
O que antes seria descartado após a limpeza do pescado agora ganha nova vida nas mãos de pescadoras de São Pedro da Aldeia. Escamas de peixe passaram a ser transformadas em biojoias — peças artesanais como brincos e colares — criando uma alternativa de renda e reforçando a relação entre tradição pesqueira, sustentabilidade e criatividade.
A produção das biojoias foi o tema de um curso realizado ao longo de dois dias, reunindo mulheres ligadas à pesca artesanal para um aprendizado prático sobre o reaproveitamento das escamas na confecção de acessórios. A atividade contou com apoio do Programa Bandeira Azul e do Projeto Cavalos-Marinhos, que acompanham iniciativas voltadas à preservação ambiental e ao envolvimento das comunidades costeiras.
A capacitação foi conduzida pela pescadora e instrutora Juliana Cordeiro, que também vem de uma família tradicional de pescadores artesanais e desenvolve o trabalho com biojoias utilizando escamas de peixe.
“É muito importante para mim, como pescadora e filha de pescador, ver meu trabalho sendo divulgado. Além de poder passar esse conhecimento das biojoias que são feitas com as escamas de peixe para as mulheres envolvidas com a pesca também, para que isso seja um aumento na renda delas. Assim como a biojoia tem ajudado na minha casa, pode ajudar outras famílias”, afirmou.
Durante o curso, as participantes aprenderam técnicas de tratamento das escamas e montagem das peças, transformando um resíduo comum da atividade pesqueira em produtos com valor agregado. A proposta é justamente mostrar que materiais simples podem se tornar fonte de renda e incentivar práticas mais sustentáveis dentro da própria cadeia da pesca artesanal.
A pescadora Irani Sampaio, que atua na pesca com rede de malha há cerca de 40 anos no município, participou da capacitação e compartilhou um pouco da própria trajetória no setor.
“O maior desafio foi a aceitação, por ser mulher e por ser negra. Eu pesco desde os meus nove anos de idade e foram muitos anos de luta até conseguir minha carteira de pescadora. Mas a pesca é o meu amor, é de onde vem minha história, meu sustento. Participar desse curso é muito importante para mim, porque é uma oportunidade de aprender algo novo e poder levar esse conhecimento para a minha vida, somando a minha renda”, relatou.
A coordenadora-geral do Projeto Cavalos-Marinhos, Natalie Freret-Meurer, também acompanhou a ação. As participantes receberam um kit com ferramentas básicas para iniciar a produção das peças, além de materiais informativos e itens reutilizáveis.
A proposta dialoga diretamente com o trabalho de conservação ambiental desenvolvido pelo Projeto Cavalos-Marinhos, que busca envolver as comunidades locais em práticas sustentáveis e em ações de preservação da espécie. Nesse contexto, o reaproveitamento das escamas surge como exemplo de como resíduos da pesca podem ser transformados em novas oportunidades econômicas para famílias que vivem da atividade.




