
Para marcar o Dia Internacional da Amazônia, celebrado no dia 5 de setembro, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) destaca a conexão entre o jornalismo local e a cobertura ambiental na região. Jornalistas da região amazônica relataram à RSF os severos desafios que enfrentam diariamente, ameaçando o direito da sociedade à informação sobre questões cruciais em uma área que está no epicentro do debate climático global. Garantir a proteção e a sustentabilidade do jornalismo na Amazônia deve ser um dos compromissos multilaterais ligados à proteção ambiental, especialmente no contexto da COP 30.
À medida que a COP 30 se aproxima — que acontecerá no coração da Amazônia —, é mais urgente do que nunca que os governos da região façam da proteção da informação um pilar fundamental da luta contra a mudança climática. Após anos de monitoramento do tema, a RSF apresenta um panorama do ambiente de trabalho de alto risco e de grande complexidade enfrentado por jornalistas amazônicos, que dificulta informar a sociedade sobre o que acontece na floresta ameaçada.
“A COP 30 está próxima e a comunidade internacional deve reconhecer que a segurança dos jornalistas amazônicos e a sustentabilidade dos meios locais são compromissos climáticos vitais. Sem jornalismo independente, não há monitoramento eficaz das políticas ambientais nem transparência sobre os impactos da crise. Fortalecer o jornalismo na Amazônia deve fazer parte da agenda multilateral sobre clima e meio ambiente.
A RSF identificou que os desafios enfrentados pelos jornalistas na Amazônia podem ser agrupados em três categorias:
- violência direta contra jornalistas — sob a forma de ameaças, agressões e processos judiciais;
- precariedade estrutural e falta de recursos que afetam rádios comunitárias, jornais locais e redes de mídia indígena, criando desigualdade de cobertura e enfraquecendo a independência editorial;
- a disseminação de desinformação, que explora essas fragilidades para confundir populações locais e a sociedade em geral.
Violência e intimidação: do rio aos tribunais
Na Amazônia, reportar muitas vezes começa por cruzar um rio. Durante a viagem, jornalistas frequentemente precisam passar por pontos de controle armados, que envolvem revistas em celulares e vigilância constante. Essa intimidação restringe a cobertura em regiões de fronteira e comunidades ribeirinhas. No Brasil, uma missão da RSF com organizações parceiras ao Vale do Javari, no estado do Amazonas, realizada entre 4 e 7 de agosto de 2025, observou progressos em medidas de proteção, mas manteve o alerta: como não há estradas, as rotas fluviais continuam sendo os principais caminhos para jornalistas e guias indígenas.
No relatório “Amazônia: Jornalismo em Chamas” (2023), a RSF documentou 66 casos de ataques contra jornalistas na Amazônia brasileira entre julho de 2022 e julho de 2023, confirmando que a região está entre as mais perigosas do país para a imprensa. O assassinato brutal do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira, em junho de 2022, e a impunidade persistente são um lembrete contundente dos riscos letais enfrentados por quem cobre os conflitos da floresta e da falta de salvaguardas para deter esses ataques.
Essa não é uma realidade exclusiva do Brasil — as ameaças estão disseminadas por toda a Amazônia. No Peru, o jornalista ambiental Manuel Calloquispe recebeu ameaças de morte em 28 de agosto de 2025, após investigar a cidade mineradora ilegal La Pampa. Na Colômbia, o radialista Gustavo Chicangana, da estação de rádio Guaviare Estéreo, sobreviveu a um atentado a tiros em 5 de julho de 2025, em San José del Guaviare. No Equador, o jornalista Jefferson Santos, do canal Portada TV, denunciou uma tentativa de assassinato dentro de sua redação em Puyo, em 18 de março de 2025.
Na Bolívia, o caso Las Londras — sequestro e tortura de seis jornalistas em 2021, na província de Guarayos — continua paralisado após a suspensão de uma audiência marcada para 5 de agosto de 2025.
Sustentabilidade da mídia: uma base que está afundando
Na Amazônia, a sobrevivência dos meios locais é comprometida pela instabilidade financeira. Na Colômbia, Miller Burgos, diretor da rádio Radio Waira 104.7 FM, mantém a independência editorial recusando publicidade de empresas de agroquímicos, mas os altos custos para alcançar comunidades ribeirinhas tornam a cobertura onerosa. No Peru, a jornalista Yvette Sierra Praeli, da Mongabay Latam, explicou como pequenos meios — muitos restritos às redes sociais — dependem de financiamentos esporádicos para cobrir áreas extensas. O jornalista Nailson Carlos Rodrigues Tenazor, do portal brasileiro Jambo Verde, contou à RSF que “muitos fazem comunicação tirando dinheiro do próprio bolso.”
O cenário se repete em outros países. No Equador, rádios locais operam com equipamentos mínimos e sem apoio financeiro plurianual, limitando tanto seu alcance quanto sua capacidade de verificar informações. A jornalista Edilma Prada, do meio digital Agenda Propia, alertou que quando profissionais de fora da Amazônia chegam, muitas vezes acabam marginalizando o jornalismo local ao impor suas próprias narrativas, enquanto a cooperação internacional nem sempre fortalece os veículos já enraizados no território. Essa situação ameaça não apenas a continuidade do jornalismo amazônico, mas também a capacidade da sociedade de acompanhar de perto os impactos da crise climática em uma das regiões mais estratégicas do planeta para a proteção ambiental.
Desinformação climática
A desinformação sobre e na Amazônia frequentemente tem fontes identificáveis, canais específicos e efeitos concretos. Muitas vezes está ligada a esforços para silenciar críticas a projetos industriais e restringir vozes independentes.
Miller Burgos relatou à RSF que empresas extrativistas colombianas pagam transmissões em pequenos meios locais e páginas de redes sociais para difundir coletivas de imprensa roteirizadas — sem perguntas nem respostas — que são apresentadas como “notícia”. No Brasil, começaram a circular nas redes sociais dos estados de Roraima e Pará narrativas que apresentam o garimpo ilegal como “desenvolvimento” e minimizam a gravidade da contaminação por mercúrio nos rios da região.
As lacunas editoriais agravam o problema. Segundo Edilma Prada, muitas redações na Colômbia continuam restritas a temas recorrentes — conflito, narcotráfico, mineração — sem explicar por que os povos amazônicos reivindicam mais território ou a base legal de seus direitos. Essa omissão alimenta narrativas que apresentam as comunidades como “obstáculos”, ao mesmo tempo em que apagam a destruição ambiental que devasta suas vidas. Para José Fernando López, coordenador geral da Associação Latino-Americana de Educação e Comunicação Popular (ALER), a Amazônia muitas vezes fica fora do radar da grande imprensa, deixando redes comunitárias como contrapeso, apesar de seus recursos limitados. O resultado é um público mal informado, menor responsabilização e maiores riscos para os que informam a partir do território.




