A Polícia Civil vai intimar representantes da empresa responsável pelo helicóptero que caiu no último sábado (8), nas proximidades da Vista Chinesa, no Rio de Janeiro. O acidente matou três turistas colombianas e o piloto da aeronave e voltou a levantar questionamentos sobre a segurança dos voos panorâmicos em áreas urbanas.
A investigação é conduzida pela 19ª DP (Tijuca). Neste primeiro momento, a polícia pretende concentrar os depoimentos nos responsáveis pela empresa proprietária do helicóptero. Os familiares das vítimas ainda não devem ser ouvidos.
O acidente também é investigado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). Segundo a empresa Voos Rio Panorâmico, a câmera instalada para registrar imagens da cabine permaneceu intacta após a queda. O equipamento foi entregue aos investigadores e poderá ajudar na apuração das circunstâncias do acidente.
Familiares relatam falta de informações
Familiares das vítimas colombianas afirmaram que representantes da empresa disseram inicialmente que o helicóptero havia feito um pouso forçado. A informação teria sido transmitida enquanto as famílias aguardavam o retorno dos passageiros.
Victor Manrique, parente das turistas, contou que passou mais de uma hora sem receber informações oficiais. Segundo ele, a família acabou descobrindo o acidente por meio de notícias na internet.
“Eu sei que eles já tinham conhecimento de que havia uma emergência e não nos avisaram. Quando perguntei o que havia acontecido, nos levaram para uma sala e disseram que o piloto havia informado a necessidade de um pouso forçado. Não disseram que o helicóptero tinha caído”, relatou.
As vítimas eram Rocio Cubillos, de 59 anos; Wendy Manrique, de 37; e Sofia Murillo, de 17 anos. Elas estavam no Rio pela primeira vez e haviam contratado um voo panorâmico com passagem pelo Cristo Redentor.
O passeio custaria aproximadamente R$ 2,5 mil e teria duração de cerca de 20 minutos. A experiência fazia parte da comemoração do aniversário de Laura, de 15 anos, que não chegou a embarcar. Ela, o pai e a madrasta seriam os próximos passageiros da aeronave, que havia decolado do Aeroporto de Jacarepaguá.
Os corpos das quatro vítimas foram retirados da área de mata horas depois da queda, com auxílio de equipes especializadas em técnicas de rapel.
Victor também afirmou que a empresa não entregou à família cópias do contrato do passeio nem da apólice de seguro.
“Nenhuma autoridade nos procurou para prestar esclarecimentos. Não estou fazendo um julgamento, porque desconheço os protocolos. (…) Mas, para mim, isso parece estranho”, afirmou.
A representante da Voos Rio Panorâmico, Eliane Ambrósio, afirmou que a empresa está prestando apoio às famílias.
“Nada vai compensar essa perda. Nossa principal preocupação é acolher essas famílias e oferecer o suporte necessário, para que elas não se sintam desamparadas”, declarou durante o atendimento no Instituto Médico-Legal (IML).
Piloto havia entrado recentemente na empresa
Alessandro Rocha dos Santos, piloto do helicóptero, também morreu no acidente. O filho dele, Sven Rocha dos Santos, afirmou que o pai havia começado a trabalhar na empresa havia pouco tempo.
“Ele estava lá havia pouco tempo e comemorava muito essa oportunidade”, contou Sven.
A Polícia Civil informou que as diligências continuam para esclarecer as circunstâncias da queda.
Anac confirma autorização para voos panorâmicos
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que o helicóptero possuía certificado válido e estava autorizado a realizar voos panorâmicos.
Familiares das vítimas, porém, afirmam que as operações turísticas continuaram sendo realizadas a partir do Aeroporto de Jacarepaguá após o acidente, inclusive pela mesma empresa.
A sequência de acidentes recentes reacendeu a discussão sobre a realização de voos turísticos sobre regiões densamente povoadas do Rio.
No domingo (9), manifestantes se reuniram no heliponto da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul, para pedir a suspensão das rotas turísticas sobre áreas residenciais.
“Ninguém aqui é contra voos essenciais, como os realizados por bombeiros, policiais ou equipes de imprensa. O que questionamos são os voos turísticos e panorâmicos sobre áreas urbanas”, afirmou André Tovar, integrante do movimento Rio Livre de Helicópteros.
Outros acidentes aumentam preocupação
O acidente ocorre após outros episódios envolvendo helicópteros na cidade.
Em abril, um piloto realizou um pouso forçado na Praia da Barra da Tijuca. Ninguém ficou ferido.
Em junho, dois helicópteros colidiram no ar e caíram no Recreio dos Bandeirantes. Seis pessoas morreram.
Agora, a queda próxima à Vista Chinesa deixou outras quatro vítimas.
A sequência de ocorrências ampliou a pressão por uma revisão das regras e dos procedimentos relacionados aos voos turísticos na cidade.
Prefeito pede avaliação sobre suspensão de voos
O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, afirmou ter conversado com o presidente da Anac sobre a possibilidade de suspender temporariamente os voos panorâmicos na cidade.
“Quero acreditar que a Anac adotará as medidas necessárias, inclusive avaliando uma suspensão dos voos panorâmicos por uma ou duas semanas, ou pelo período que considerar adequado para intensificar a fiscalização. Precisamos garantir a segurança dos turistas, dos moradores e de todos que circulam pela cidade”, afirmou.
Para especialistas em gerenciamento de risco, a frequência dos acidentes e o número de vítimas justificam uma análise mais ampla do modelo de operação dos helicópteros no Rio.
Comunicação entre helicópteros é ponto de atenção
O especialista em gerenciamento de risco Gerardo Portela chama atenção para a comunicação entre os pilotos.
Diferentemente do que ocorre nos grandes aeroportos, onde controladores de tráfego aéreo coordenam pousos, decolagens e a separação entre aeronaves, algumas operações com helicópteros funcionam em um sistema de autocoordenação.
Nesse modelo, os próprios pilotos comunicam pelo rádio suas posições e intenções e acompanham as transmissões das demais aeronaves para identificar possíveis conflitos de tráfego.
“Na aviação autocoordenada, como ocorre com os helicópteros no Rio de Janeiro, a responsabilidade fica com cada piloto. Eles precisam se entender durante o voo e enfrentam fatores como visibilidade reduzida, incidência do sol na cabine e uma frequência de rádio frequentemente congestionada”, explicou.
Para Portela, o crescimento do tráfego aéreo na cidade exige uma avaliação do modelo atual e de possíveis medidas para reduzir os riscos das operações, especialmente em áreas urbanas.





