
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) determinou na terça-feira (12) o arquivamento do processo da Lava Jato que envolvia o ex-deputado estadual Paulo Melo. A decisão atende a um pedido do próprio Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que reconheceu a falta de provas suficientes para sustentar as acusações de corrupção e organização criminosa.
A decisão também beneficiou o ex-deputado Edson Albertassi. Os dois foram alvos da Operação Cadeia Velha, em 2017, que investigou um esquema de propina envolvendo empresários de ônibus e deputados da Alerj. O ex-presidente da Assembleia, Jorge Picciani, que também era réu no caso, morreu em 2021.
A defesa de Paulo Melo sempre sustentou a nulidade das provas colhidas, argumento que ganhou força após decisões de instâncias superiores que apontaram falhas rituais e cerceamento de defesa em etapas anteriores do processo. Com a sentença atual, Melo se livra de um dos principais entraves jurídicos que marcaram sua trajetória nos últimos anos, quando enfrentou prisões e condenações que acabaram anuladas.
ARQUIVAMENTO ENCERRA CICLO DE INJUSTIÇAS, DIZ MELO
Em vídeo publicado recentemente em suas redes sociais, o ex-parlamentar detalhou seu sentimento sobre o desfecho do caso. Em tom de desabafo e alívio, o político, que presidiu a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), compartilhou um vídeo onde detalha o longo percurso jurídico e pessoal enfrentado. “Lá atrás, em 2017, fui citado na Operação Cadeia Velha, um desdobramento que investigava suspeitas envolvendo decisões da Assembleia Legislativa com o setor de transporte. Desde o início eu afirmei categoricamente que não haviam provas contra mim. E o tempo? Ah, o tempo, senhor de tudo, confirmou isso. O processo foi arquivado por falta de provas e provas imprestáveis. E isso não é detalhe. É um reconhecimento do órgão acusador de que não havia provas boas para sustentar as acusações e, mais do que isso, o processo foi encerrado de forma definitiva na esfera estadual. Sem provas válidas, sem uma base mínima de comprovação. Não existe sequer a possibilidade de continuidade da ação penal”, afirmou.
O político lembrou o impacto do processo em sua vida pessoal e familiar, mencionando a exposição e o que chamou de julgamentos precipitados de falsos moralistas. Melo enfatizou que, durante todo o período, manteve a postura firme. “Você lembra que, desde o primeiro momento, eu mantive a cabeça erguida. Não me curvei, nunca me escondi, não fugi de dar explicações. Pelo contrário, enfrentei tudo, cada etapa, de cabeça erguida, confiando na justiça e lutando todos os dias. Eu lutei para comprovar a minha inocência. Foram dias difíceis, não só para mim, mas anos difíceis para a minha família”.
Ao finalizar o pronunciamento, Paulo Melo projetou seu futuro na vida pública. “Essa decisão não apaga o que eu sofri e o que eu vivi. Mas reafirma aquilo que eu nunca deixei de dizer: a verdade iria prevalecer. Sigo em frente com a consciência tranquila, ainda mais forte e com a mesma vontade de trabalhar pelo povo”, pontuou.
FUTURO POLÍTICO
Livre das amarras jurídicas, o cenário político para o ex-deputado ganhou novos contornos recentemente com sua troca de legenda. Paulo Melo oficializou sua saída do MDB para se filiar ao União Progressista, (junção de União Brasil e PP). A movimentação estratégica visa fortalecer sua musculatura política para as próximas disputas eleitorais, contando com o apoio de lideranças estaduais que veem em sua experiência na Alerj um diferencial para a legenda. A troca de partido é interpretada como um recomeço e uma tentativa de consolidar uma candidatura competitiva.
Nas redes sociais, ao anunciar a mudança de partido, o político destacou o sentimento de recomeço: “Nem toda despedida é triste. Nesse caso é um momento de renovação, um recomeço que prova que, apesar de tanta experiência política, ainda tenho muito a contribuir”.
Ele também agradeceu ao MDB e demonstrou entusiasmo com a nova fase.“Me despeço do meu querido MDB, parte fundamental da minha vida, com o coração cheio de agradecimento e chego ao União Brasil repleto de vontade e garra para iniciar uma nova caminhada. Que venham novos desafios, estou pronto”.
LEGADO E PROTAGONISMO NA REGIÃO DOS LAGOS
Natural de Saquarema, Paulo Melo construiu uma base política sólida na Região dos Lagos ao longo de sete mandatos consecutivos. Durante o período em que presidiu a Alerj, entre 2011 e 2015, o parlamentar articulou investimentos significativos para a infraestrutura regional. Entre os principais marcos de sua atuação legislativa está a implementação do Bilhete Único Intermunicipal, que beneficiou milhares de moradores da Região Metropolitana. Também esteve envolvido na criação da Universidade Estadual da Zona Oeste (UEZO), ampliando o acesso ao ensino superior gratuito, e na estruturação da Defensoria Pública do estado.
Outro destaque foi a presidência da CPI do Propinoduto, em 2003, que investigou um esquema de corrupção na Secretaria de Fazenda e contribuiu para a recuperação de cerca de R$ 500 milhões aos cofres públicos.
Ao longo da carreira, Paulo Melo é autor de mais de 150 leis com impacto direto na população fluminense. Entre elas, medidas como o parcelamento de dívidas com a Cedae, a proibição da cobrança de consumação mínima em casas noturnas e a isenção de taxas para renovação da carteira de habilitação para idosos.
O legado do ex-deputado também é lembrado por lideranças locais pela descentralização de serviços públicos. Melo foi um dos principais entusiastas da instalação de unidades de saúde e de ensino técnico na região, argumentando que a população precisava de autonomia em relação à capital. No auge de sua influência, ele atuava como uma ponte direta entre os prefeitos da Região dos Lagos e o Palácio Guanabara, garantindo que demandas históricas fossem incluídas no orçamento estadual.
Com a reabilitação jurídica e a nova filiação partidária, a possibilidade de uma candidatura para este ano torna-se o foco central de sua agenda. A viabilização da disputa ainda passa por consultas técnicas à Justiça Eleitoral sobre eventuais prazos remanescentes, mas o arquivamento do processo da Lava Jato remove o maior obstáculo simbólico e legal. Aliados próximos afirmam que o desejo de retornar ao Legislativo ou de influenciar diretamente a disputa em sua base eleitoral em Saquarema é o motor deste novo momento na vida pública de Paulo Melo.




