
Rodrigo Tavares Raposo, um jovem militar, foi morto a tiros em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, enquanto dançava e se divertia com o irmão Thiago na porta de casa.
O crime aconteceu em 2015, quando Rodrigo tinha 18 anos de idade. Nívia Raposo, a mãe, teve a vida transformada.
“Em maio, nós ficamos mais vulneráveis“, disse ela.
Nívia conta que: “Um miliciano da região acusou meu filho de estar roubando. Meu filho era conhecido por todos no bairro, nem se ele quisesse fazer isso, ele conseguiria. E ele falou isso para o cara que acusou ele. O cara, então, pediu que meu filho desse dinheiro para ele, que roubasse para isso. Meu filho disse que no quartel nem ganhava o suficiente para dar esse dinheiro para alguém e que não iria roubar ninguém”.
Dias depois, Rodrigo foi morto a tiros enquanto dançava e se divertia com o irmão Thiago na porta de casa.
“Eu estava na minha mãe, que é perto de onde eles estavam. Quando recebi a notícia, fui correndo. Chegando perto, vi um rapaz parecido, de costas, me deu um alívio. Mas não era meu filho. Meu filho estava lá, baleado, com tiro nas costas“, lembra a mãe.
Foi no enterro de Rodrigo que Lívia teve um despertar: “Tinha muita gente sofrendo pelo meu filho. Ali, eu percebei que meu filho não era só meu. E que eu tinha que lutar por justiça por ele e por outros. Nunca pensei que isso aconteceria, mas meu filho virou meu ancestral. Eu fui criada em terreiro e entendi isso naquele momento”.
No velório, freiras de uma igreja local que sempre falavam com Rodrigo por vê-lo com um crucifixo e também por conta do cuidado do rapaz com os girassóis plantados pela família, alertaram Nívia a procurar o Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu.
A partir desse movimento e das pessoas que encontrou na caminhada, Nívia fundou o Movimento de Mães e Familiares de Vítimas da Violência Letal do Estado e Desaparecidos Forçados (MMFVVLEDF). Historiadora, ela também se tornou pesquisadora social do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF-Unifesp) com projetos voltados para saúde mental, memória e políticas públicas de reparação e ecofeminista.
Além disso, é integrante do Fórum Municipal de Mulheres Negras de Nova Iguaçu (RJ), e participante assídua na Marcha das Mulheres Negras em Copacabana (RJ).
“Eu falo que a morte do Rodrigo foi como uma bomba de Hiroshima, Nagasaki, na região. Era uma área onde moravam muitos militares, bem militarizada, que ficou milicianizada. Eu faço essa comparação com a bomba porque depois disso, muita gente morreu, adoeceu, jovens foram para as drogas. Essa injustiça abalou toda a comunidade. Por isso que eu estou aqui, na luta, ajudando outras pessoas a não passarem o que eu passei. Eu continuo cuidado dos girassóis, do jeito que meu filho Rodrigo gostava de cuidar”.
Deize Carvalho, a primeira da esquerda para a direita/ Arquivo pessoal
“Eu não comemoro mais o dia das mães. Estou congelada no tempo, nem chorar eu choro mais“, afirma Deize Carvalho, mãe de Andreu, de 17 anos, morto na véspera da virada do ano de 2007 para 2008.
O jovem foi tomar um banho de mar no Arpoador, na Zona Sul da cidade do Rio, feliz com o novo emprego de garçom que tinha conquistado e com o noivado marcado para os primeiros dias de 2008. Mas, na saída da praia, foi abordado e acusado por policiais de ter roubado o celular de um turista.
Apreendido, Andreu morreu na noite de réveillon, em circunstâncias que apontam tortura, após ser levado para o Centro de Triagem do Degase, órgão responsável por recuperar jovens infratores, na Ilha do Governador, na Zona Norte da cidade. Dias depois, um outro rapaz foi preso e confessou o crime.
“O meu filho não era santo. Ele já havia cometido infrações e sido preso. Mas não existe pena de morte no Brasil. Essas apreensões são para ressocializar, não para matar como foi com meu filho“, destaca a mãe que continua: “A história do meu filho é de muitas violências. Desde o parto, que era para ter sido cesárea, mas fizeram normal, mesmo ele sendo muito grande. Meu filho começou a roubar porque dizia que queria juntar dinheiro para conhecer o pai, que mora nos Estados Unidos. Ele tinha delírios psicológicos de que tinha encontrado com o pai quando tinha 10 anos de idade, mas o último contato do Andreu com o pai foi quando ele tinha só três anos. A nossa história é uma história de pessoas que são desumanizadas pelo Estado. A vida do Andreu foi toda de muitas violências, por mais que eu lutasse para que ele encontrasse outros caminhos, mas o sistema é falho demais. Eu tive que pegar comida do lixo muitas e muitas vezes para me alimentar e alimentar meu filho. E meu filho não morreu por uma bactéria, uma doença, morreu porque foi espancado dentro de uma unidade que deveria trabalhar para ressocializar jovens”.
De acordo com o atestado de óbito, Andreu foi vítima da hemorragia, de traumatismo craniano e de contusões pelo corpo. Dezoito anos depois, as audiências na Justiça ainda não chegaram a uma conclusão sobre a morte do rapaz. Denunciados por homicídio doloso, com intenção de matar, os seis agentes ainda não foram julgados, seguem livres e trabalhando como sócio educadores.
“Familiares meus só conseguiram ver o corpo no IML porque um cunhado meu trabalhava em um prédio onde morava um desembargador que fez pressão para que isso acontecesse. Eu não consegui ver o corpo do meu filho, mas quem viu disse que é uma imagem que nunca vai ser esquecida”, revela Deize.
Deize agora é fundadora do Núcleo de Mães Vítimas da Violência e militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. Formou-se em direito pela Universidade Cândido Mendes em 2020 para ajudar outras vítimas.
“Quando fui registrar meu filho, no cartório colocaram cor indefinida. Eu sou uma mulher preta retinta, meu filho não era. Me disseram lá que filhote de urubu não tem cor. São muitas violências. Eu só vou descansar quando tiver justiça pelo meu filho. O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, tem a mesma idade que meu filho teria. Isso é muito simbólico. Quando eu vi a ossada do meu filho na exumação, eu pensei que não poderia mais parar. Nem por ele, nem por outros”.






