Política

Eleição na Alerj: deputados denunciam pressão e ameaças por votos em Douglas Ruas

Parlamentares relatam ameaças de perda de verba, apoio político e legenda para garantir vitória do governista.

A eleição que levou o deputado estadual Douglas Ruas (PL) à presidência da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), posteriormente anulada pela Justiça, foi marcada por um forte clima de pressão política nos bastidores. Parlamentares relatam que caciques de partidos da base governista intensificaram, nas horas que antecederam a votação, uma ofensiva sobre deputados e prefeitos para assegurar apoio ao candidato.

Segundo esses relatos, a atuação de lideranças do PL e da Federação União Progressista extrapolou o tradicional alinhamento partidário e incluiu ameaças diretas de retaliação política e administrativa a quem resistisse à orientação.

“Ordem unida” e risco eleitoral

A pressão, de acordo com deputados, não é novidade, mas ganhou contornos mais duros na disputa pelo comando da Casa. Há semanas, dirigentes partidários vinham reforçando a chamada “ordem unida”, com recados claros aos parlamentares: votos contrários poderiam custar caro no futuro político.

Entre as ameaças relatadas estão a perda de recursos de campanha, redução de tempo de televisão e, em situações mais extremas, até a negativa de legenda para a reeleição. O objetivo era evitar dissidências em uma votação considerada estratégica para o Palácio Guanabara.

Prefeitos entram no circuito

Na reta final da votação, a pressão teria subido de nível. Deputados afirmam que lideranças partidárias passaram a acionar prefeitos aliados, exigindo que estes convencessem seus apadrinhados na Alerj a votar em Douglas Ruas.

O recado, segundo relatos, foi direto: prefeitos que não colaborassem poderiam sofrer isolamento político e dificuldades para obter recursos estaduais para suas cidades.

A ameaça de corte de verbas, especialmente nas áreas de saúde, manutenção e custeio, foi mencionada como instrumento de coerção. Na prática, dizem parlamentares, criou-se um efeito cascata de pressão, que saiu do topo das legendas e chegou às bases municipais.

Voto justificado pela dependência de recursos

No plenário, alguns deputados deixaram transparecer o peso desse cenário. Foi o caso de Vinícius Cozzolino, do União Brasil, mas em negociação para ir para o PSD do ex-prefeito e pré-candidato ao governo estadual, Eduardo Paes, que votou a favor de Douglas Ruas e justificou sua posição com base na necessidade de manter o fluxo de investimentos estaduais em seu reduto eleitoral.

“O município de Magé precisa continuar contando com a ajuda do governo do estado, na saúde e nas obras. A função do deputado estadual é levar recursos para o seu município”, afirmou, ao destacar alinhamento com a prefeitura local.

A declaração foi interpretada por colegas como um indicativo de que a dependência financeira dos municípios em relação ao estado foi utilizada como elemento de pressão indireta.

Denúncia explícita de coação

A denúncia mais contundente veio do deputado Vítor Júnior (PDT), que, em entrevista coletiva após a votação, classificou o episódio como grave. Segundo ele, prefeitos foram coagidos a pressionar deputados sob ameaça de perda de repasses orçamentários.

“A gente observou que vários deputados foram pressionados por prefeitos, que foram ameaçados com o corte de recursos na saúde, manutenção e custeio. Esses prefeitos foram obrigados a pressionar parlamentares para apoiar o nome apresentado”, disse.

Racha e possível debandada

O episódio deve aprofundar fissuras dentro de partidos da base. De acordo com cálculos da oposição, ao menos cinco deputados avaliam deixar suas legendas em reação à pressão exercida nas últimas semanas.

A movimentação pode redesenhar o equilíbrio de forças na Alerj, especialmente em um momento de instabilidade institucional após a anulação da eleição.

Presença simbólica no plenário

Durante a votação, a presença de lideranças políticas também chamou atenção. O prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, recém-alçado ao comando do União Brasil no estado e pré-candidato ao Senado na chapa de Ruas, acompanhou a sessão de perto.

Para deputados, sua atuação foi interpretada como a de um articulador atento ao comportamento da tropa. “Um general observando seus exércitos”, na definição de um parlamentar.

Eleição sob suspeita

A anulação do resultado pela Justiça, poucas horas após a votação, adicionou um novo capítulo à crise e ampliou o escrutínio sobre os métodos utilizados para garantir maioria.

Nos bastidores, cresce a avaliação de que o episódio não apenas fragiliza a tentativa de consolidação de Douglas Ruas no comando da Casa, como também expõe práticas de coerção política que podem ter desdobramentos jurídicos e eleitorais nos próximos meses.

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