
Enquanto a guerra se espalha pelo Oriente Médio, depois de atingir o Kuwait e o Líbano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descarta o envio de tropas para o Irã e prepara uma intensificação do conflito, que parece longe do fim. “Nem sequer começamos a atingi-los com força. A grande onda ainda não chegou”, declarou à emissora CNN, sem dar mais detalhes. “Está por vir”, acrescentou. O republicano celebrou os resultados das primeiras 48 horas de bombardeios. “Estamos muito à frente de nossas projeções de tempo. Desde o início projetamos quatro ou cinco semanas, mas temos capacidade para ir muito além. Vamos fazê-lo”, prometeu. Entre sábado e segunda-feira (2/3), os Estados Unidos atacaram mais de 1.250 alvos no Irã, incluindo centros de comando e controle, bases de mísseis balísticos, navios e submarinos da Marinha iraniana, além de instalações de mísseis antinavio.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, classificou a Operação Fúria Épica como uma medida “preventiva”. “Sabíamos que, se não fossemos atrás deles de forma preventiva antes que lançassem esses ataques, sofreríamos um número maior de baixas”, explicou. No início da noite desta segunda-feira, o Departamento de Estado aconselhou os cidadãos americanos a abandonarem, imediatamente, 14 países da região — Bahrein, Egito, Irã, Iraque, Israel, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Catar, Arábia Saudita, Síria, Emirados Árabes Unidos e Iêmen. Até o fechamento desta edição, seis soldados norte-americanos tinham sido mortos em ação e 18 ficaram gravemente feridos.
Por sua vez, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, negou-se a descartar combates em terra no Irã e estimou que a ofensiva pode se arrastar por “seis semanas”. Do lado de Israel, principal aliado dos EUA na região e inimigo do regime iraniano, o governo de Benjamin Netanyahu atacou o movimento fundamentalista islâmico libanês Hezbollah, no sul de Beirute, e mantém no horizonte a possibilidade de enviar soldados ao Líbano. O Exército israelense também realizou pesados bombardeios ao coração de Teerã pelo terceiro dia consecutivo. O conflito transbordou para a Europa, depois que uma base do Reino Unido foi alvejada por drones iranianos. O ataque sem precedentes ocorreu em resposta à decisão de Londres de autorizar Washington a usar seus complexos militares contra o país persa. Em meio à preparação para escolher o sucessor do aiatolá Ali Khamenei, morto em um ataque aéreo no sábado (28/2), o Irã fechou o Estreito de Ormuz e ameaçou incendiar barcos que desafiarem o bloqueio. O Estreito de Ormuz é responsável pelo escoamento de 20% do petróleo mundial.

O Kuwait envolveu-se na guerra ao utilizar suas defesas aéreas para derrubar, por engano, três caças F-15E Eagle, da Força Aérea dos Estados Unidos. O Comando Central dos EUA (Centcom) anunciou que os pilotos ejetaram em segurança. “O Kuwait reconhece o incidente e agradece os esforços das forças de defesa do Kuwait e seu apoio nesta operação em andamento”, afirmou, por meio de nota. Fontes diplomáticas informaram à agência de notícias France-Presse (AFP) que a Embaixada dos Estados Unidos no Kuwait foi atingida por três drones. A AFP relatou que uma coluna de fumaça preta podia ser vista na área da representação diplomática.
Retaliação
O saudita Aziz Algashian, especialista do Fórum Internacional do Golfo (em Riad), confirmou o espalhamento da guerra no Oriente Médio e previu mais incertezas. “Isso significa que a situação no Irã ficará mais desesperadora e, consequentemente, haverá mais pressão dos Estados do Golfo para reagirem. No entanto, a melhor arma deles é a contenção — esses países têm muito mais a perder. Contenção não significa passividade, e, portanto, à medida que a guerra se intensifica, aumenta a probabilidade de os Estados do Golfo utilizarem medidas ofensivas para a defesa”, alertou ao Correio. “Ainda não chegamos a esse ponto, mas a situação está se tornando mais complexa, pois o Irã ataca infraestruturas críticas. Por isso, todas as nações da região querem evitar essa guerra.”
Algashian não acredita que a guerra terminará em breve. “Mesmo que haja um cessar-fogo em quatro ou cinco semanas, o conflito prosseguirá. Não haverá mudança no regime, e qualquer liderança no Irã tratará os EUA como inimigo, depois da guerra”, acrescentou. Professor de relações internacionais da Universidade de Nova York e especialista em Oriente Médio, Alon Ben-Meir concorda com o saudita. “Embora os Estados Unidos continuem bombardeando o Irã, talvez pelas próximas uma ou duas semanas, não creio que o regime islâmico vá ruir, mesmo depois do assassinato do aiatolá Ali Khamenei”, disse ao Correio.
Pesquisador senior do Foreign Policy Research Institute (na Virgínia, EUA) e especialista em assuntos regionais do Oriente Médio, Mohammed Salih avalia que a ampliação do conflito para os países do Golfo Pérsico e vizinhos do Irã, como o Iraque, era esperada, mas não na escala atual. “Isso terá consequências para a segurança e a estabilidade regional e poderá se transformar em uma guerra regional mais ampla, na qual alguns países do Golfo e potências europeias, como o Reino Unido, a França e a Alemanha, poderão optar por participar, cada um por diferentes razões”, alertou, por e-mail. Segundo ele, a continuação e a expansão da guerra podem ter sérias consequências para o comércio internacional, particularmente para os preços da energia, que começaram a subir.
EU ACHO…

Aziz Algashian, especialista do Fórum Internacional do Golfo (em Riad)(foto: Arquivo pessoal)
“É importante notar que os Estados do Golfo estão na linha de frente da guerra de outros. É por isso que não há boas opções — a moderação é o melhor princípio para evitar mais insegurança. A moderação impedirá que uma situação ruim piore.”
Aziz Algashian, especialista do Fórum Internacional do Golfo (em Riad)

Mohammed Salih, pesquisador senior do Foreign Policy Research Institute (na Virgínia, EUA) e especialista em assuntos regionais do Oriente Médio (foto: X/Reprodução )
“Ampliar o escopo geográfico da guerra parece ser a principal estratégia de pressão do Irã neste momento, na esperança de que isso possa levar os países da região a pressionarem os EUA e Israel para que cessem sua campanha militar.”
Mohammed Salih, pesquisador senior do Foreign Policy Research Institute (na Filadélfia, EUA) e especialista em assuntos regionais do Oriente Médio
DEPOIMENTO
“Estão bombardeando pessoas nas ruas”

“O som das explosões em Teerã é intenso. Os inimigos americanos e sionistas têm atacado todas as áreas de Teerã — norte, leste, oeste e sul — ao longo das últimas horas. Os ataques estão em andamento. Fico entristecida pelas pessoas que estão sendo mortas em suas casas e pelas ruas. Hoje, muitos civis foram bombardeados, enquanto caminhavam pelas ruas. Não temos chance, a não ser permanecer fortes e resilientes. Assim como todo mundo, tenho ficado em casa. Os ataques aéreos ocorrem em intervalos de poucas horas e duram vários minutos, cada onda. Se tenho medo da morte? De jeito nenhum. Isso deriva da minha visão de mundo.”
Afifeh Abedi, 46 anos, jornalista e pesquisadora, moradora de Teerã




