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Tensão sobre reentrada marca volta da Artemis II

Quatro tripulantes da missão que bateu o recorde de distância em relação à Terra já alcançada por humanos devem pousar na costa oeste dos EUA hoje à noite. Falhas no escudo térmico da Artemis I, há quatro anos, geram nervosismo

Por Isabella Almeida
Após bater o recorde de distância que humanos já chegaram da Terra, milhares de fotos e inúmeras observações durante a viagem ao redor da Lua, os astronautas da Artemis II voltam hoje para casa. O retorno ocorre sob uma inegável, embora contida, tensão em relação ao momento de reentrada da cápsula Orion na atmosfera terrestre. O módulo trazendo Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen deve realizar o pouso no oceano, chamado de splashdown, a partir das 21h07 no horário de Brasília, na costa de San Diego, nos Estados Unidos. A chegada será transmitida ao vivo pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa). A preocupação com esse momento da jornada se deve ao fato de que, há quatro anos, a missão Artemis I ter tido problemas com o escudo de proteção térmica na reentrada. Desde então, inúmeros ajustes foram feitos para que o mesmo não aconteça hoje.
Para Douglas Galantes, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) , o teste mais importante acontece hoje: a reentrada. “Todo o debate sobre a segurança do escudo térmico só vai ser parcialmente resolvido depois do splashdown e da análise do hardware. Ou seja, mesmo que tudo corra bem do ponto de vista operacional, a equipe de engenharia vai precisar examinar o escudo com cuidado. Um retorno sem problemas fortalece a confiança no programa. Mesmo um retorno seguro mas com danos maiores que o esperado no escudo vai colocar questões difíceis para missões seguintes.
“É a primeira vez desde a Apollo 17, em 1972, que pessoas vão além da órbita baixa da Terra. Isso tem impacto direto em pesquisa sobre fisiologia espacial, efeitos da radiação cósmica no corpo humano, e cria a base para missões científicas futuras na Lua e, mais para frente, em Marte”, completa o especialista.

Conforme Alexandre Bergantini, professor do Observatório do Valongo, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (OV-UFRJ), apoiado pelo Instituto Serrapilheira, diante dos riscos elevados de uma missão tripulada além da órbita terrestre, a Artemis II foi cuidadosamente planejada para ser, antes de tudo, um grande teste. “Em vez de tentar pousar na Lua, a missão realizou um sobrevoo ao redor do satélite natural, reduzindo a complexidade e aumentando a segurança para os astronautas. Os responsáveis pelo programa decidiram que durante a passagem pela Lua, não seriam executadas manobras complexas de propulsão. Essa estratégia tem um objetivo claro: concentrar-se na validação dos sistemas da cápsula Orion, especialmente sua capacidade de sustentar astronautas com segurança por cerca de 10 dias no espaço profundo.”

Segundo Bergatini, isso inclui testar desde suporte à vida, comunicação e navegação até a resistência estrutural da nave em um ambiente muito mais hostil do que a órbita baixa da Terra, onde fica, por exemplo, a Estação Espacial Internacional. “Qualquer manobra adicional durante o sobrevoo aumentaria desnecessariamente o risco e, nessa fase do programa, segurança e confiabilidade vêm antes de ousadia.”

Direto do espaço

Reid Wiseman, comandante da missão Artemis II da Nasa, descreveu como a experiência leva a mente humana ao limite. “É um verdadeiro presente. E temos muito em que pensar, anotar e registrar. Só então poderemos sentir plenamente o que acabamos de vivenciar”, disse ele durante uma coletiva de imprensa no espaço, que aconteceu na madrugada de quinta-feira.

A tripulação espacial falou com a imprensa pouco antes de terminar a jornada de 10 dias ao redor do satélite natural da Terra. “Eu ainda nem comecei a assimilar o que acabamos de vivenciar”, disse Glover. “Ainda temos mais dois dias, e atravessar a atmosfera a bordo de uma bola de fogo também é uma experiência profunda”. Wiseman afirmou que o eclipse solar foi particularmente emocionante. “Na verdade, fico arrepiado só de pensar nisso, minhas mãos suam. Vou pensar e falar sobre tudo isso pelo resto da minha vida.”

Planeta frágil

Ao ser questionada sobre o que mais sentiria falta em sua experiência no vácuo do espaço, Koch apontou para a união entre os colegas. “Sentirei falta de estar tão perto de tantas pessoas e de ter um propósito comum, uma missão em comum, trabalhando arduamente nisso todos os dias, a centenas de milhares de quilômetros de distância de uma equipe em terra”, disse ela.

“Esse senso de trabalho em equipe é algo que você normalmente não tem como adulto”, acrescentou Koch. “Quero dizer, somos tão próximos quanto irmãos. Esse é um privilégio que nunca mais teremos.” Ela chegou a dizer que, mesmo tendo compartilhado um espaço pequeno, e um banheiro com defeito, por mais de uma semana, não acha que esteja pronta para que toda essa experiência acabe.

“Isso tudo faz parte do pacote. Não podemos explorar mais se não fizermos coisas desconfortáveis, alguns sacrifícios, se não assumirmos alguns riscos”, disse. “Tudo isso vale a pena”. Koch disse que a equipe “adorou viver em Órion”, a cápsula espacial, apesar do espaço apertado. “É maior em microgravidade”, brincou, “mas esbarramos uns nos outros o tempo todo”.

Hansen afirmou ter testemunhado coisas “jamais imaginadas” enquanto sobrevoava o lado oculto da Lua. E concluiu que sua perspectiva sobre a vida permanece a mesma: “Vivemos em um planeta frágil, no vazio e na imensidão do espaço. Nosso propósito neste planeta, como seres humanos, é encontrar alegria (…) e encorajar uns aos outros, criando soluções juntos em vez de destruir. Quando você vê daqui de cima, isso não muda. Apenas se  confirma”.

 

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