
A Rússia afirmou estar seriamente preocupada com a ida de militares da Otan à região do Ártico, anunciada por alguns países-membros da aliança militar na quarta-feira (14) para defender a Groenlândia de ameaças de anexação feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O governo russo também acusou a Otan de realizar uma mobilização “militar acelerada” que teria um “claro objetivo de conter a Rússia e promover uma agenda antirrussa e antichinesa”.
“A situação que está se desenrolando nas altas latitudes é motivo de séria preocupação para nós”, disse a embaixada russa na Bélgica, onde fica a sede da Otan, em um comunicado publicado na noite de quarta-feira. Segundo a embaixada, a Otan está “ampliando sua presença militar ali sob o falso pretexto de uma ameaça crescente por parte de Moscou e Pequim”.
A fala ocorre após os governos da Dinamarca e da Groenlândia anunciarem, na quarta-feira, que aumentarão a presença militar na ilha e também no Ártico em coordenação com outros países da Otan (leia mais abaixo). Os primeiros soldados dinamarqueses começaram a chegar na ilha nesta madrugada.
Apesar da Rússia protestar contra a presença da Otan no Ártico e acusar a Europa de ter “planos beligerantes”, aliança militar tem presença constante na região e exercícios militares são comuns:
- Os mais recentes ocorreram no início desta semana, segundo imagens divulgadas pela própria Otan em suas redes sociais: “treinamento no Ártico” (veja abaixo);
- Em setembro de 2025, a Dinamarca realizou um exercício com aliados da Otan ao redor da Groenlândia que envolveu mobilização por ar, mar e terrestre;
- Em março de 2024, Noruega, Suécia e Finlândia realizaram treinamentos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/r/b/N5PB9RQ7uMBPDtDXeXhA/g-ej6itweaaxfnc.jpg)
Navio de guerra da Otan navega durante treinamento militar no Ártico em janeiro de 2025. — Foto: Divulgação/Otan
Países-membros da Otan contextualizam a mobilização no âmbito da escalada de tensões com os EUA, no entanto, a Alemanha afirmou nesta quinta-feira que uma missão da aliança na Groenlândia nos próximos dias terá como objetivo “explorar opções para garantir a segurança diante das ameaças russas e chinesas no Ártico”.
A opção reforçar o flanco do Ártico é adotada por aliados dos EUA com dois objetivos: impedir uma ação militar norte-americana contra a ilha e também mostrar a Trump que se levam em consideração sua preocupação com a segurança da região.
Ofensiva de Trump contra a Groenlândia
Trump realiza uma ofensiva contra a Groenlândia com o objetivo de fazer com que a ilha se torne parte dos EUA, o que deixou europeus em alerta —a ilha do Ártico pertence à Dinamarca, que disse não estar disposta a negociar sua soberania sobre o território. O presidente norte-americano reiterou na quarta-feira que os EUA precisam da ilha e que não se pode confiar na Dinamarca para a proteger.
Trump afirma que há uma crescente presença da Rússia e da China na região do Ártico, no entanto, europeus o desmentiram ao dizer, com base em seus relatórios de inteligência, que não foram detectados navios de guerra russos ou chineses na região. O presidente dos EUA também tem interesses econômicos na Groenlândia.
Países da Otan prometem tropas à Groenlândia
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/h/X/Ajg2ISTgKIsbkVqH2t5Q/75415326-906.jpg)
Em setembro passado, tropas dinamarquesas juntaram-se a tropas aliadas em exercícios militares na Groenlândia. — Foto: Guglielmo Mangiapane/REUTERS
Alemanha, França, Suécia e Noruega anunciaram nesta quarta-feira (14) que estão enviando soldados à Groenlândia. A decisão ocorre em meio às ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de anexar a ilha.
As tropas devem começar a chegar ao território na quinta-feira (15). Apesar de ter autonomia, a Groenlândia está sob a custódia da Dinamarca.
Já o presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou que tropas francesas vão participar de exercícios militares conjuntos organizados pela Dinamarca. A operação, segundo ele, se chama “Resistência Ártica”.
Mais cedo, a Dinamarca disse que reforçou a presenta militar na ilha e seus arredores em “estreita colaboração” com aliados da Otan.
Nas últimas semanas, Trump afirmou repetidamente que a ilha é vital para a segurança dos EUA e que o país precisa controlar o território para impedir uma ocupação por Rússia ou China.
O presidente dos Estados Unidos disse que todas as opções estão sobre a mesa para garantir o controle da Groenlândia. A Casa Branca não descarta uma ação militar.
Nesta quarta-feira, autoridades da Dinamarca e da Groenlândia se reuniram em Washington com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio.
Após o encontro, um alto representante dinamarquês afirmou que permanece um “desacordo fundamental” com Trump sobre o futuro da Groenlândia. Os dois lados concordaram em criar um grupo de trabalho para discutir as preocupações de segurança dos EUA.
A ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, afirmou que quer fortalecer a cooperação com os EUA, mas deixou claro que o território não deseja ser controlado por Washington.
Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/15/russia-reclama-tropas-otan-groenlandia.ghtml
Por que Trump diz que a Groenlândia é vital para construir Domo de Ouro; INFOGRÁFICO
Anunciado em maio do ano passado, o ‘Domo de Ouro’ será um sistema formado por satélites de vigilância e de ataque para derrubar mísseis inimigos. Situada entre os EUA e a Rússia, a Groenlândia é vista como uma área de grande importância estratégica.
