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De bairro a trend: o efeito TikTok no comércio da Liberdade

Fãs de K-pop, doramas e da cultura asiática lotam as ruas do bairro, que se tornou destino turístico mundial, e tem novos negócios lucrando milhões ao misturar tradição com o aspecto instagramável

Por  Mariana Missiaggia  –  https://dcomercio.com.br/publicacao/s/de-bairro-a-trend-o-efeito-tiktok-no-comercio-da-liberdade

 

A obsessão do brasileiro pela cultura asiática é facilmente comprovada pela busca das pessoas pelo bairro da Liberdade, em São Paulo. São ruas cheias, tão cheias que é difícil de se locomover a pé. Restaurantes com filas demasiadas, espaços de alimentação com mesas compartilhadas e cada vez mais opções de comida para levar.

Toda essa muvuca é sinônimo de um sucesso que pode ser medido: são mais de 20 mil visitantes aos fins de semana. Enquanto o centro histórico (bem pertinho dali) vive um momento de revitalização, após sofrer com o abandono, a Liberdade virou um destino bem popular, e que não para de atrair de novidades e preços elevados como consequência de uma vocação turística.

Recentemente, a região foi eleita um dos 25 melhores destinos turísticos do mundo para conhecer em 2026, segundo o ranking Best in Travel 2026, do guia Lonely Planet. Há muitos aspectos que contam a favor de toda essa popularidade: de fácil acesso, o bairro faz fronteira com a Sé, e tem linhas de ônibus que o atendem, além da estação de metrô Liberdade como o jeito mais prático de chegar até lá, desembarcando diretamente no início da feirinha e da imensidão de lojas. Para quem chega de carro, também há estacionamentos na região.

Os preços – apesar de cada vez mais gourmetizados – ainda são democráticos. É possível fazer um almoço típico completo por R$ 35, provar receitas inusitadas por R$ 10 e claro, ter um menu degustação por R$ 1 mil por pessoa. Além de todo o aspecto histórico e cultural, são temporadas de novidades que garantem o retorno do público de tempos em tempos.

De acordo com Tabita Takayama, especialista em dar dicas sobre o bairro e responsável pela página VemPraLiba, o volume de conteúdo sobre o bairro nas redes tem crescido de forma orgânica. E apesar do bairro normalmente virar hype por inaugurar algo diferente, esses visitantes também valorizam muito aquilo que a Liberdade tem de mais tradicional: a feirinha e os eventos fixos, como o Ano Novo Chinês.

“A página no Instagram tem aumentado o número de seguidores sem muito esforço, e recebemos em média 6 collabs por dia de influenciadores que vão para o bairro, inclusive de estrangeiros. E as visualizações são altissímas”

Neste ano, o TikTok ditou o roteiro de quem escolhia o bairro como destino. Além de divulgar produtos, é comum ver nessas plataformas vídeos curtos como: “O que eu comi com R$ 50 na Liberdade?”; “Tour pelos mercados orientais”; “Tudo o que provei em um dia na Liberdade”; “Doces virais na Liberdade”; “Lojas escondidas na Liberdade”.

Nessa toada, a confeitaria Kureiji Candy reinou com seus produtos instagramáveis – e faturou R$ 5 milhões em sete meses em uma loja com pouco mais de 50 metros quadrados e cerca de 20 itens no cardápio. Criada pelo casal Jessica Costa e Danilo Miki, a ideia de vender doces japoneses veio após uma viagem ao país asiático em 2022.

Kureji Candy chega a atender 3 mil clientes por fim de semana com doces instagramáveis

O espaço, que funciona apenas para retirada, conta com uma equipe de cinco funcionários durante a semana, 15 nos fins de semana e chega a atender 3 mil clientes por fim de semana. O tíquete médio varia entre R$ 25 e R$ 30. O boom levou a marca para uma segunda loja em menos de um ano no Shopping Tatuapé, que será a primeira do casal em um shopping.

Nessa lista, outro hit é o mercadinho chinês Jia He, que tem suas prateleiras carregadas pelos industrializados mais populares. Mas seu maior diferencial vem dos produtos frescos, como frutos do mar e peixes, que ficam expostos no gelo. Legumes e verduras típicos da culinária oriental, como lótus, pepino amargo e abóbora d’água também ganha destaque no espaço.

E apesar de todo o movimento nas ruas, um dos funcionários do Jia He diz que a dinâmica dentro das lojas costuma ser muito ágil, e mesmo as longas filas costumam ser rápidas e organizadas. Ao apontar a variedade de itens do estabelecimento, ele conta que quando se trata de perecíveis, os orientais são exigentes e gostam de trabalhar em comunidade. Por isso, na maioria dos casos, esses produtos têm como origem as plantações com cultivo limitado de agricultores chineses que moram em zonas rurais próximas à São Paulo, e que não vendem para supermercados ocidentais.

Uma curiosidade normalmente presente nesses mercadinhos é a presença de chás, xaropes, remédios e outros itens medicinais utilizados na medicina chinesa. Nem sempre as embalagens trazem etiquetas com a tradução, e com o ritmo intenso de consumidores dentro da loja, também não costuma ser fácil encontrar alguém para desvendá-las.

A chegada dos streamings e o fácil acesso à cultura oriental, especialmente, pelos doramas e K-pop, segundo o funcionário do Jia He, fez com que muita gente passasse a consumir itens como Soju, uma bebida semelhante ao saquê japones, que aparece em praticamente todo dorama; kimchi, uma acelga fermentada e o topokki, que são bolinhos de arroz em um molho picante e doce, entre outros.

