
O candomblé é uma religião marcada pela ancestralidade, pela espiritualidade, pelo acolhimento e pelo respeito às diferenças. Dentro dos terreiros, a fé sempre esteve ligada à união, ao cuidado espiritual e à construção de uma comunidade baseada na humanidade e no axé. No entanto, ainda existem pessoas trans que enfrentam preconceito e dificuldades para permanecer em algumas casas religiosas simplesmente por viverem sua identidade de gênero.
A discussão sobre inclusão dentro das religiões de matriz africana tem se tornado cada vez mais necessária. Isso porque muitos homens trans e mulheres trans ainda relatam episódios de rejeição, constrangimento e exclusão em determinados espaços religiosos, onde a identidade de gênero acaba sendo tratada de forma equivocada e confundida com questões relacionadas aos fundamentos da religião.
Especialistas e lideranças religiosas defendem que fé, caráter, respeito e compromisso espiritual devem estar acima de qualquer forma de preconceito. Uma pessoa trans não perde sua espiritualidade por ser trans, não deixa de carregar seu axé e muito menos deixa de merecer acolhimento e dignidade dentro de uma casa de santo.
No Ilê Asé Oloya Lebe, conduzido por Pai Júnior de Oyá, a visão é baseada justamente no respeito às individualidades e na valorização do ser humano acima de qualquer julgamento pessoal.
Recentemente, um homem trans passou a integrar a casa e, segundo integrantes do terreiro, vem demonstrando diariamente dedicação, responsabilidade, respeito aos fundamentos e compromisso com a espiritualidade. Sua identidade de gênero nunca foi tratada como impedimento para exercer sua fé ou participar da vivência religiosa da comunidade.
“A roupa ou a identidade de uma pessoa não enfraquece uma casa de axé. O preconceito, sim. O que realmente importa é o respeito à espiritualidade, aos fundamentos e ao próximo”, destaca Pai Júnior de Oyá.
A liderança religiosa também ressalta que cada casa possui fundamentos próprios, tradições ancestrais e orientações específicas ligadas aos rituais do candomblé. Porém, ensinar e orientar nunca deve ser confundido com humilhação, exclusão ou intolerância.
O debate sobre inclusão dentro das religiões de matriz africana também dialoga diretamente com os direitos garantidos pela legislação brasileira. O Supremo Tribunal Federal (STF) reconhece a discriminação por identidade de gênero e orientação sexual como prática criminosa, equiparada ao crime de racismo, conforme entendimento firmado na ADO 26 e no MI 4733.
Mais do que uma discussão religiosa, o tema envolve humanidade, respeito e dignidade. Para muitas pessoas, o terreiro representa um espaço de acolhimento, cura emocional e fortalecimento espiritual. Por isso, impedir alguém de viver sua fé por causa da própria identidade é uma violência que contraria os princípios de amor, respeito e coletividade que historicamente fazem parte das religiões de matriz africana.
No Ilê Asé Oloya Lebe, a mensagem é clara: o axé deve acolher, orientar e respeitar todas as pessoas. Porque antes de qualquer cargo, obrigação ou hierarquia religiosa, todos são seres humanos.




