História

Em 1945, desaparecimento de aeronaves alimentou lenda do Triângulo das Bermudas

Desaparecimento do Voo 19, ocorrido há 80 anos, alimentou uma série de teorias da conspiração, entre elas o do Triângulo das Bermudas

Por Giovanna Gomes – https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/desventuras/em-1945-desaparecimento-de-aeronaves-alimentou-lenda-do-triangulo-das-bermudas.phtml

 

“Eu não sei onde estamos”, disse uma voz em transmissão de rádio na tarde de 5 de dezembro de 1945. “Devemos ter nos perdido depois daquela última curva.” A fala que marcou o início de um dos episódios mais enigmáticos da história da aviação foi o primeiro sinal de que o Voo 19 — cinco bombardeiros torpedeiros da Marinha dos EUA em um treinamento na costa da Flórida — estava em sérios apuros.

Ao longo daquela tarde, as transmissões dos pilotos ficaram mais fracas enquanto o combustível diminuía. Os homens, entre os quais estavam aviadores navais e fuzileiros, por sua vez tentavam desesperadamente se orientar. A base em Fort Lauderdale até chegou a enviar dois aviões de resgate, mas um deles também desapareceu minutos depois da decolagem. No total, seis aeronaves e 27 homens sumiram sem deixar vestígios.

Teorias da conspiração

desaparecimento do Voo 19 rapidamente se tornou um terreno fértil para teorias. Alienígenas, portais dimensionais, tempestades invisíveis, o retorno da Atlântida, erupções submarinas de metano: tudo isso já foi levantado como possível causa. Décadas mais tarde, as aeronaves do esquadrão apareceriam até em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg, e em episódios de Scooby-Doo. A realidade, porém, é bem menos fantástica.

De acordo com a revista Smithsonian, o líder do voo, o tenente Charles Carroll Taylor, um piloto experiente de 28 anos, relatou por rádio que suas bússolas haviam parado de funcionar. Ele acreditava estar sobre as Florida Keys, no extremo sul do estado, embora tecnicamente fosse impossível que o esquadrão tivesse voado tão longe tão rápido. Os operadores de rádio tentaram guiá-lo dizendo que seguisse para o oeste, “em direção ao sol”, mas o volume caótico de transmissões dificultava entender o que chegava ao piloto. No fim, ao invés de retornar à costa, Taylor levou o grupo para norte e depois para leste, rumo ao Atlântico aberto.

Quando finalmente conseguiram estimar a posição do voo, por volta das 18h, os operadores concluíram que ele estava a nordeste das Bahamas — ironicamente, não muito longe da costa da Flórida. Mas a essa altura o Voo 19 já não conseguia receber instruções. Às 19h04 veio a última transmissão conhecida. Depois disso, apenas o silêncio. A Marinha concluiu que os aviões provavelmente ficaram sem combustível e caíram no mar, onde o estado das ondas dificultaria qualquer pouso de emergência.

Walter Reed Parpart Jr. (à direita), o radiotelegrafista de um dos aviões desaparecidos, posa em frente a uma placa de Fort Lauderdale em 1945 – Crédito: Cortesia do Museu da Estação Aérea Naval de Fort Lauderdale

Uma nova tragédia

A tragédia ganhou proporções ainda mais sombrias quando um dos aviões de resgate enviados — um Martin PBM-5 Mariner com 13 homens a bordo — também desapareceu após uma explosão avistada por um navio. O caso ganhou destaque nacional, e a busca, que durou cinco dias e envolveu mais de 200 aeronaves, terminou sem encontrar nada. Para a opinião pública, aquilo só podia significar uma coisa: algo inexplicável estava acontecendo naquela parcela do oceano.

Nos meses seguintes, as investigações militares se concentraram na desorientação de Taylor. A mãe do piloto, Katherine Taylor, contestou ferozmente a versão oficial, alegando falhas na comunicação e decisões equivocadas por parte da Marinha. Sua campanha incansável, porém, acabou apenas reforçando uma percepção pública de que havia “algo a esconder”, alimentando ainda mais o mistério. Em 1947, pressionada, a Marinha alterou o relatório final para uma conclusão vaga: “causas desconhecidas”.

A soma de uma série de fatores, como falhas operacionais, problemas de comunicação, além da completa ausência de evidências físicas, serviu de combustível perfeito para a imaginação popular. Em 1950, uma reportagem da Associated Press insinuou que o voo havia desaparecido sem qualquer mensagem de rádio, o que era falso, mas pouco importava. A narrativa do enigma estava formada.

Triângulo das Bermudas

O golpe final veio em 1964, quando o escritor Vincent Gaddis publicou na revista Argosy o artigo “O Mortal Triângulo das Bermudas”. A obra foi a primeira a popularizar o termo, que passou a designar uma vasta área do Atlântico Norte, com algo entre 500 mil e 1,5 milhão de milhas quadradas, estendendo-se da costa leste da Flórida até Bermuda e as Grandes Antilhas. No entanto, muito antes de Gaddis, aquela região já carregava uma reputação temível entre marinheiros de séculos anteriores, que a atravessavam enfrentando mares instáveis, tempestades repentinas e a rota furiosa da Corrente do Golfo, tudo isso sem o amparo de previsões meteorológicas confiáveis.

Com o tempo, o rótulo “Triângulo das Bermudas” se enraizou no imaginário coletivo e passou a ser aplicado retroativamente a desaparecimentos ocorridos dentro do perímetro, como o do USS Cyclops, navio de transporte da Primeira Guerra Mundial que sumiu em 1918 com 306 tripulantes após enviar uma mensagem que dizia: “Tempo agradável. Tudo bem.”

A história do Voo 19 ocupava posição central no argumento: navios e aviões desapareciam ali havia décadas, mas nunca algo tão dramático quanto um esquadrão inteiro sumindo sem deixar rastro. Daí em diante, livros, filmes, documentários e músicas passariam a explorar o tema do  Triângulo das Bermudas (ainda que a maior parte das alegações fosse facilmente refutável).

Hoje, organismos como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) insistem: não há nada de especial na região. Tempestades tropicais, correntes imprevisíveis, navegação difícil e intenso tráfego marítimo explicam a maior parte dos acidentes. No caso do Voo 19, as hipóteses mais plausíveis permanecem sendo as originais: desorientação espacial, erro de navegação, defeito no equipamento e um mar revolto que teria apagado rapidamente qualquer evidência.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.

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