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Pai de “serial estuprador”, pastor deixou igreja com dívida de R$ 1,8 milhão

Relatório de igreja revela dívida de R$ 1,8 milhão, gastos descontrolados e crise institucional agravada por denúncias de abusos sexuais

Por Carlos Carone

 

Um relatório financeiro produzido por uma comissão independente de membros da Igreja Batista Filadélfia, no Guará, revelou um cenário alarmante nas contas da instituição.

O documento, elaborado após auditoria interna e validado pelo contador do templo em assembleia geral, expõe um rombo milionário e uma situação fiscal considerada crítica. Tudo sob a gestão do pastor Marcos Antônio Santos Campos. Ele é pai de Gabriel de Sá Campos, preso por uma série de abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes que frequentavam a igreja.

Segundo o levantamento apresentado no último sábado, a igreja acumula uma dívida total de R$ 1,8 milhão. Desse montante, R$ 1.490.571 correspondem a débitos tributários — o equivalente a 82% do total — enquanto R$ 322.119 referem-se a outras dívidas.

O relatório aponta, ainda, um déficit mensal de R$ 275 mil, evidenciando um desequilíbrio estrutural entre receitas e despesas. De acordo com o documento, o problema não é pontual, mas resultado de anos de gestão financeira por parte do pastor considerada insustentável.

Obras milionárias

Outro dado que chama a atenção é o investimento de R$ 3,9 milhões em obras nos últimos cinco anos, realizado sem a criação de reservas financeiras adequadas, o que contribuiu para o agravamento da crise.

Enquanto as contas da igreja mergulhavam no vermelho, o então presidente da instituição, pastor Marcos Campos, recebia salário mensal de R$ 49 mil, conforme consta no relatório ao qual a coluna teve acesso. A divulgação do documento resultou na exclusão do pastor da liderança.

A crise administrativa ocorre em paralelo a um dos mais graves escândalos envolvendo a igreja. Gabriel de Sá Campos, filho do ex-presidente, tornou-se réu em fevereiro deste ano por abuso sexual contra adolescentes que frequentavam a instituição, localizada no Guará (DF).

Procurado, o pastor não havia enviado manifestação até a última atualização desta reportagem. O espaço permanece aberto.

“Serial estuprador”

O ex-líder religioso, de 30 anos, foi preso temporariamente em dezembro do ano passado, tendo a prisão convertida em preventiva semanas depois. Atualmente, ele está detido no Centro de Detenção Provisória (CDP), no Complexo da Papuda.

As investigações apontam que os crimes ocorreram desde 2019 e envolveram ao menos quatro vítimas, com idades entre 10 e 16 anos à época dos abusos. Todos os casos envolvem adolescentes do sexo masculino.

Gabriel atuava como líder de um “ministério da sexualidade”, área responsável por orientar jovens sobre educação sexual. Segundo a Polícia Civil, ele utilizava essa posição para conquistar a confiança das vítimas e cometer abusos de forma recorrente e premeditada.

“Festas do pijama”

Os relatos indicam que os crimes ocorreram tanto nas dependências da igreja quanto na residência do acusado. Em alguns casos, ele organizava atividades como “festas do pijama” ou convidava adolescentes para assistir filmes como forma de aproximação.

As investigações revelaram um padrão de manipulação psicológica e seleção gradual das vítimas. O suspeito criava vínculos com um jovem por vez, cometia os abusos e, após o afastamento da vítima, passava a agir com outro adolescente.

O caso também levanta questionamentos sobre a postura da liderança da igreja diante das denúncias. Quando tomou conhecimento de um dos episódios, o então presidente classificou o ocorrido como “brincadeira” e “ato involuntário”, pedindo silêncio à família da vítima.

“Operação abafa”

Em reunião de liderança, um diácono teria minimizado os fatos como “mal-entendidos” e sugerido que o caso fosse tratado internamente, sem envolvimento das autoridades, em uma possível tentativa de obstrução.

Mesmo após o afastamento formal, o acusado continuou frequentando cultos e tendo acesso a áreas restritas da igreja.

Há ainda relatos de intimidação por parte de familiares do investigado, incluindo abordagens a menores sem a presença dos pais e ameaças de processos contra as famílias das vítimas.

Cenário aterrador

O relatório financeiro e os desdobramentos criminais revelam uma crise profunda que vai além das questões econômicas. Para membros da comissão que conduziu a auditoria, o cenário é “aterrador” e exige mudanças estruturais urgentes na gestão e na governança da instituição religiosa.

A combinação de colapso financeiro, denúncias graves e falhas institucionais coloca a Igreja Batista Filadélfia no centro de uma das mais delicadas crises já enfrentadas por uma organização religiosa no Distrito Federal.

Outro lado

Em nota, Marcos Antônio Santos Campos justificou que “nenhuma decisão financeira relevante [dentro da igreja] foi tomada unilateralmente”. “As contas da Igreja são apresentadas à Assembleia Geral.”

De acordo com ele, os membros da assembleia teriam conhecimento de impostos que deixaram de ser pagos na pandemia e da nova crise financeira na igreja no exercício de 2025. “Nossa arrecadação, que vinha em recuperação, sofreu novo baque. O Gerente Administrativo voltou a enfrentar dificuldades para honrar compromissos”, disse.

Marcos disse ter sido “bem remunerado pela igreja ao longo de todos os anos – porque isso é justo e correto”. “Minha remuneração foi sempre reajustada com aprovação do Corpo Diaconal e referendo da Assembleia Geral, conforme exige o próprio Regimento Interno”. Mas alegou que não recebe remuneração da igreja desde janeiro de 2026.

Sobre o afastamento, ele disse não ter sido, mas jubilado da igreja. De acordo com ele, a decisão foi tomada por orientação jurídica e eclesiástica para “preservar a instituição” após a situação envolvendo o filho dele.

“Depois de tudo o que aconteceu, entendi que não tinha mais condições emocionais e pastorais de continuar à frente da Igreja que amei e servi por quase um quarto de século. Voluntariamente, pedi meu jubilamento” afirmou.

 

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