Por Juliana Maselli, g1
Mas por que Trump precisa da Groenlândia para construir o Domo de Ouro?
Situada entre os EUA e a Rússia, a Groenlândia é vista há muito tempo como uma área de grande importância estratégica, particularmente no que diz respeito à segurança do Ártico.
Os EUA já possuem uma base militar na ilha, mas reduziram drasticamente sua presença no país. Eram cerca de 10 mil militares durante o auge da Guerra Fria; agora são menos de 200.
Como é a rota mais curta para um míssil balístico russo atingir o território continental americano, a Groenlândia poderia servir como uma das bases terrestres para interceptores de mísseis que fazem parte do sistema do Domo.
A localização da ilha também é estratégica porque, além de estar cercada por várias rotas marítimas importantes, ela está situada na chamada lacuna GIUK, um corredor naval entre a Groenlândia, a Islândia e o Reino Unido que liga o Oceano Ártico ao Atlântico.
Com o derretimento do gelo no Ártico devido às mudanças climáticas, novas rotas de navegação estão sendo abertas, o que pode reduzir drasticamente o tempo de viagem por mar entre a Ásia e a Europa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/p/w/glfNd5T7WGvANhpa8eFw/groenlandia.jpg)
Infográfico mostra a posição estratégica da Groenlândia — Foto: Editoria de Arte/g1
Os EUA desejam instalar radares para fortalecer sua capacidade de vigilância em todo esse corredor, rota de passagem para embarcações chinesas e russas que Washington deseja monitorar.
“Os EUA precisam de acesso ao Ártico, e hoje não têm muito acesso direto. A Groenlândia, por outro lado, oferece uma quantidade enorme. Precisam de defesas aéreas cada vez mais próximas da Rússia para combater armas de última geração que não são defensáveis com os recursos disponíveis atualmente e a Groenlândia também proporciona isso”, destacou Clayton Allen, chefe de operações da Eurasia Group, uma consultoria de risco político, à emissora americana CNBC em entrevista.
Esses dois são os principais fatores que transformaram a Groenlândia, aos olhos do governo Trump, como um posto avançado remoto essencial para o futuro dos EUA, com implicações comerciais e de segurança.
Para além das implicações militares, a ilha também possui vastas reservas inexploradas de petróleo, gás, minerais críticos e elementos de terras raras – recursos essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de armazenamento de energia e tecnologias de Defesa, produtos importantes para os EUA.
O que é o Domo de Ouro?
O “Golden Dome” – Domo de Ouro, em português – é um sistema de defesa antimísseis inspirado no Domo de Ferro de Israel e que foi anunciado por Trump em maio do ano passado.
O projeto é avaliado em US$ 175 bilhões, o equivalente a R$ 1 trilhão, e está em desenvolvimento pelo Pentágono. Trump disse que quer concluí-lo até o final do mandato, em 2029.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/o/k/pAB2VaQSyEOwesTtvQzA/ap25132564068676.jpg)
Cartazes mostram simulação de como será o Domo de Ouro — Foto: AP Photo/Mark Schiefelbein
Como o Domo de Ouro funcionaria?
O Domo de Ouro foi concebido para ser capaz de detectar e parar mísseis em todos os quatro estágios principais de um possível ataque:
- detectá-los e destruí-los antes do lançamento
- interceptá-los no estágio inicial do voo
- pará-los no meio do caminho no ar
- detê-los nos minutos finais enquanto descem em direção a um alvo
Em agosto, ao apresentar o projeto a 3 mil empreiteiros do setor de Defesa em Huntsville, no Alabama, o Pentágono contou que ele ainda estava nos estágios iniciais e justificou o encontro dizendo que desejava coletar informações “para dar suporte” aos próximos passos.
- O Domo de Ouro incluirá quatro camadas: uma baseada em satélite e três em terra, com 11 baterias de curto alcance localizadas nos Estados Unidos continentais, Alasca e Havaí.
- A primeira camada ficará baseada no espaço para alerta e rastreamento de mísseis, bem como sua defesa.
- As três camadas terrestres serão formadas por interceptadores de mísseis, conjuntos de radares e, potencialmente, lasers.
- Os EUA operam bases de lançamento GMD no sul da Califórnia e no Alasca. O plano adicionaria uma terceira base no Centro-Oeste para combater ameaças adicionais.
- Esta nova base iria abrigar interceptadores chamados NGI, de última geração, que fariam parte da “camada superior” junto com o sistema THAAD (Defesa Terminal de Área de Alta Altitude).
- Um dos principais objetivos do sistema Golden Dome é neutralizar alvos durante a chamada “fase de impulso” — o estágio inicial e previsível da trajetória de um míssil enquanto ele ainda está subindo pela atmosfera terrestre.
- O projeto busca implementar interceptadores baseados no espaço, capazes de reagir mais rapidamente e interceptar mísseis inimigos com maior eficiência.
- As últimas linhas de defesa, chamadas de “camada inferior” e “Defesa de Área Limitada”, contarão com novos radares e sistemas já existentes, como o sistema de defesa antimísseis Patriot. Além disso, será implantado um novo lançador, projetado para disparar interceptadores atuais e futuros contra todos os tipos de ameaças.




