Rio de Janeiro

Lagoa Rodrigo de Freitas muda de cara e vira polo de balada, samba e bem-estar no Rio

Quiosques profissionalizados criam uma nova dinâmica de uso do espaço, com públicos distintos conforme o dia e o horário. De um lado, festas e filas de carros; do outro, esporte, café da manhã e vida ao ar livre

Por Renata Granchi

Toda sexta-feira à noite é a mesma cena. Quem passa pela Lagoa Rodrigo de Freitas, na altura do Parque dos Patins, encontra uma fila de carros em ritmo de desembarque: jovens na casa dos 20 anos chegam em grupos, animados, prontos para começar a noite. No sábado, o roteiro se repete, mas com um público um pouco mais velho, entre 25 e 30. Já no domingo, a paisagem muda – e também a faixa etária. É a vez dos 40+, que ocupam mesas, circulam com mais calma e transformam o entorno em um grande ponto de encontro ao ar livre.

Durante anos, a Lagoa foi um cartão-postal subutilizado quando o assunto era gastronomia e entretenimento. Agora, vive uma revitalização silenciosa, porém consistente, impulsionada por empresários que passaram a enxergar o espaço não como quiosques improvisados, mas como operações profissionais, com curadoria musical, estrutura fixa e estratégia de negócio. O resultado é uma Lagoa com múltiplas personalidades – e histórias bem diferentes dependendo do lado da pista.

O lado da noite: Parque dos Patins

O epicentro dessa virada está no trecho próximo ao Parque dos Patins. Ali, a noite ganhou protagonismo com quiosques que mais parecem pequenas casas de show. O Grupo Levels, liderado por jovens empresários formados na PUC-Rio – Igor Monteiro, Lucas Machado, Eduardo Lobarinhas e Pedro Ramalho – apostou alto na região e mudou o padrão do jogo.

“Investir na região é reafirmar nossa missão de conectar pessoas e lugares, transformando a cidade em um palco de experiências”, diz Pedro Ramalho, sócio e cofundador do grupo. “Cada projeto reflete nossa visão de gerar impacto positivo, contribuindo para que a Lagoa volte a pulsar como ponto de encontro seguro, vibrante e multifuncional.”

O Caza Lagoa é o símbolo dessa nova fase. Sucesso entre os jovens da elite carioca, o quiosque lota de sexta a domingo. O figurino ajuda a identificar o público: tênis ou sandália baixa, pouca maquiagem, minissaia entre as meninas; jeans e camiseta preta ou branca entre os rapazes. A maioria vem do Leblon, Ipanema e Barra da Tijuca. Com DJs e shows pontuais – nomes como Naldo, MC Koringa e Ferrugem – os ingressos costumam esgotar antecipadamente.

Ao lado do Caza, dois outros quiosques ampliam o leque. Aldeia e Parque Bar atraem a mesma faixa etária, mas com um público mais diverso, que inclui jovens do Méier, Botafogo e Tijuca. Mulheres que chegam cedo não pagam entrada, o que faz a fila começar por volta das 21h. Quem compra ingresso antecipado costuma aparecer mais tarde, perto das 23h.

Débora Cunha, 24 anos, mestranda em administração pública e moradora do Méier, chegou ao Parque Bar às 21h30 na ultima sexta-feira, dia 16. “Vim cedo para não pagar, mas soube que teria um show legal no Caza, do Naldo, e resolvi mudar de quiosque às 23h. Paguei ingresso, mas faz parte”, conta.

Já Bruna Guerra, 21, estudante de administração, Tainá de Souza, 20, de medicina, e Manuela Macedo, 19, de psicologia, todas da Barra, são presença frequente no Caza às sextas. “Gosto dos drinks”, resume Bruna, que destaca o encontro de amigos e a música como principais atrativos. Lucas Guimarães, 20, do Leblon, foi para paquerar, mas acabou dançando e bebendo com amigos do colégio.

Os valores de entrada ajudam a segmentar o público. Para entrar numa dessas baladas, o cliente desembolsa entre R$ 60 e R$ 200 pelos ingressos. Desconto, só se tiver na “lista amiga”.

Domingo é outro clima

Quando a semana vira, o perfil muda. O BBQ Lagoa, também do Grupo Levels, atrai um público mais velho e transforma o domingo em uma grande roda de samba. A entrada é gratuita, e o clima começa cedo, a partir das 17h.

“Abrimos o Caza em abril de 2025 e o BBQ em junho do mesmo ano”, explica Pedro Ramalho. “Temos um mailing com cerca de cem mil nomes e uma equipe de RPs muito forte. Isso garante cerca de mil pessoas às sextas e sábados no Caza. No BBQ, são cerca de 400 pessoas todo domingo.” Segundo o grupo, a expectativa é de crescimento de 30% em 2026, impulsionada por novos investimentos.

“Só em 2025, investimos mais de R$ 1 milhão nesses projetos”, diz Ramalho. “É acreditar no retorno financeiro, mas também entender que estamos investindo no Rio.”

O outro lado da Lagoa: bem-estar e vida diurna

Aula Funcional no Quiosque Vidah, na Lagoa (Foto: Divulgação)

Se no Parque dos Patins a Lagoa vibra à noite, do lado oposto – na altura do píer dos pedalinhos, mais próximo de Ipanema e do corte do Cantagalo – o ritmo é outro. Ali, o protagonismo é da vida diurna, do esporte e do wellness. O público é formado por famílias, solteiros e pessoas 30+, que buscam saúde, rotina ao ar livre e encontros à luz do dia.

O quiosque Vidah tornou-se o símbolo dessa ocupação qualificada. Mais do que um endereço gastronômico – a cozinha contemporânea e afetiva é um capítulo à parte – o espaço funciona como base para atividades físicas que começam cedo e terminam em longos cafés da manhã coletivos.

Há aulas de funcional e yoga nas manhãs de sábado, grupos de corrida às terças, quintas e sábados às 6h30, além de canoagem às 7h e às 17h por agendamento com a simpática professora Maria Fernanda. Professores também podem marcar aulas de ginástica, com direito a tapete de grama sintética e estrutura de apoio, incluindo banheiros. Depois do treino, ninguém vai embora: todos se sentam à mesa. Sextas, sábados e domingos concentram o maior movimento, com cerca de 200 pessoas pela manhã.

“Queremos que o Vidah seja um espaço onde as pessoas vivam bons momentos – seja depois de uma corrida, num café da manhã de domingo ou num jantar especial à beira da Lagoa”, afirma Edson Bregolato, sócio do espaço. “Cuidamos de cada detalhe, do cardápio à ambientação, para oferecer uma experiência que é a cara do Rio.”

Uma lagoa, muitas histórias

A Lagoa Rodrigo de Freitas segue a mesma, mas já não é igual. De um lado, balada, fila de carros, DJs e ingressos disputados. Do outro, tênis de corrida, tapetes de yoga, canoas na água e café da manhã coletivo. Entre a noite e o dia, o que muda é o público, e o horário. O que permanece é a sensação de que, depois de anos à margem do próprio potencial, a Lagoa voltou a ser vivida. E, desta vez, com método, investimento e identidade.

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