de R$ 2 milhões.
Em uma das mensagens interceptadas, um dos investigados afirma que “quem vai conduzir vai ser o comando”, indicando que a decisão caberia à facção. Em outro áudio, um empresário pede formalmente a intervenção dos integrantes da organização para solucionar o conflito.
Os promotores também destacam conversas nas quais um dos suspeitos sugere manter envolvidos em cativeiro, evidenciando o uso de intimidação e violência para resolver disputas.
Suspeita de propina a policiais
A investigação também reúne diálogos em que investigados pedem dinheiro para supostos pagamentos de propina a policiais.
Em uma das mensagens, um dos suspeitos solicita R$ 50 mil para “mandar pra polícia”. Em outra conversa, há referência a valores destinados a unidades policiais e a uma seccional. Os promotores afirmam que os registros reforçam indícios de corrupção de agentes públicos para proteger as atividades do grupo.
Também foi apreendido um áudio em que um investigado pede R$ 100 mil em espécie para um cliente que, segundo ele, precisaria “pagar os polícia do Deic”.
Até o momento, os policiais citados nas conversas não são investigados nem foram denunciados na Operação Janus.
Lavagem de dinheiro
De acordo com o Ministério Público, o grupo mantinha uma estrutura sofisticada de lavagem de dinheiro, oferecendo serviços para ocultar recursos provenientes de diversas atividades ilícitas, incluindo o tráfico de drogas.
As investigações apontam que os suspeitos movimentavam grandes quantias em dinheiro vivo e utilizavam contas bancárias, criptomoedas e empresas para dar aparência de legalidade aos valores.
A representação do Gaeco também cita a atuação da contadora Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto Youssef. Segundo o MP, ela teria orientado investigados sobre declarações fiscais e auxiliado na ocultação de patrimônio. A defesa dos envolvidos não havia se manifestado até a publicação da investigação.
Relação com oficiais da PM
O Ministério Público afirma ainda ter identificado contatos entre integrantes do grupo e oficiais da Polícia Militar. Um coronel aparece em um grupo de WhatsApp com investigados e, segundo os promotores, também teria enviado mensagens se colocando à disposição para auxiliar o grupo e intermediar contatos com outras autoridades.
Apesar das citações em mensagens, áudios e planilhas apreendidas, os policiais mencionados não são alvos da Operação Janus e não respondem, até o momento, a acusações formais no caso.