Agora, para não ter que se preocupar com idioma, há quem venda sem que seja preciso dizer uma palavra. Aberta em maio deste ano na rua dos Aflitos, a Kirameki ficou conhecida por vender doces artesanais japoneses de um jeito um tanto diferente. A loja tem apenas 10 metros quadrados e uma parede. Ao entrar, o cliente se depara com banners e fichas de cada produto pendurados em ganchos.

Não há balcão, mesas nem cadeiras. O único ponto de contato se dá por um espécie de janela, onde uma pata de coelho de pelúcia recebe a ficha do produto e produto escolhido e por onde essa mesma mão entrega o doce de cada cliente.

Kirameki, na Liberdade, combina doces temáticos a um atendimento lúdico e silencioso. IMAGEM: Divulgação

No cardápio, poucas opções – apenas 11 itens da culinária japonesa – pudim, bebidas geladas, quatro versões de choux cream (doce recheado semelhante a uma carolina), roll cakes (massa chiffon leve e estruturada) e o diamond coffee, que leva creme e gelatina de café. Os preços variam entre R$ 15 e R$ 26.

O negócio é uma evolução da Tampopo Doces, que começou em 2020 com a venda de bolos e sobremesas por encomenda feitos pela mãe e filho, Claudia e Bruno Hideshima, a partir de receitas japonesas da matriarca da família. Em 2023, uma viagem ao Japão os inspirou a profissionalizar a doceria que, até então, funcionava de modo caseiro. Ao lado da noiva, Mariane Tsubota, Bruno deixou o trabalho CLT, como analista de dados, e juntos, investiram R$ 30 mil branding, padronização, processos, embalagens e marketing. O resultado foi um aumento de 200% no faturamento.

Após algumas tentativas encontraram na Liberdade um ponto fixo e, no primeiro fim de semana de abertura, faturaram R$ 7 mil. Hoje, além do casal, a produção envolve toda a família: o pai de Bruno, Humberto Hideshima, que cuida da administração; a mãe, da cozinha; e o irmão, Felipe Mamoru Hideshima, que fica na produção.

Saindo da alimentação, a Pink Inc, na Avenida da Liberdade, funciona como um espaço de experiência instagramável com diversas máquinas de pegar pelúcias – cada uma delas com bichinhos diferentes. As fichas para jogar nas máquinas custam apenas R$ 1, e a quantidade necessária varia conforme a máquina.

Além das máquinas de pelúcias, nas quais é possível levar os bichinhos para casa ou trocá-los por pontos que podem ser usados para resgatar outros prêmios, a Pink Inc também conta com um café fofo.

Os desafios da Liberdade como polo turístico

Kiyoshi Hashimoto, superintendente da Distrital Centro da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que a Liberdade sempre foi lotada, porém agora com o Tik Tok e outras redes, algumas lojas, principalmente cafés, ficaram mais populares.

No entendimento de Hashimoto, a diversidade que a região reúne também contribui para esse volume de visitas. Ele destaca que todas as lojas ficam a uma distância que pode ser facilmente percorrida a no máximo 10 minutos a pé da estação Liberdade, sendo que as principais ficam mais perto do que isso. O horário de funcionamento é outro facilitador – o comércio abre todos os dias e tem o número de funcionários ampliado aos fins de semana, quando tudo fica mais cheio.

Considerado um importante polo de atração cultural e comercial, Kiyoshi aponta que a região enfrenta desafios crescentes. Como representante ativo nas discussões sobre o futuro do bairro, ele expõe diferentes demandas visando melhorias na infraestrutura e segurança da área.

Uma das reclamações mais urgentes do comércio é a questão do lixo e o mau cheiro provocado pelas lixeiras de poste, que são constantemente cheias pelos visitantes, e agora, as lixeiras são esvaziadas diariamente. Os sanitários públicos são outro ponto de atenção, com a alta utilização dentro de lojas mesmo “sem consumo”. Outro problema crônico é o aumento expressivo de ambulantes – especialmente, nos finais de semana e no quarteirão entre a Praça da Liberdade e a Rua Américo de Campos.

Se durante a semana o número é crescente, nos fins de semana chega a cerca de 90 ambulantes. Outra situação, segundo Kyoshi, é a infinidade de casos de funcionários de lojas que pedem demissão para montar barracas nas ruas e concorrer diretamente com os lojistas estabelecidos.

Kyoshi também afirma já ter apresentado propostas para modernizar a infraestrutura do bairro. Para solucionar o problema do lixo, ele sugeriu a implementação de um sistema de lixeira subterrânea, citando como exemplo o modelo adotado em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. No que tange aos sanitários, há um projeto da SPTuris para construir um prédio de atendimento ao turista com banheiros públicos.

O empresário também apontou dificuldade em contratar mão de obra na região, e diz ser favorável à ideia de contratar idosos para suprir essa lacuna. Segundo ele, para além das novidades que sempre ocorrem, a vitalidade do bairro também é reforçada por iniciativas de comerciantes que já estão no endereço há décadas, como é o caso de Tamaki Yamamoto, dono de um restaurante na Rua da Glória, que planeja construir a “Praça do Buda”, com um Buda de quatro metros de altura, próximo à Praça Almeida Júnior e que em breve deve atrair ainda mais olhares para a Liberdade.

Segundo Yamamoto, a ideia é homenagear a todos os que contribuíram para o desenvolvimento do bairro e não apenas a colônia asiática. Segundo estimativas, existem 2,7 milhões de japoneses e descendentes ao redor de todo o país, sendo 1,3 milhão apenas no estado de São Paulo.

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