A corrida eleitoral suplementar pela Prefeitura de Itaguaí chega à sua reta final sob forte tensão política, indefinições jurídicas e graves apurações policiais e eleitorais. Em um município marcado por instabilidades na gestão pública, a disputa pelo Poder Executivo local coloca sob os holofotes do Poder Judiciário e dos órgãos de fiscalização nomes centrais do pleito, enquanto eleitores acompanham um cenário de incertezas que se arrasta até os tribunais.
A realização de eleições suplementares na cidade acontece após sucessivos imbróglios jurídicos e cassações que resultaram no afastamento do prefeito eleito, Dr. Rubão. O impasse prolongado transferiu interinamente o comando do Poder Executivo para o presidente da Câmara Municipal, Haroldinho Jesus (PDT). No entanto, a rotina administrativa de Itaguaí continuou vinculada a desdobramentos de processos judiciais.
Gestão interina entra na mira da Draco por contratos de R$ 130 milhões
No centro do debate político e administrativo está o presidente da Câmara Municipal e atual prefeito interino de Itaguaí, Haroldo Rodrigues Jesus Neto, conhecido como Haroldinho, postulante oficial pelo PDT. Sua passagem pelo comando provisório da prefeitura tornou-se alvo direto do procedimento investigatório nº 405-00076/2025, instaurado pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE).
A apuração policial mira uma série de contratos firmados com dispensa de licitação e valores que ultrapassam a marca de R$ 130 milhões autorizados em curto período de gestão municipal. A Polícia Civil apura eventuais irregularidades administrativas, favorecimentos e suspeitas de superfaturamento em contratações emergenciais celebradas sem concorrência pública.

Entre as contratações sob investigação, figura o acordo de R$ 31,5 milhões firmado com o Consórcio Intermunicipal Multifinalitário dos Municípios do Extremo Sul de Minas Gerais (Cimesmi) para locação de máquinas e equipamentos. Também está no radar da apuração o contrato de R$ 25.028.165,95 assinado com a FGC Pavimentação e Construção Civil para serviços de limpeza urbana, além do compromisso de R$ 23,7 milhões com a empresa Conceito Serviços Terceirizados pelo prazo de 12 meses. Completa o rol de acordos apurados a dispensa aprovada no valor de R$ 19,9 milhões com a MRC Entretenimento Promoções e Eventos pela Secretaria Municipal de Eventos.
A apuração da delegacia especializada foca na verificação da legalidade e da efetiva necessidade dessas contratações expressivas realizadas pela administração interina. Além dos contratos milionários, os primeiros meses da gestão provisória foram acompanhados por polêmicas referentes à criação de novas secretarias e a nomeações de parentes do gestor em cargos de primeiro escalão.
GASTOS SEM CONCORRÊNCIA PÚBLICA
Durante sua gestão provisória, entre 1º de janeiro e 18 de junho de 2025, Haroldinho assinou compromissos que ultrapassam R$ 130 milhões sem abertura de licitação. Em 30 de abril, o Diário Oficial publicou o vínculo com a empresa Conceito Serviços Técnicos, sediada em Manaus, para fornecimento de mão de obra ao município por um período de 12 meses, ao custo de R$ 23,7 milhões.
Na mesma edição, foi formalizada a contratação da CB News Comercial, de São Paulo, no valor de R$ 9,8 milhões, para entrega de uniformes escolares.
Em publicação de 16 de abril, aparece o acordo firmado pela Secretaria de Saúde com o Consórcio Femar Conservação, no montante de R$ 15,7 milhões, visando à execução de serviços contínuos de engenharia e apoio operacional nas unidades de saúde, também por 12 meses.
A Secretaria de Obras e Urbanismo figura como responsável por dois acordos sem licitação que, juntos, atingem R$ 56,5 milhões. Além do contrato de R$ 25,08 milhões com a FGC, foi celebrado, em 26 de fevereiro, outro compromisso de R$ 31,5 milhões com o Consórcio Intermunicipal Multifinalitário dos Municípios do Extremo Sul de Minas Gerais (Cimesmi), para locação de maquinário e equipamentos.
No Diário Oficial do município publicado em 16 de junho, dois dias antes de deixar o cargo de ordenador de despesas, Haroldinho ainda autorizou o repasse de R$ 19,9 milhões à MRC Entretenimento Promoções e Eventos Ltda, para serviços de montagem de estruturas como palcos, lonas, iluminação e som. O termo de dispensa foi emitido pela Secretaria Municipal de Eventos.
Já na edição de 6 de junho, foram registradas três dispensas de licitação para aquisição de alimentos, nos valores de R$ 1,05 milhão, R$ 2,1 milhões e R$ 1,3 milhão, sob responsabilidade da Secretaria de Assistência Social.

Entidade social e emendas parlamentares na mira do Ministério Público
Outra frente de apuração atinge a candidatura de Kelaine Goulart (NOVO) que enfrenta questionamentos perante os órgãos de fiscalização eleitoral e o Ministério Público Federal. O Ministério Público Eleitoral ingressou com representação contra a candidata por suposta conduta vedada, apurando a utilização do Instituto Casa do Pai, entidade social fundada por ela e por seu marido, para promover atos de campanha e divulgação de propaganda eleitoral.
Paralelamente, o Ministério Público Federal instaurou apuração para verificar o uso de emendas parlamentares destinadas à organização não governamental. As denúncias sob análise envolvem suspeitas sobre projetos não executados, indícios de superfaturamento e contratação de empresa prestadora de serviços associada a parentes e funcionando em imóveis registrados em nome da própria candidata.
O cenário de Kelaine Goulart torna-se ainda mais delicado diante de decisões do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro e do Tribunal Superior Eleitoral, que indeferiram o registro de sua candidatura e negaram pedidos liminares para reverter a impugnação antes da votação.
Candidatura indeferida e desistência do recurso por Dr. Helinho
A corrida suplementar também registrou baixas definitivas entre os candidatos. Hélio Cristóvão de Carvalho da Silva, o Dr. Helinho (PRD), teve o registro de sua candidatura e de seu vice indeferido pela Justiça Eleitoral. O indeferimento ocorreu em razão da rejeição do registro da federação partidária, acolhendo manifestação apresentada pelo Ministério Público Eleitoral.
Diferente de outros nomes que optaram por travar longas disputas judiciais para manter suas campanhas ativas, Dr. Helinho anunciou publicamente a decisão de não recorrer da decisão da Justiça Eleitoral. O médico declarou que a opção por não judicializar o pleito buscou evitar a manutenção da instabilidade política vivenciada pela população de Itaguaí em gestões passadas, adotando uma posição de neutralidade e projetando atuação em futuros pleitos.
DIREITO DE RESPOSTA
O jornal mantém o espaço aberto para que todos os candidatos, gestores públicos, empresas privadas e entidades sociais mencionados nesta matéria apresentem suas manifestações e esclarecimentos formais sobre os inquéritos, representações eleitorais e decisões judiciais citados.





