
A região Sul do Brasil é uma das mais prolíficas na América do Latina quando o assunto é a descoberta de fósseis que recontam como era a vida na Terra durante a pré-história. Entre um dos mais recentes achados nesta seara está o réptil Tainrakuasuchus bellator, um animal carnívoro que era um dos predadores existentes no planeta há 240 milhões de anos – e cuja aparência “lembra” a de um dinossauro.
Os ossos preservados do Tainrakuasuchus foram encontrados pelo paleontólogo Rodrigo Temp Müller e seus alunos, todos pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O achado de maio de 2025 se deu a partir da escavação de uma obra que expôs uma rocha com o material. “Esse tipo de situação ocorre com certa frequência aqui no Rio Grande do Sul e o que a gente faz é ir nos locais para verificar se pode haver algo relevante”, explica Temp Müller.
O material estava em um sítio fossilífero no município de Dona Francisca, na região central do estado. “Depois que identificamos os primeiros elementos no sítio, realizamos uma varredura minuciosa que revelou o restante dos fósseis descritos”, afirma Temp Müller. Foi encontrado, então, um esqueleto parcial do réptil, com partes preservadas da mandíbula, da coluna vertebral e da cintura pélvica.
A descoberta também acaba de ser descrita oficialmente no periódico científico “Journal of Systematic Palaeontology”, que pertence ao Museu de História Natural de Londres.

Os ossos do réptil pré-histórico Tainrakuasuchus bellator encontrados em uma rocha em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul. (foto de divulgação).

O paleontólogo Rodrigo Temp Müller lidera o time de pesquisadores que encontraram os ossos fossilizados do réptil Tainrakuasuchus bellator no interior do Rio Grande do Sul.
Como era o réptil pré-histórico que acaba de ser descoberto no sul do Brasil
De acordo com o paleontólogo, o Tainrakuasuchus bellator possuía uma mandíbula delgada, o que “reforça a hipótese de que fosse um caçador ágil, capaz de realizar movimentos rápidos e precisos para agarrar suas presas”, diz a fonte. Estima-se que ele podia pesar cerca de 60 kg e ter 2,5 metros de altura.
Ainda segundo o pesquisador, o réptil pré-histórico possuía um pescoço “relativamente longo em relação ao seu porte”, além de um dorso revestido por placas ósseas conhecidas como osteodermos – “estruturas que funcionam como uma espécie de armadura natural e também presentes em jacarés e crocodilos modernos”, afirma.
“Depois que coletamos os fósseis e os levamos para o nosso centro de pesquisa, comecei o trabalho de preparação em laboratório”, indica Rodrigo. “Nessa etapa, o fóssil passou por banhos em soluções com ácido e preparação com marteletes pneumáticos para que a rocha que o envolvia fosse removida”, detalha.
Em seguida, os pesquisadores compararam as características de cada elemento ósseo com outros fósseis e foi assim que constataram “que se tratava de algo novo”, diz Temp Müller. O passo seguinte foi encaixar a descoberta na árvore evolutiva dos répteis. Os pesquisadores também estimam que, provavelmente, este era um animal quadrúpede, “já que seus parentes próximos se deslocavam apoiados nas quatro patas”.
O documento divulgado por Rodrigo explica ainda que o nome Tainrakuasuchus bellator dado ao réptil é oriundo da junção de duas palavras em guarani – tain, que significa “dente”, e rakua, que se refere à “pontudo” – unidas à palavra grega suchus (que é crocodilo). Já o epíteto de origem latina bellator significa “guerreiro” ou “lutador”, e segundo o paleontólogo trata-se de uma homenagem ao povo do Rio Grande do Sul.

Um gráfico mostra o esqueleto do réptil Tainrakuasuchus bellator (foto de Infográfico de Caio Fantini, Rodrigo Temp Müller, Mauricio Garcia).

Esta Ilustração mostra como seria o Tainrakuasuchus bellator, novo réptil pré-histórico descoberto no Rio Grande do Sul este ano (foto de Caio Fantinia/Divulgação).
Os répteis ancestrais dos dinossauros e a Pangeia
Os estudos do fóssil apontam também que o Tainrakuasuchus bellator seria uma espécie de parente de outro réptil pré-histórico, desta vez localizado no território onde hoje fica a Tanzânia, na parte oriental da África que é banhada pelo Oceano Índico.
Esse parentesco seria possível porque durante o Período Triássico, há 240 milhões de anos, existia um supercontinente no planeta – a chamada Pangeia. “No centro dessa imensa massa de terra, estendia-se um vasto deserto, o que fazia com que a vida se concentrasse principalmente nas regiões que margeavam essa área árida”, indica o documento divulgado pelos pesquisadores. “Foi nesse cenário que surgiram os primeiros dinossauros”.
A fonte ainda detalha que, no Triássico, esses répteis conhecidos como pseudossúquios – precursores dos jacarés e crocodilos de hoje – foram os principais predadores do período. Mas eles não eram dinossauros, pois pertencem a outro grupo de répteis, os Pseudosuchia.
“No Triássico, os continentes estavam unidos em um gigantesco território. Como consequência, as faunas do Brasil e da África compartilhavam componentes em comum.”
As análises conduzidas pela equipe de pesquisadores liderada por Rodrigo Temp Müller indicam que “o parente mais próximo” do Tainrakuasuchus bellator seria o Mandasuchus tanyauchen, espécie descrita a partir de fósseis encontrados na Tanzânia, na África.
A familiaridade seria uma consequência de como a Terra estava formada no Triássico, quando os continentes ainda estavam unidos em uma único e gigantesco território. “Como consequência, as faunas do Brasil e da África compartilhavam diversos componentes em comum, refletindo uma história evolutiva e ecológica entrelaçada”, diz o documento divulgado pelo paleontólogo brasileiro.
A descoberta joga luz ao período que antecedeu a ascensão dos dinossauros e coloca em evidência também o território onde hoje está o sul do Brasil, revelando que ele possuía comunidades variadas de répteis adaptados a diferentes formas de sobrevivência.




